Memórias de um Congressista da FIL

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Valdemar Santos – Militante do PCP

O fervilhar da Venezuela tal como irrompe para fora dos estúdios – ou seja: das Redacções – das televisões portuguesas (são as que minimamente vemos e ouvimos) aqueceu um convívio de gente da velha guarda e, entre damas a jogar, fez com que um dos presentes perguntasse: «Mas isto não faz lembrar a raspadela do Soares pró Porto?»

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«Conta lá essa», solicitaram-lhe. «Estou a recordar-me de um livro do Álvaro Cunhal, e se calhar ouvi-o num Congresso em Lisboa», respondeu.

De permeio a curiosidade move alguém, que procura e acha.

«O PCP lutou contra o facto de que, em determinado período, a Constituinte fazia tudo menos trabalhar na elaboração da Constituição. Ao mesmo tempo que se caminhava a passo de caracol (e em longos períodos nem isso), na elaboração da Constituição, o PS, o PSD e o CDS pretenderam anticonstitucionalmente e contra o Pacto com o Movimento das Forças Armadas (MFA) que haviam assinado, transformar a Assembleia Constituinte num órgão de soberania, contrapô-la ao Governo e ao Conselho da Revolução, torná-la uma “alternativa” para os órgãos que invocavam não uma legitimidade constitucional, mas uma legitimidade revolucionária».

«… Para isso, Freitas do Amaral entendia necessário “funcionar desde já a Assembleia Constituinte como Parlamento (7-8-1975). Para isso, no auge da crise político-militar, a Assembleia Constituinte tomou medidas preparatórias da sua transferência para o Norte, com o propósito evidente de cobrir com a “legitimidade democrática e constitucional” um golpe armado vindo daquela zona do País” (Álvaro Cunhal, «A Revolução Portuguesa, o Passado e o Futuro», Relatório aprovado pelo Comité Central do PCP para o VIII Congresso, na FIL, em Lisboa, Edições Avante!, 1976, pag. 185).

«Para o Porto não foi a Assembleia mas foi Soares… que confessa que “talvez uma semana antes do 25 de Novembro, o então Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha, (James Callaghan) enviava-me um oficial do Intelligence Service que eu, através de Jorge Campinos, apresentei aos militares operacionais que entretanto tinham começado a gizar o seu plano militar”»… e daí invadirem a “Comuna de Lisboa”.

«A consumar-se a divisão entre o Norte e o Sul do país, o Reino Unido não só nos apoiaria politicamente, como colaborava ainda com Portugal através de apoios concretos… Prometeram-nos fazer chegar rapidamente ao Porto combustível para aviões e também armamentos» (e dinheiro, mas… estes dois últimos parágrafos são de Maria João Avillez, «Soares, Ditadura e Revolução», 1996, Edição CL, no contexto do Avante! de 5 de Dezembro de 2013, «Temas, a verdade dos factos 2»).

Óbviamente que as situações em Portugal no início da contra-revolução capitalista, latifundista e imperialista e na Venezuela dos dias que correm são muito diferentes, mas o congressista da FIL deu um passo em frente, afirmou-se solidário com Nicolás Maduro empossado Presidente da República a 10 de Janeiro passado pelo Supremo Tribunal de Justiça perante milhões de venezuelanos e delegações de meia centena de países e organizações internacionais, para além de representações de forças políticas de 94 países, de que foi exemplo o PCP na pessoa de João Pimenta Lopes, deputado no Parlamento Europeu e Vice-Presidente da delegação à Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana. Acresce-se que a inadmissível ausência do Governo português, subordinado à União Europeia e à estratégia de desestabilização da Venezuela (Avante! de 24 de Janeiro, «É fundamental prosseguir a solidariedade com a Revolução Bolivariana») só espantaria se os acontecimentos de 1975 não lhe estivessem já umbilicalmente ligados.

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