A última olaria de Setúbal está viva e de portas abertas

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ALEX GASPAR

Joaquim Mateus herdou do pai os ensinamentos e a olaria que hoje é a única a funcionar na cidade, à vista de todos. Os filhos já não lhe seguiram as pisadas, mas é com a ajuda de dois irmãos que mantém vivo este ofício antigo transformador do barro em peças utilitárias, ou decorativas, únicas

Joaquim Mateus ainda se recorda como há 50 anos o barro chegava à olaria do seu pai, que surge de pé numa já apagada fotografia a preto e branco pendurada na parede do fundo do armazém. Alinhados no murete que dá acesso à olaria, o pai surge à direita acompanhado de um sócio, do seu irmão mais velho e de mais dois oleiros, descreve Joaquim, de dedo apontado para a imagem. Em primeiro plano, vê-se “o carroceiro que ia buscar lenha e barro” para abastecer a olaria, que funciona num armazém centenário, no número 34 da Rua António José Baptista, em Setúbal, desde 1960.

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“É a única olaria” ainda em funcionamento na cidade, afirma Joaquim. Não que isso lhe traga qualquer estatuto, antes razões para lamentar o estado a que chegou este ofício, em tempos muito dinâmico, e que hoje obriga quem nele trabalha a fazer de tudo para subsistir. Mas, graças ao apoio da família e a tudo o que herdou do pai (que o deixou com 94 anos em setembro do ano passado), Joaquim tem conseguido manter a olaria de Setúbal de portas abertas – e bem activa, ou não houvessem, felizmente, encomendas para despachar.

A família sempre esteve presente no seu percurso de vida, conta Joaquim, e as paredes de pedra do gigante armazém da olaria guardam histórias e memórias felizes. Por exemplo, desde os tempos em que, com 13 anos, saía das aulas para ir ajudar o pai, Francisco Maria Mateus. “O meu pai é que fundou esta olaria em 1960. O meu avô já tinha uma olaria em Santo Ovídeo e o meu bisavô também já tinha tido uma na zona de Serpa”, conta. “Hoje tenho 61 anos, é uma vida no meio do barro”, apercebe-se o oleiro enquanto discorre sobre o seu percurso de vida.

Depois, Joaquim seguiu os estudos, cursou Economia em Lisboa e, mesmo assim, não eram raros os dias em que saía “a correr para ir lá abaixo apanhar o autocarro para Lisboa”. Semana sim, semana não, ia buscar barro a uma barreira nos Brejos do Assa e ramas de eucalipto e pinheiro para servirem de lenha para o forno de cozer as peças (hoje o forno que utilizam é eléctrico). “Sentia-me na obrigação de ajudar o meu pai, que me estava a suportar os estudos em Lisboa”, justifica.

O irmão mais velho e a irmã desde sempre o ajudaram. Ela, “mais na parte da pintura” por ter mais sensibilidade para os minuciosos desenhos. E ainda hoje eles lá estão, na olaria, assim como Manel, um homem que “morava nas redondezas”, aprendeu tudo com o pai de Joaquim e ficou ali a trabalhar. É ele, por estes dias, que coloca as mãos no barro, moldando-o na roda de oleiro eléctrica. Antigamente eram cinco rodas, todas a pedal.

Joaquim Mateus explica que “na olaria não se começa por aprender a fazer a loiça, aprende-se a amassar o barro”, ou seja, a “transformar o barro bruto – que chega das barreiras em torrão – numa massa homogénea”, molhando-o dentro de um tanque. Uma vez que tenham aprendido a moldar o barro, os aprendizes passam então para a roda de oleiro, onde a peça, efectivamente, ganha o formato final antes de ser posta a secar ao ar e ir ao forno a temperaturas que podem chegar aos mil graus celcius.

Os anos 1980 foram “uma época áurea” para o negócio. O barro que utilizavam era melhor que o da concorrência e os clientes, reconhecendo qualidade, “é que faziam os preços”. Da olaria e de outro espaço de fabrico que tinham em Lagameças saíam alcatruzes (potes que os pescadores usavam antigamente como armadilha para a apanha do polvo), alguidares (com que muitos amassavam a massa para as filhoses, por exemplo), vasos de jardim e tantas outras peças utilitárias, como assadores de castanhas. A mudança dos hábitos de cozinhar, a falta de tempo para cuidar da casa e a oferta massificada que tomou conta dos hipermercados ditaram, enfim, a quebra na procura até hoje.

Joaquim percebeu então que tinha de começar a apontar agulhas para mercados, feiras medievais e festivais de sopas, estes especialmente bons para vender tigelas personalizadas. São um campeão de vendas, com até 400 nomes disponíveis, conforme se viu na banca que a olaria teve este ano na Feira de Sant’Iago. Por outro lado, o advento do turismo veio também dar um contributo. Os turistas que visitam a cidade adoram levar para casa os barquinhos a dizer “Setúbal”, por exemplo. Na cidade, essa e outras peças vendem-se nos Paços do Concelho, Moinho de Maré da Mourisca, Mercearia Confiança do Troino e Casa da Baía.

A nova procura de mercado obriga o oleiro a ser inventivo e a idealizar peças que vão ao encontro das necessidades dos clientes, daí estar a fazer, agora, potes para guardar e servir azeitonas. Em pensamento está também a ideia de criar um espaço que funcionasse como loja e oficina no centro de Setúbal, para dar a conhecer este ofício que tanta gente desconhece, ou, no caso dos mais novos, nem sabe que existe. “As pessoas não sabem e não dão valor ao facto de terem uma olaria em Setúbal”, lamenta Joaquim. Mas agora já sabem que ela existe e que está de portas abertas.

 

Foto Alex Gaspar

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