Coro Setúbal Voz e Teatro O Bando actuam no Teatro Nacional D. Maria II

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Jorge Salgueiro. ALEX GASPAR

De 14 a 17 e de 20 a 24, “Purgatório” sobe a um dos maiores palcos da capital

 

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No mês em que o Coro Setúbal Voz e o Teatro O Bando levam “Purgatório” ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO entrevista Jorge Salgueiro, responsável pela dramatofonia, música e direcção musical do espectáculo, sobre o seu percurso enquanto compositor e maestro e a sua ligação a Setúbal.

 

“A minha relação com Setúbal começa na Academia Luísa Todi, quando decidi levar a música de uma forma mais a sério e começar os meus estudos. Antes, tinha estado na Sociedade Filarmónica Palmelense ‘Loureiros’, mas de uma forma ainda ‘amadora’”, começa por dizer, considerando que esta decisão, tomada quando tinha 13 anos, de apostar na sua formação foi a confirmação de que queria mesmo ser músico. Hoje, é director artístico do Coro Setúbal Voz, membro da direcção artística do Teatro O Bando e compositor residente da Foco Musical.

ALEX GASPAR

“A direcção de um conjunto de músicos é uma actividade muito importante. Costumo dizer que o compositor dirigir a sua obra é como ser o pintor a escolher a moldura para os seus quadros”, diz. “É o próprio criador a dar a sua visão da obra, mas na verdade as obras podem ser dirigidas por muitas outras pessoas e cada uma dessas pessoas terá a sua própria visão”, continua.

 

A primeira vez que dirigiu profissionalmente um agrupamento de forma fixa foi também em Setúbal, com o Coral Infantil de Setúbal. Autor de mais de 270 obras, entre as quais 11 óperas, 6 sinfonias, duas fábulas sinfónicas e um requiem, Jorge Salgueiro compõe para orquestra, banda, coro, música de câmara, para teatro, bailado e também para crianças – caso de que é exemplo a Foco Musical, organização na qual compõe e também dirige.

 

Entre 2000 e 2010, foi compositor residente da Banda da Armada Portuguesa e este é, nas palavras do maestro, uma experiência muito importante para o seu desenvolvimento enquanto compositor. “Tinha a possibilidade de escrever e experimentar as minhas composições com músicos profissionais, de enorme valor artístico, conversar com eles e perceber tecnicamente se as obras se adequavam aos instrumentos. Aprendi muito no contacto directo com eles”, conta, adiantando que escreveu nessa altura “algumas das obras mais importantes” que tem.

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Em Setúbal começou e em Setúbal soma e segue…

De 2017 a 2018, foi compositor residente da Banda Sinfónica Portuguesa. E 2017 foi também o ano em que foi tempo de voltar a fixar-se em Setúbal, desta vez para trabalhar com o Coro Setúbal Voz, instituição da qual é o director artístico desde 2017. Apesar de já ter dirigido “em praticamente todo o país, e até fora, em projectos pontuais”, voltou sempre à cidade do rio azul. Para o maestro, “Setúbal foi sempre o início de uma relação profissional de médio-longo prazo”.

 

O projecto que tem vindo a desenvolver com as quase 70 pessoas que constituem o Coro Setúbal Voz tem sido “uma aprendizagem enorme”. No tempo do maestro Fernando Lopes-Graça, Jorge Salgueiro recorda que “os coros eram entidades muito vivas e presentes na sociedade portuguesa, muito participados, com actividade regular e muito interessante”.

 

Com o tempo, “os coros amadores espalhados por todo o país foram cristalizando e não houve uma renovação”. Perante este facto, Jorge Salgueiro achou que era tempo de dar o seu contributo para alterar o cenário dos coros em Portugal e apresentar uma nova visão sobre os mesmos, tendo em conta o papel desempenhado pelos coralistas em palco. “Os coralistas são uma presença e essa presença deve ser assumida e explorada. Quando as pessoas estão a cantar num coro parece que o corpo desaparece mas não é verdade”, refere, esclarecendo que “foi a partir desta noção de que as pessoas ocupam um espaço real que comecei a trabalhar a presença do coro em cena, a consciência de estar em palco”.

 

Coro Setúbal Voz e Teatro O Bando completam-se em palco

Neste sentido, o Coro Setúbal Voz fez, durante estes dois anos, vários concertos em lugares “inusitados ou menos habituais”, nos quais existe relação com uma dramaturgia e a encenação dos espectáculos. Cada um com o seu tema, a história é contada por todos os presentes em cena. “A relação com o Teatro O Bando vem precisamente consubstanciar esta nossa noção. Trabalhar a presença, a corporalidade e a coralidade, tendo presente a noção de conjunto e a busca de uma identidade vocal, tem aprofundado a nossa visão teórica e a práxis, a nossa maneira de estar e de ver os coros, desembocando nesta grande produção que é o ‘Purgatório’”, explica.

 

O Teatro O Bando, com quem o maestro Jorge Salgueiro colabora há 20 anos, escrevendo praticamente todas as bandas sonoras das peças de teatro, é também um dos marcos mais fundadores da sua personalidade como artista: “tem-me dado uma visão muito mais abrangente do que é a música e o seu enquadramento nas artes, no teatro, na cenografia, nos figurinos, nas artes plásticas e na literatura”, diz.

ALEX GASPAR

Assim, de 14 a 17 deste mês, e posteriormente de 20 a 24, e depois de ter estreado no Fórum Municipal Luísa Todi, a junção acontece. A criação do Teatro O Bando e do Coro Setúbal Voz, com texto de Dante Alighieri e tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen, vai até ao Teatro Nacional D. Maria II para um total de nove espectáculos, neste que é “um momento muito importante para todos nós” e que posteriormente será gravado no primeiro CD do Coro Setúbal Voz.

 

A dramaturgia e dramatogenia está a cargo de Miguel Jesus. A encenação é de João Brites, a corporalidade de Juliana Pinho e é Rui Francisco o responsável pela cenografia. Os figurinos e adereços, por sua vez, são de Clara Bento. Para além dos coralistas, em palco estarão também Fernando Luís, Nélson Monforte, Rita Brito, Sara Belo e o resultado do trabalho realizado por uma vasta equipa.

ALEX GASPAR

Texto Inês Antunes Malta

Fotografia Alex Gaspar

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