“ESTAMOS FARTOS!” Onde Começa e Acabará esta Onda de Choque da Decepção?

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Arlindo Mota – Presidente da UNISETI

Confrontos em Paris entre os “coletes amarelos” e a polícia que, a pretexto do aumento dos combustíveis, têm colocado a França muito próximo de um estado de anarquia. Eleições na Andaluzia onde, pela primeira vez, a extrema direita chega ao poder. Confrontos entre extremos na Catalunha.

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E em Portugal (claro, claro, que o nosso País é um caso aparte…) são os estivadores, contratados ao dia, que têm paralisado o Porto de Setúbal; os professores que lutam contra um “apagão” no tempo de serviço efectivamente prestado; os enfermeiros que, apesar de terem baixado de 40 para 35 horas semanais, se queixam de “burnout” e de não terem uma carreira, e assumiram, através de dois sindicatos, formas de luta que põem em causa centenas e centenas de operações, que o Serviço Nacional de Saúde dificilmente recuperará em tempo útil (para os doentes, claro…); os técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica iniciaram a 5.ª greve do presente ano; os médicos, que se não revêm no seu estatuto de servidores públicos essencial a um bom SNS, rebaixado ou não reconhecido; os funcionários judiciais; os guarda prisionais; os ferroviários; as forças de segurança; e, pasme-se, até os próprios juízes, cujo estatuto, especial, lhes outorga condições acima da média, apesar das condições de trabalho e de carreira, lhes confiram razões.

Dir-se-á: todos ralham e parece que ninguém tem razão. Sim, ou talvez tenhamos de recorrer à análise de outras patologias sociais, pois que necessidades e bem-estar apresentam contornos que se não assemelham ao que se passava décadas atrás. A sociedade de consumo (“Hiperconsumo”, define Lipovetsky) impôs as suas regras numa paisagem de que estão agora afastadas as grandes ideologias e se regista a ausência de utopias. A fé no progresso que, desde o iluminismo, parecia ser o fio condutor da história, entrou em crise.

O desemprego, sobretudo nas camadas jovens, é elevado e é agora acompanhado pelo fenómeno preocupante de precarização do emprego. O Estado-providência entra em crise conduzindo a uma redução da protecção social. As crises bancárias têm vindo a ser pagas pelas classes médias e regista-se cada vez mais um afastamento entre os mais ricos e os mais pobres. A sociedade da decepção parece, paradoxalmente, num mundo em que a antiga miséria desapareceu, caracterizar os tempos que vivemos. A política entra em descrédito e começam a surgir fenómenos inorgânicos que não parecem ancorados nos partidos e sindicatos tradicionais. As lutas assumem formas que não estão previstas na lei, o que indicia um mal-estar crescente:

“Estamos fartas. Já nos mentiram o suficiente. Só queremos a demissão dele, já não o podemos ver (a Macron). Pagamos demasiado impostos, no dia 15 do mês já não temos dinheiro para comer, não podemos ter filhos porque temos medo de não lhe dar um futuro”, disseram em uníssono Anais, Marie e Gaelle, citadas pelos jornais.

O populismo ressurge em todo o Ocidente, a extrema direita cola-se a esses valores e tem já apreciável representação parlamentar em numerosos países (alguns dos mais ricos, como a Alemanha, França e Itália). Difunde-se um profundo desprezo pelas elites, como se pode inferir pelas palavras dos manifestantes franceses e noutras latitudes. A xenofobia espalha-se e auto-justifica-se. E se até agora, como defendiam prestigiados intelectuais como Lipovtsky ou Byung-Chul Han a decepção não punha em causa a ordem democrática pluralista, há sinais de que as coisas poderão estar a mudar, e, infelizmente, não para melhor como se acreditava desde o século XIX. E começa a ganhar força o impensável: e se o futuro pudesse vir a ser pior que o presente?

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