“Vão apagar a luz no Sado”

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As dragagens no Sado podem começar amanhã, ou daqui a uma semana. APSS não confirma o dia. Os setubalenses aguardam o que consideram ser “um futuro com falta de informação sobre como será o dia-dia na cidade e no Sado”

 

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Frente ao edifício sede da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), em tarde de manifestação contra o projecto Melhoria das Acessibilidades Marítimas do Porto de Setúbal, Raquel Gaspar, co-fundadora da Ocean Alive, alertou que “quando as dragagens levantarem o que está abaixo do fundo do rio vão apagar a luz no Sado”.

A bióloga não tem dúvidas que depois as pradarias marinhas, “nossas florestas do fundo do rio”, vão morrer sem fotossíntese e com elas “também morrerá quem precisa delas para se alimentar, dos mais pequenos aos maiores, como os roazes do Sado”.

Foi com estas palavras que falou a mais de mil manifestantes, que desfilaram este sábado entre a Doca dos Pescadores e o jardim da Beira-Mar, terminando frente ao edifício da APSS.

Fotografia: Alex Gaspar

“As pradarias marinhas do Sado não vão ser arrancadas durante as dragagens. Elas vão morrer sim, mas porque a turbidez gerada nas águas impedirá a luz de penetrar e a fotossíntese de acontecer”. Para Raquel Gaspar “o problema não ficará apenas pela turbidez”. Também metais pesados vão ser levantados do fundo do rio com a remoção de areias.

Sobre estes detritos, contaminados com crómio e zinco, Pedro Vieira, ambientalista e presidente do Clube da Arrábida, explica a O SETUBALENSE, que “não quer dizer que sejam prejudiciais para nós em contacto directo com a água, ou pelo menos não no imediato. Mas serão prejudiciais para as pradarias marinhas, que os vão absorver e para os peixes que, através das pradarias os vão comer. E então quando o peixe chegar à nossa mesa também nós vamos comer estes metais”.

 

APSS quer verdade e porto com capacidade real

 

Apesar de os setubalenses aguardarem outros esclarecimentos, a APSS já avançou a O SETUBALENSE o que está planeado e garantiu a preservação do Sado.

Esclarecendo que a obra apenas se concentrará numa única fase, ao contrário das duas fases que inicialmente se previam, Vitor Correia, presidente do Conselho Directivo do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres e vogal do Conselho de Administração do Porto define que, “serão retirados cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos de areia do fundo do Sado. Não 6,5 milhões de metros cúbicos de areia, como tem sido comentado”.

Quanto a riscos ambientais o engenheiro civil esclarece. “Os materiais dragados não estão contaminados e podem perfeitamente ser reutilizados, inclusive, na reposição de areia, nas praias da Arrábida”.

E sobre a presença de crómio nos detritos a dragar afirma, “é completamente falso. As últimas análises que fizemos revelam apenas a presença de sedimentos Classe 1, que não representam riscos”.

Para Vitor Correia é importante não esquecer que, “foi realizado o Estudo de Impacte Ambiental e a sua avaliação foi lançada. As medidas mitigadoras a tomar estão bem estruturadas, com todas as questões acauteladas. Portanto, não haverá qualquer problema com os golfinhos ou as praias”.

Em comentário ao parecer das associações ambientais, sobre possíveis riscos, a resposta é também clara. “São opiniões infundadas, que não têm base em estudos”.

Nos objectivos do projecto fica ainda um último esclarecimento. “Nunca esteve em aberto a possibilidade de trazer os navios de Sines para Setúbal. Não temos capacidade para receber navios desse porte. O objectivo é tão-somente movimentar maior volume de carga”.

Para a APSS, “o projecto de melhoria das acessibilidades já está no terreno desde que se iniciaram as obras para a extensão do Terminal Ro-Ro”, em Abril, dando assim início ao investimento global de 24,5 milhões de euros.

 

“Ainda é possível parar”

 

Para Pedro Vieira, presidente do Clube da Arrábida, a esperança mantém-se. “Sim, as dragagens podem começar a qualquer momento, sendo que o período para a realização das mesmas está estabelecido entre 1 de Outubro de 2019 e Maio de 2020, mas ainda aguardamos a decisão sobre uma última providência cautelar, aceite pelo Tribunal Administrativo Central, que obriga agora o Tribunal de Almada a reapreciar a decisão de deixar prosseguir as dragagens”.

Também Francisco Ferreira, presidente da Associação ZERO, assume determinado que, “este não é um processo irreversível”.

O ambientalista setubalense acredita, “as dragagens no porto de Setúbal ainda podem ser paradas, estamos prestes a ter um novo Governo e temos esperança que ainda seja possível mudar o curso desta História”.

 

Dores Meira não receia resultados do projecto

Fotografia: Arsénio Franco

Durante as celebrações da Semana do Mar, o bordo do veleiro Pogoria, a presidente da Câmara Municipal, Maria das Dores Meira, comentou ao jornal que, “confia no projecto e no quanto contribuirá para o desenvolvimento industrial e crescimento económico de Setúbal e da região”.

Quanto a questões ambientais a autarca confia. “Tenho a certeza que a APSS vai assegurar todas as medidas necessárias para proteger o Sado”.

 

Comandante do Porto de Setúbal assume diplomacia

Fotografia: Arsénio Franco

Com menos de um mês de funções enquanto capitão do Porto de Setúbal, Paulo Alcobia Portugal assume a sua posição sobre as dragagens com diplomacia. “A cidade precisa de projectos estruturantes sobre os quais é preciso ponderar. Avaliar o que cabe e não cabe em Setúbal”.

Planos para um porto que o ex-comandante do Navio Escola Sagres considera ter “grandes condições para o turismo e para a indústria, cada um no seu espaço devido”.

 

Greve Climática Estudantil ergue bandeira contra dragas

Fotografia: Arsénio Franco

Presentes nas manifestações com as dragagens no Sado, desde a noite de vigília realizada sexta-feira, na Praça de Bocage, ate à grande manifestação da tarde de sábado, as jovens representantes da Greve Climática Estudantil fizeram ouvir a sua opinião sobre o futuro ambiental de Setúbal. “Temos muitos motivos para fazer uma greve climática”, revela Rafaela Nunes.

Para a estudante de 17 anos, “é importante tomar o tema das dragagens no Sado como prioridade, pelos ecossistemas que vão ser afectados”.

Neste aspecto Rafaela destaca o trabalho de esclarecimento feito pela Ocean Alive, com Raquel Gaspar, “no sentido de demonstrar a importância das nossas pradarias marinhas e o que pode acontecer a este delicado ecossistema com as dragagens. Essa é a nossa emergência climática agora, aqui, em Setúbal”.

 

Fotografia Alex Gaspar/Arsénio Franco

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