Candidato mais excêntrico destas legislativas corre por Setúbal

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Faz campanha de Bentley descapotável e assume o lado festivo. “O importante é não confundir o fundo com a forma”, diz o candidato a deputado que defende o salário mínimo a 850 euros

 

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Casado com uma mulher loira, ucraniana e com metade da sua idade, e ao volante de um invulgar Bentley descapotável, Carlos Medeiros, o candidato mais excêntrico destas eleições legislativas não se importa de ostentar o que tem, desde que se saiba que foi conquistado com mérito.

No dia em que posou para O SETUBALENSE-DIÁRIO DA REGIÃO, em plena Praça do Bocage, com a familia completa e incluindo o cão de colo, foi surpreendido pela passagem casual da presidente da Câmara Municipal e fez questão de apregoar esse valor. “Fui para a Suíça com 14 contos no bolso”, gritou para Dores Meira ouvir.

Ao jornal, acrescenta depois que emigrou em 1987, com 21 anos de idade, “sem conhecer ninguém e sem falar a língua”, e, que passados 28 anos, foi eleito primeiro cidadão da cidade de Genebra.

“O importante para mim é o mérito. O meu pai, operário do Bairro Alto, em Lisboa, transmitiu-me os valores do trabalho e da honestidade. A minha mãe tinha que lavar escadas para me dar umas calças Lois. As Lévis, então, estavam fora de questão. Por isso dou valor.”, explica.

Conta que na Suiça teve períodos de estar seis anos sem conseguir vir a Portugal. “Não tinha condições porque investia tudo o que ganhava e chegava a trabalhar 18 horas por dia”. Tinha negócios nocturnos, bares e discotecas, e outros diurnos, restaurantes e lojas. Trabalhava quase todas as 24 horas do dia. “Adormecia nas reuniões”, recorda.

Por isso diz que “o mérito é o mais importante que há” e que “o sacrifício está à altura dos estudos. É isso que ensino aos meus filhos, que devem estudar mas que só isso não chega. É preciso trabalhar”. E dá o seu exemplo. Com o 10.º ano de escolaridade, é um autoditacta. “Sou um descendente do trabalho. Como diz o Ronaldo, os bons resultados são 10% de inspiração e 90% de transpiração”.

Em Genebra, subiu a pulso até chegar ao mais alto cargo político alguma vez conquistado por um português em terras helvéticas. Foi presidente do Conselho Municipal de Genebra – similar à assembleia municipal em Portugal –, o que corresponde ao estatuto de primeiro cidadão da cidade.

“Fui subindo gradualmente na hierarquia política municipal, e, quando cheguei ao topo, a presidente, prometi que quanto terminasse o mandato, saía. E assim fiz.” Terminou o mandato em 2016. Cumpriu a promessa de sair, mas saiu com estrondo, despedindo-se numa conferência de imprensa em que apareceu aos jornalistas como uma estrela de rock, com um casaco de brilhantes.

“Tive sempre este lado festivo. Sou uma pessoa divertida, gosto de divertir-me mas sempre sem excessos e com respeito”, conta, acrescentando que numa teve problemas “nem com a polícia nem com qualquer outra autoridade”.

Recorda que na Suíça, onde o sistema político é uninominal, as pessoas votavam no seu nome [e não no partido]. “Fui reeleito várias vezes, sem problemas e sempre a crescer eleitoralmente, apesar da imprensa noticiar a minha forma peculiar de ser”.

Admite que o politicamente correcto “faz faísca” com o seu carácter e tem noção que a irreverência com que desempenha os cargos atrai a atenção de muita gente que geralmente não liga a política. “As reuniões do conselho municipal a que presidi tornaram-se líderes de audiência na televisão local – a Lemanblue – que as transmitia”.

 

O estranho novo vizinho do Viso

 

Em Setúbal, Carlos Medeiros fixou residência no Viso, popular bairro de pescadores. Quando vai ao café, comprar cigarros, o carro chama a atenção e a sua presença no estabelecimento transforma-se, geralmente, numa peculiar cavaqueira com desconhecidos. O novo vizinho causa estranheza.

A mulher Liliia Medeiros, de 26 anos, ucraniana, é 27 anos mais nova do que Carlos Medeiros. Aliás, até o sogro também é mais novo. Os dois filhos, um de cada mulher, são Sarah Medeiros, de 22 anos e estudante do segundo ano de Direito, e Michael Medeiros, de 9 anos, também estudante já em Portugal.

Quando se sai com as suas ideias, como foi o caso de defender o salário mínimo de 850 euros, Santana Lopes dá-lhe palmadinhas nas bochechas e diz-lhe: “Você é um temerário”. Identifica-se com o líder do partido e foi isso que o fez “ir atrás” e tornar-se militante a candidato do Aliança.

“Sei de onde venho. Nunca perdi o pé. Por isso não posso aceitar que as pessoas ganhem 600 euros de salário. Na feira uma volta no carrossel custa 3 euros, mas a força laboral é mal paga. Eu estou pelo povo. Não no sentido populista, mas por ter visto os meus pais oprimidos.”, afirma.

Para o candidato a deputado, “o modelo económico baseado nos baixos salários é do século IXX”. Defende que “o que temos é de dar dinheiro às pessoas e aumentar o valor acrescentado da economia”.

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