Freguesia do Sado: recantos com sabor a sal à vista da Arrábida

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Numa das freguesias que acolhe um dos maiores pólos industriais de Setúbal e do país, a natureza continua a ser uma pérola a descobrir e a preservar. Roteiro com Manuel Véstias, presidente da Junta de Freguesia do Sado, pelos locais que mantêm a população ligada ao rio

 

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Manuel Véstias aponta para a imensidão de sapais à sua frente, grandes espelhos de água de formato rectangular delimitados por terra, num sítio que se chama Monte de Cabras, rodeado de mato. “Neste momento já é visível a preparação de alguns tanques para piscicultura”, explica o presidente da Junta de Freguesia do Sado debaixo de um sol ameno de Outubro. O estuário do Sado, reserva natural, continua a ser berço de importantes matérias-primas para muitas actividades económicas na freguesia e no concelho, e prova disso são os crescentes viveiros de peixes e ostras que se estão a instalar no território, empregando várias pessoas.

Como se sabe, não é de hoje a relação das populações com o rio Sado. Por ter condições naturais excepcionais para a produção de sal, as salinas dominaram durante muitos anos a paisagem plana do território, atividade que se manteve desde o tempo dos romanos até praticamente aos anos 1990. “Daqui era extraído o sal que era utilizado nas fábricas de conserva de peixe em Setúbal e nos bacalhoeiros, para salgar o bacalhau”, lembra Manuel Véstias. “Quando as salinas foram desactivadas procuraram-se alternativas como a piscicultura e a ostricultura”.

Até à década de 1940 o crescimento da zona foi pouco significativo. Quando a apanha das ostras se afirmou como principal ocupação económica, dezenas de famílias provenientes de Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém acorreram à região, mantendo a actividade pujante até aos anos 1960. A poluição causada, mais tarde, pela implantação das fábricas e a quase extinção da espécie portuguesa de ostra fizeram com que o negócio quase desaparecesse, mas ele recuperou e hoje está dinâmico, com vários produtores a instalar viveiros nos sapais do rio, produzindo ali muitas das ostras que se comem em Portugal e no estrangeiro.

As salinas lá estão, abandonadas, mas não esquecidas. Pelo seu simbolismo como atividade tradicional da freguesia, surgem lembradas na rotunda artística da rua principal de Praias do Sado, onde foi inaugurado, o ano passado, um monumento em homenagem ao salineiro, da autoria do artista setubalense Pedro Marques. E, recorde-se, foram também mote a uma exposição com fotografias de Américo Ribeiro e artefactos ligados à extracção de sal, que esteve patente na sede da junta de freguesia.

“As pessoas acabaram por se fixar nesta zona procurando trabalho na indústria. Mas nunca voltando costas ao rio. Ainda hoje há uma forte ligação da população ao rio, quer com a actividade piscatória quer com uma actividade agrícola familiar”, nota Manuel Véstias enquanto conduz o passeio até à Herdade da Mitrena. Ali chegados, não deixa de ser impressionante como um cenário natural como o dos sapais pode coexistir com um horizonte de traços fabris. O espaço, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, infelizmente não está assinalado do ponto de vista turístico, mas tem um caminho, uma pequena ponte, zonas de lazer e dá acesso a uma lagoa.

Um casal de turistas francês, a viajar de autocaravana, confirma a necessidade de aquele local estar melhor identificado. Desnorteados e a tentar decifrar um mapa que os leve ao Moinho de Maré da Mourisca, são prontamente ajudados pelo presidente, que os guia até ao destino no seu automóvel particular. As placas na estrada não permitem enganos e facilmente se chega àquele que é um dos principais atractivos turísticos da freguesia, situado no Faralhão.

Construído no século XVIII, o moinho de maré da Mourisca foi um dos quatro moinhos erguidos no estuário do Sado para moagem de cereais através da força da maré. Uma vez recuperado em 1995 e, mais recentemente, requalificado por iniciativa da Câmara Municipal de Setúbal, tornou-se um centro de interpretação da natureza e uma autêntica sala de visitas, com bar, esplanada e loja de produtos regionais, visitado por turistas nacionais e estrangeiros.

O pequeno cais-palafítico construído em estacas de madeira enterradas no sapal confirma a ligação da população ao rio, pois tanto serve de cais de partida para passeios de barco pelo rio Sado, como para os pescadores amarrarem as suas artesanais embarcações de madeira. É também ali que acontecem o Observanatura – evento vocacionado para o turismo de natureza e que promove as maravilhas da fauna e flora do estuário, habitat de flamingos e dezenas de outras espécies de aves – e as mais populares Festas do Moinho de Maré da Mourisca, organizadas pela junta de freguesia.

Ao caminhar pelo Passadiço das Aves, com esculturas da autoria do mesmo artista do monumento ao salineiro, Manuel Véstias chama novamente a atenção para as movimentações de terras que, adiante, se irão transformar em novos viveiros de aquicultura. Outra das actividades ligadas ao rio, acrescenta o autarca, é a apanha de isco pela técnica do casulo que tem lugar também na zona de sapais. “Ainda hoje há uma forte ligação da população ao rio”, diz Manuel Véstias. Ali, vive-se com os esteiros de sal na memória e o rio eternamente presente, à vista da Arrábida.

 

Freguesia amiga do ambiente

“As questões ambientais são uma preocupação da Junta de freguesia, do concelho e da população”, afirma Manuel Véstias. Prova disso foi a certificação do Selo Verde obtida pela junta de freguesia, que se candidatou a um programa da Câmara Municipal de Setúbal para distinguir boas práticas ambientais. “Não usarmos utensílios descartáveis, fazemos reciclagem, aproveitamento da água da chuva para rega, temos energia captada através de painéis solares, consumo de água racional e lâmpadas led”, exemplificou. Pontualmente, a junta de freguesia colabora também em acções de voluntariado que promovem a apanha de lixo no estuário do Sado, encaminhado os resíduos apanhados para reciclagem.

 

Foto: Alex Gaspar

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