“Graffitar é tornar paredes frias em arte”

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Biblioteca Municipal e zona Polis perdem ‘tags’. Mas ganham novo rosto, num Barreiro que defende a street art e o fim do vandalismo. Próximo passo será pintar, além dos edifícios públicos, os privados

Os grafittis acumulados nas paredes dos edifícios da cidade do Barreiro fazem parte da paisagem há muito tempo.

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Os desenhos e assinaturas, ou grafittis e tags como muitos designam, marcam a fachada da Biblioteca Municipal e o muro da zona Polis, assim como os Paços do Concelho, Escola Básica José Joaquim Rita Seixas, antigo Tribunal, Piscina do Barreiro, Academia de Xadrez, Biblioteca Municipal e Parque Catarina Eufémia. E, é nestes edifícios que a Câmara Municipal do Barreiro, estará a realizar intervenções ao longo dos próximos seis meses, com o objectivo de dar uma imagem limpa e requalificada ao Barreiro. Numa segunda fase o objectivo será chegar a edifícios privados.

Para a Câmara Municipal do Barreiro e para quem representa a street art estes desenhos não representavam a génese arte. Mais próximos, talvez, do vandalismo e consequente poluição visual.

A opinião é partilhada pelos vereadores João Pintassilgo e Bruno Vitorino e pelo artista Pedro Pinhal, para quem o grafitti é “tornar paredes frias em arte, mensagem”. O vandalismo, esse, “é outra coisa”.

 

“O grafitti cura a poluição visual. O vandalismo não”

 

Pedro Pinhal, graffiter há 24 anos, comenta precisamente a diferença entre “street art” e “vandalismo”.

O artista defende a recuperação das fachadas e muros que a Câmara Municipal do Barreiro está a pintar. Quanto ao facto dos actos de vandalismo estarem mais presentes do que a street art, Pinhal, como é conhecido no meio artístico, descorda e explica. “Esse tipo de actos surge por parte de pessoas que fazem grafittis e, depois, ‘tagam’ paredes, como forma do artista dar a conhecer-se através da sua assinatura. Não é sempre só um acto de vandalismo. O que acontece é que, com o passar dos anos, os tags tornam-se poluição visual acumulados uns sobre os outros”.

Para além desta diferença entre o vandalismo e a street art, Pinhal defende que tudo depende da ética de quem faz. Porque o grafitti também tem regras.

“Nas regras está a premissa de não ‘grafittar’ em património público, apenas em paredes abandonadas, onde o artista quer ver nascer uma nova vida”.

Por isso Pinhal deixa bem vincado que “uma coisa é o vandalismo de quem pega numa lata de spray apenas porque apetece. Outra coisa é o artista que ‘taga’ para se identificar e ‘grafita’ com uma mensagem social”.

Pinhal recorda como era grafitar em 1995, quando começou a esboçar as primeiras linhas. “Houve sem dúvida uma evolução do tag para aquilo que hoje chamamos de street art”, explica.

Na sua visão o grafitti veio, de certa forma, “curar-nos da poluição visual criada pelos riscos desconexos que outros jovens deixavam nas fachadas de prédios”.

Mas a principal mensagem do grafitti é a de que os seus desenhos vêm cobrir a degradação dos bairros. “Porque uma pintura derruba barreiras. Torna paredes frias em arte, mensagem”.

Actualmente, Pedro Pinhal colabora com o Gabinete da Juventude da Câmara Municipal da Moita, que opera no Centro de Experimentação Artística do Vale da Amoreira e aqui o grafitti está muito presente no dia-a-dia do bairro.

“Quando comecei na década de 90, tal como os colegas, fazia murais de forma escondida. Ilegal, na calada da noite, em paredes velhas, muros, edifícios abandonados”. Depois a união entre artistas e a força social do desenho começou a abrir caminhos.

“Pouco a pouco, derrubamos preconceitos e hoje há um grande reconhecimento de quem está a ‘grafitar’. Aliás o grafitti é encomendado para trabalhos especiais, visto como um presente para a sociedade”.

 

Futuro com espaço para a arte, diálogo e fiscalização

 

A nova acção da Câmara Municipal do Barreiro para remover grafittis surge após um alargamento da área de intervenção da Divisão de Resíduos e Higiene Urbana, que não tinha a limpeza de edifícios nas suas atribuições.

O vice-presidente da autarquia, João Pintassilgo, aponta que este acrescento às responsabilidades do município terá resultados de uma forma ou de outra, na limpeza da cidade.

Quanto aos grafittis presentes nos edifícios alvo da primeira intervenção, João Pintasilgo encara-os como “uma calamidade” dos centros urbanos, sendo, no essencial, “vandalismo”.

Para o vereador, os desenhos agora removidos “sujam o património público e privado” e aponta “não sei se há aqui alguma confusão dos autores que consideram isto arte urbana, e que de facto não é. A arte urbana, essa sim é de elogiar e cá no Barreiro existem muitos trabalhos que são agradáveis de ver”.

À semelhança de João Pintassilgo, também o vereador do PSD Bruno Vitorino, considera esta limpeza “necessária”, para dar outra imagem à cidade.

No acordo realizado com o PS, no ano passado, para a viabilização do orçamento municipal para 2019, foi exigido pelo PSD que houvesse uma verba para limpeza de grafittis. Uma proposta aceite pelo PS.

“Andámos durante muito tempo a propor uma intervenção para acabar com o flagelo dos grafittis. Finalmente, o PS juntou-se a nós no combate à propagação dos grafittis e tags nas fachadas dos edifícios do Barreiro”, afirma Bruno Vitorino, vereador responsável pelas áreas da Juventude, Intervenção Social, Igualdade, Saúde e Habitação.

Bruno Vitorino fez da requalificação urbana e vigilância nas ruas, uma das bandeiras da sua campanha às autárquicas em 2017 e, hoje, continua a defender que esta acção só terá resultados com uma estratégia integrada. Assente em três em três eixos: sensibilização, limpeza e fiscalização. Caso contrário “voltaremos a ter edifícios vandalizados”.

Entre a propostas do vereador, está criação de uma equipa da autarquia especializada na limpeza de paredes e remoção de grafittis e a criação de um programa público de apoio aos munícipes, com a cedência gratuita de materiais para que possam limpar ou pintar as suas próprias fachadas.

Para mais resultados, Bruno Vitorino aponta ainda a importância de realizar “campanhas destinadas à população mais jovem da cidade” e criar “um espaço destinado à arte urbana, onde os jovens possam expressar a sua criatividade”.

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