“Tóquio 2020”

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“Desporto Com Sentido” abriu novos caminhos na inclusão - Alex Gaspar

Hino ao desporto adaptado, a modalidade de Boccia cresce na península de Setúbal desde 2011. E, hoje, leva 400 atletas a jogos onde o projecto “Desporto Com Sentido” fez e faz a diferença.

 

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O projecto “Desporto Com Sentido” da Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal (APCAS) trouxe a técnica, o saber fazer desporto, adaptado, nas mãos e nas palavras de professores e alunos.

Depois da técnica, abraçada em todo o país através de um pack de 20 manuais, sobre 20 modalidades desportivas, financiado pela EEA Grants Portugal, a garra de chegar mais longe veio com André Ramos e pelas mãos de outros corajosos atletas que, tal como ele, não se deixaram intimidar e criaram novas regras para contornar velhas barreiras.

Hoje, o atleta de 23 anos é federado na modalidade de Boccia e afia a pontaria para os Jogos Paralímpicos que a cidade de Tóquio, no Japão, receberá em 2020.

Uma conquista que está apenas à distância de um apuramento, certamente conquistado no próximo Domingo, no Open da Póvoa de Varzim, ou não fosse o André dono de uma certeza que se move além da vontade do corpo.

Do futuro o atleta também não tem dúvidas. “Tóquio 2020. E depois a meta é Paris 2024”.

Alex Gaspar

André é o reflexo dos resultados que o projecto “Desporto Com Sentido”, financiado pela EEA Grants Portugal trouxe à península de Setúbal, depois ao país e mais tarde à Europa.

A primeira fase de “Desporto Com Sentido” ficou marcada com a produção de um pack de manuais sobre 20 modalidades desportivas adaptadas, que levaram professores de Educação Física a contactar com as potencialidades do desporto adaptado. Seguiu-se formação que a APCAS também colocou no terreno através de um sexteto fantástico de profissionais do desporto que trabalham a tempo inteiro para a associação. Uma equipa que nem o Comité Paralímpico nacional tem a tempo inteiro.
E quando os jovens deixaram as escolas, o associativismo local também abriu portas como parceiro, para receber praticantes de diferentes modalidades de desporto adaptado.

Boccia foi uma das modalidades em que a APCAS apostou, pela sua génese associada a praticantes com paralisia cerebral. E o resultado positivo confirma-se com as 40 equipas que praticam a modalidade na península. Cada uma com 10 praticantes, no total constroem um universo de 400 crianças e jovens que praticam Boccia nas escolas e associações locais, com material inteiramente cedido pela APCAS.

Alex Gaspar

Desporto, uma forma de viver

 

O compasso da jogada é medido pelo tempo que o pé leva a responder à sua vontade. Os outros jogadores aguardam, em linha, o resultado de cada jogada alheia, mais concentrados no movimento que guia André até aquela pista, do que no jogo. Esta poderia ser uma manhã comum na Escola Básica da Cruz de Pau, no Seixal, mas é dia de receber a APCAS, com uma actividade de sensibilização para a prática de desporto adaptado.

Os alunos são convidados a experimentar tricicletas, cadeiras de rodas e bolas de Boccia, para perceberem como se pratica ciclismo, basquetebol ou boccia de forma adaptada. Também os professores que seguiram os “manuais mágicos da APCAS”, tiram dúvidas. A seu lado está o apoio de Ana Barradas, coordenadora da área de Desporto, Educação e Cidadania na APCAS e a experiência do campeão europeu André.

Quando o Boccia surgiu na vida de André há dez anos atrás, braços e mãos ainda respondiam ao comando. A chamada “motricidade fina” como explica. Depois, quando a implacável paralisia começou a pregar partidas ao seu insistente sistema nervoso central, a resiliência do atleta não se intimidou.

“Passei para o pé, que também tinha a suas manias, por isso concebi com a ajuda de um artesão um sapato adaptado, com uma plataforma na frente para estabilizar a bola antes da jogada”.

E foi “adaptado” a palavra que moveu o André e a APCAS para atingirem as metas da inclusão através do desporto.

Este ano André já conquistou o ouro em Itália. De Sevilha trouxe prata, sendo actualmente vice-campeão europeu de equipas. Aliás, a tradição das conquistas vem de longe.

“Logo no primeiro campeonato em que participei, em Loulé, conquistei apuramento. Daí não parei mais e dediquei-me a praticar e a melhorar o movimento”.

Alex Gaspar

“Com Sentido” nas escolas

 

Ao lado de André, a jovem professora Ana Barradas revela os desafios do desporto adaptado no quotidiano de escolas, associações e equipas, assim como o que foi possível alcançar através do projecto “Desporto Com Sentido”.

“Nós fazemos muitas actividades como a que desenvolvemos hoje na Escola Básica da Cruz de Pau.

Desde o primeiro ano ao secundário todas as escolas da península sabem que nós existimos e no início de cada ano lectivo procuram-nos para marcar actividades. Algumas não têm alunos com deficiência em prática desportiva, mas querem promover esta actividade na escola, para desmontar preconceitos. Outras têm alunos com deficiência a praticar desporto e pedem a nossa ajuda”.

Como resultados Ana Barradas destaca a maior receptividade dos alunos, que procuram os técnicos da APCAS para tirar dúvidas, sobre como podem ajudar os colegas na prática de determinada modalidade. E professores mais confiantes nos resultados do seu trabalho.

“Diria que, neste momento, todos os professores de Educação Física estão envolvidos na prática de modalidades de desporto adaptado devido ao conhecimento que o projecto “Desporto Com Sentido” veio colocar à disposição de todos”, afirma.

Alex Gaspar

“Estamos no topo da Europa, talvez do mundo”

 

Para José Patrício, presidente da direcção da APCAS é mais do que claro que, “dentro de dois anos o Seixal, que recebe a sede da associação e onde a sua actividade incide com maior expressão, será o concelho do país com maior oferta desportiva adaptada a pessoas com deficiência”.

Uma conquista que começou tímida, quando “Desporto Com Sentido” ainda era apenas uma ideia e ganhou forma através de um financiamento da EEA Grants Portugal, para apoio financeiro a projectos que têm como objectivo reduzir as disparidades sociais.

“Desporto Com Sentido” cresceu e colocou nas escolas do país 20 pequenos manuais sobre 20 modalidades desportivas possíveis de ser adaptadas a atletas com deficiência: ciclismo, rugby, voleibol, lutas amadoras, goalball, boccia, andebol, surf, atletismo, jogos tradicionais, natação, orientação, ténis de mesa, slalom em cadeira de rodas, canoagem, futebol, vela, equestre, ténis, dança. O plano cresceu no país, até chegar a toda a Europa. E, entre parceiros, sem barreiras, chegou ao mundo.

“O principal produto do projecto “Desporto Com Sentido” foram os manuais, 20 sobre as modalidades, mais um geral, sobre boas práticas no desporto adaptado”, explica José Patrício.

“Nos parceiros unidos em prol desta missão está a Direcção Geral de Educação, Câmara Municipal de Almada, Câmara Municipal do Seixal, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e a Federação Portuguesa de Desporto Para Pessoas com Deficiência”.

A este núcleo uniram-se 58 autores, convidados a participar com o seu conhecimento na produção dos manuais que são o coração de “Desporto Com Sentido”. E, a partir do saber destes especialistas nacionais, nasceu um novo olhar sobre a deficiência e a prática desportiva.

Depois de distribuir os manuais nas escolas, a APCAS centrou o segundo produto do projecto num desafio lançado a professores e alunos: produzir vídeos com a prática das modalidades adaptadas.

Nesse momento foi criada uma plataforma E-Learning, onde todos conteúdos multimédia ficaram disponíveis para consulta, sob a gestão do atleta paralímpico André Ramos.

“Estava concluída a primeira fase de “Desporto Com Sentido”. Com o financiamento do EEA Grants, 200 packs de manuais tinham sido distribuídos por diferentes instituições ligadas à Educação e ao Desporto em todo o país. Mas queríamos ir mais longe”.

Avançou então a segunda fase do projecto. Produzir mais cinco mil packs.

O financiamento para o novo desafio de “Desporto Com Sentido” foi conseguido através do Alto Patrocínio da Presidência da República, Instituto Português da Juventude e Instituto Nacional para a Reabilitação.

Parcerias que “vieram afirmar o reconhecimento do trabalho desenvolvido pela APCAS e levam José Patrício a lançar a ideia de que, “talvez não exista mesmo outro produto igual em todo o mundo”.

Com mais cinco mil packs foi possível levar estes manuais a todos os agrupamentos escolares e câmaras municipais do país e a alguns estabelecimentos de ensino superior, com cursos de desporto. “Estrategicamente os manuais foram também distribuídos em associações da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], que têm estruturas governamentais ligadas ao desporto adaptado”, explica o professor.

A partir desta acção surgiu a real internacionalização.

“Começamos a apresentar o pack de manuais do “Desporto Com Sentido” em vários congressos europeus e temos neste momento Croácia, Roménia Espanha e Inglaterra com grande interesse na tradução destes manuais para inglês”. Esta será a terceira fase do projecto.

“Não será fácil de gerir, uma vez que envolve direitos de 58 autores” afirma José Patrício, “mas não será impossível”.

Alex Gaspar

Internacionalização trouxe conclusões inesperadas

 

Hoje, “Desporto Com Sentido” é assumido pela APCAS e pelos seus parceiros como “o início de um percurso para conseguirmos chegar a um conjunto de boas práticas oficiais no desporto adaptado, definidas a nível europeu”.

E é a partir desta conquista que a APCAS revela outros novos planos. “A candidatura a um novo projecto, desta vez ao abrigo do programa ERASMUS+, financiado pela Comissão Europeia, para criar o sonhado modelo de boas práticas europeias”.

No grupo de heróis que podem abraçar o novo desafio está o Instituto Português do Desporto e Juventude, o Comité Paralímpico Europeu, a UNESCO, a TAFISA – The Association For International Sport for All (na tradução livre, Associação Internacional de Desporto Adaptado), e um centro de investigação holandês que desenvolve trabalho na área do desporto. Facto curioso. “A APCAS lançou o convite, sem pretensões de que todos participassem. “Todos aceitaram”.

Fica lançada a pedra para os novos desafios europeus do desporto adaptado, que começaram um dia com as primeiras jogadas e vitórias de “Desporto Com Sentido”.

 


“Os nossos alunos ganharam coragem para ajudar”

A Escola Básica da Cruz de Pau é uma referência para alunos surdos e com paralisia cerebral. Nas suas salas e pátios, crianças e adultos encontram resposta para muitas questões relacionadas com a deficiência.

Para Anabela Vicente, professora nesta escola e membro da direcção da APCAS, “muitas dúvidas caíram a partir do momento em que trouxemos o desporto adaptado para a nossa prática diária”.

A presença pontual dos professores da APCAS trouxe, sobretudo, “coragem aos alunos que agora questionam e querem ajudar os colegas a superar barreiras, sem medos”. Um desafio que apenas foi possível abraçar “através dos manuais de “Desporto Com Sentido”, que vieram trazer um leque de novas práticas e possibilidades”.

Alex Gaspar

 

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