Rogério Chora: “Setúbal é uma inspiração”

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Dos barcos de pesca às ruas do centro histórico, toda a cidade se revê nas telas pintadas por Rogério Chora, o único pintor que conseguiu manter-se em Setúbal vivendo em exclusivo da profissão. E que continua a pintar com mesmo a paixão de sempre, aos 78 anos

 

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Rogério Chora, 78 anos, é um dos mais consagrados pintores da sociedade artística setubalense. Querido por muitos, admirado por outros tantos, colecciona hoje centenas de obras fruto de uma carreira com mais de 60 anos dedicados às telas e aos pincéis. O primeiro desenho fê-lo logo aos quatro anos: uma chávena. Aos oito, percebeu que era com a cor que animaria as suas criações. Daí a ser um dos autores de uma exposição de pintura infantil patente no salão nobre dos Paços do Concelho, tinha então 14 anos, foi um processo rápido, de traço decidido. Foi nessa altura que pintou a primeira aguarela e a primeira pintura à vista, já na Escola Industrial e Comercial de Setúbal.

Como que adivinhando o seu próprio percurso, certo é que já aos 13 anos contava aos jornalistas da Gazeta Setubalense os seus planos, enquanto deles esboçava um retrato: queria ir para a escola de artes decorativas António Arroio, em Lisboa, e seguir Belas-Artes. Estávamos em 1956. Anos mais tarde, tudo o que de promissor a imprensa anunciava – “tudo em Rogério Chora nos faz admitir ter ele nascido já artista, senhor daquele dom natural que, mais tarde ou mais cedo, feito realidade, concede o lugar à consagração” (O Setubalense, 1962) – viria a confirmar-se.

Em Belas-Artes Rogério Chora experimentou pintura, litografia (desenho de letra, publicidade), escultura e até cinzelagem e cerâmica. A pintura, claro, sempre o acompanhou sob a forma de “um desejo interior, algo que nos puxa”, descreve, enquanto recorda o seu percurso académico e artístico sentado no seu atelier, em Setúbal. Rodeado de milhares de pincéis, trinchas, recipientes de tintas e dezenas de telas, umas acabadas, outras à espera dos toques finais, lembra também como, de forma natural, descobriu a sua “linha própria” como artista, neste caso hiper-realista. “A pintura figurativa é o bom para mim”.

E Setúbal, de uma forma ou de outra, sempre foi uma inspiração por via dos locais que frequentava desde criança, filho de setubalenses. “Sempre gostei de Setúbal, e como pintor, sempre gostei de pintar os motivos da nossa terra relacionados com o mar, figuras populares, paisagens. Também fiz algumas coisas sobre o Alentejo”, diz, apontando para uma tela que retrata uma planície. Foi ao mar, porém, que Rogério Chora foi “beber” as maiores inspirações, aprendendo a pintar a faina, os pescadores, a movida da lota, os barcos e os reflexos de sombras e cores na água com um realismo quase fotográfico.

Unanimemente, é considerado um dos maiores pintores de Setúbal, alguém que ao longo dos anos foi olhando para a cidade com olhos de ver, ora mais objectivos, ora mais “românticos”, para a pintar como se a eternizasse. “É preciso ter amor pela cidade. Gosto de pintar as figuras que ninguém considera, figuras populares ligadas à parte marítima. Gosto muito de pintar o mar”, confirma o setubalense. A tal pintura dos reflexos na água, conseguiu fazê-la ao fim de anos de trabalho e aperfeiçoamento. Os barcos saveiros, a apanha da ostra, a paisagem urbana de Setúbal, os monumentos, a indústria, a Serra da Arrábida e figuras maiores da literatura e da História local, como Bocage, ficaram até hoje transportas para as telas. Muitos talvez não saibam, mas Rogério Chora foi também o autor do bonito painel de azulejos que decora a fachada do Centro Comercial do Bonfim.

Sentado no ateliê, recorda por fim a mensagem preocupada que o pai lhe passou, era ainda um jovem pintor anónimo na cena setubalense: “O meu pai dizia que a pintura não dava pão”. Mas se há coisa que ainda hoje lhe dizem é que “foi o único pintor que conseguiu sobreviver em Setúbal com base na atividade da pintura”. Os setubalenses, que tanto têm assistido a profundas transformações na cidade e no seu espaço urbano, podem olhar para a pintura de Rogério Chora como uma memória viva do que a cidade já foi, e da beleza que sempre teve.

Foto: Alex Gaspar

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