Entre o ritual das sextas e o embrulho com Salazar

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Montijense José Maria Futre, 91 anos, leitor assíduo do jornal, partilha vivências

 

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A rotina já vem de há uns tempitos largos e é tão prazenteira quanto infalível. “Levanto-me, lavo-me, visto-me e venho para a rua ouvir as asneiras daquela malta”. É assim que José Maria Futre (Zé Maria para os amigos) descreve como começa os dias, a caminho que está das 92 Primaveras.

A malta é a brigada dos compinchas, de uma geração que acumula a sapiência de uma vida. A rua pode resumir-se à Praça da República, na baixa do Montijo, que serve de ponto de encontro e permite descansar os ossos nos banquitos castanhos de madeira, onde se trocam incontáveis dedos de conversa e se relembram histórias antigas.

Mas, às sextas-feiras, o ritual diário de Zé Maria é ainda mais rico e igualmente inevitável. O investimento na leitura é sagrado, logo pela manhã. O homem devora as letrinhas todas – sobretudo as que se conjugam para anunciar as últimas cá do burgo –, de tal forma que até as indispensáveis “lunetas” que o ajudam a ver melhor se devem queixar, não fosse ele um dos assíduos leitores mais antigos do jornal.

“Sou leitor desde sempre, desde o Jornal do Montijo, que passou a Diário da Região e agora a O SETUBALENSE. E hei-de continuar a ser até morrer. Gosto de ler, de saber coisas, mais de saber as notícias da minha terra”, confessa, mas com ar surpreso por lhe parecer desajustado ter de responder a algo tão óbvio.

De face bronzeada e sorriso fácil, que traduz dose farta de simpatia e boa disposição, sem barriga e com os costados direitos – de fazer inveja a muito bom jovem –, Zé Maria mostra-se em forma e, acompanhado do inseparável boné amigo que ajuda a aquecer os neurónios e a proteger a já menos generosa trunfa grisalha, não se detém quando toca a relatar a forma como ocupa o tempo.

“Gosto de dar umas voltinhas e de rever as festas, do Montijo, pois, numa aparelhagem que montei para ver aquilo que costumava filmar. O resto é comer, beber e passear”, revela, por entre sorrisos soltos.

Num ápice, o gosto por dar à língua acentua-se e passa rapidamente em revista fases distintas do trajecto que desde sempre percorreu no Montijo.
“Nasci nos Pescadores [bairro] em 1928. Mudei-me com os meus pais para a Rua Gago Coutinho. Fui para a escola, arranjei namoro, casei e fui morar para a Rua Miguel Bombarda. Trabalhei na Câmara, onde comecei em 1953, no tempo do presidente José Leite. Era motorista. Estive lá para aí uns 40 anos. Até me reformar, em 1987”, conta, em jeito de resumo a uma vida, lembrando que ficou viúvo há cinco anos e que é “bem apoiado” pelo filho, também motorista na autarquia montijense, pela nora e pela neta.

O gajo da PIDE com espingarda e a ordem de detenção

Histórias para contar tem aos molhos, para dar e vender, guardadas numa memória que “já não é o que era”, lamenta.
“Quando rebentou o 25 de Abril passei para as oficinas municipais. Montei as oficinas, uma de sinalização e outra de serralharia, e fiz uma máquina para [pintar] passadeiras [para peões]. Hoje já não há nada disso”, recorda e volta a soltar nova gargalhada.

A conversa flui e Zé Maria abre mais um capítulo no livro de lembranças, que arruma nos recônditos da memória e aceita contar, ao mesmo tempo que faz jus ao facto de deter um delicioso manancial de episódios experimentados.

“Lembro-me de António Serra, presidente da Câmara [do Montijo], me ter mandado agarrar no carro e dizer-me para levar mais um [colega] comigo para irmos entregar uns embrulhos a Lisboa, onde estava o [António de Oliveira] Salazar”, relata, provocando algum suspense. “Já não me lembro onde era”, adianta, sem deixar de criticar a memória pela pequena traição antes de prosseguir.

“Sei que, quando chegámos, dirigi-me às traseiras da residência, toquei à campainha e apareceu-nos um gajo da PIDE com uma espingarda, acompanhado por outro homem. Identifiquei-me: Câmara Municipal do Montijo. Pus o carro lá dentro e já não me deixaram mais mexer na viatura”. Até aí tudo bem, não obstante a arma fazer parte do comité de boas-vindas.

Mas a coisa complicou-se. “Enquanto estávamos à espera que os homens descarregassem do carro os embrulhos, que nunca soube o que era, espreitei lá para dentro e vi o Salazar a passar no corredor. Era proibido entrar, mas entrei e fui cumprimentá-lo, apertei-lhe a mão. Tudo do melhor”, atalha, sublinhando que o pior estava reservado para depois. “Quando vinha a sair tinha ordem de prisão. Mas lá apareceu um senhor que explicou que cumprimentei o presidente com muito respeito e carinho e que ele [Salazar] tinha gostado muito. Lá me safei”, lembra, apresentando na expressão um misto de troça e alívio. “Estive lá [detido] uma ou duas horas. Nem me fale nisso…”, concluiu.

Benfiquista pelas cores do 11 Unidos do Montijo

O futebol também lhe atrai a atenção. Confessa-se adepto das águias e avisa logo à cabeça: “Ferrenho não sou, mas gosto do Benfica”. E explica: “Primeiro fui do 11 Unidos do Montijo, que era vermelho e branco. Mas o clube fez uma fusão com o Aldegalense e o Avenida, dando origem ao [extinto] Clube Desportivo do Montijo. Como o Desportivo adoptou as cores da cidade, amarelo e verde, tinha de arranjar outro clube vermelho e branco, mas sem deixar de ser do Montijo. E escolhi o Benfica”.

A festa brava é outra das predilecções. “Fiz largadas de toiros à antiga portuguesa ao pé de onde está hoje o Lidl, para os lados do campo do Olímpico do Montijo”, frisa, juntando a rematar: “Colocávamos um redondel para fazer as largadas.”

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