Como transformar três comboios (por hora) em cinco

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Manuel Henrique Figueira – Munícipe de Palmela

Caro leitor, depois de 31/07/18 e 29/01/19 (ler em opinião: www.diariodaregiao.pt), volto à mobilidade ferroviária entre Setúbal e Lisboa (e nesta sub-região da Península de Setúbal). A fraca oferta de comboios entre duas cidades tão interligadas social, económica e, agora, turisticamente, pode melhorar-se muito com pouco investimento, mas muita determinação, colaboração entre as entidades e desejo de servir os utentes.

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O que temos: (dou o exemplo a partir de Setúbal, mas de Lisboa é semelhante). Durante a semana (na maior procura) há três comboios por hora. Dois da CP (via Barreiro e barco até à Praça do Comércio) e um da Fertagus (via Ponte 25 de Abril até Roma-Areeiro). Nos curtos períodos das horas de ponta, manhã e tarde, há quatro: o da Fertagus passa para meia em meia hora. Servem zonas diferentes de Lisboa mas estão descoordenados: o da Fertagus sai aos cinquenta e oito minutos e o da CP aos dezoito e aos quarenta e oito minutos (há ligeiras alterações destas horas nos dois comboios, ao início e final do dia).

Mas de Coina a Lisboa há três comboios da Fertagus (de vinte em vinte minutos, e, nas horas de ponta, de dez em dez). É uma oferta que serve bem os utentes e alivia as pontes de carros: mas há ainda setenta e oito mil por dia na 25 de Abril e vinte e seis mil na Vasco da Gama.

O que podemos ter: cinco comboios por hora apenas com três partidas de Setúbal, de vinte em vinte minutos: o da Fertagus e o primeiro da CP no horário actual, mas o segundo da CP dez minutos antes. Os utentes da CP para Lisboa (via Ponte 25 de Abril) mudavam para a Fertagus no Pinhal Novo (pequeno transtorno para tão grande ganho), que substituía Coina como estação terminal dos comboios curtos (os três por hora que já existem desde Coina). Dois tinham origem no Pinhal Novo e, o terceiro, é o que já parte de Setúbal. Os utentes da CP para Lisboa (via Barreiro) não mudavam e mantinham as duas ligações actuais. Portanto, havia cinco ligações por hora entre Setúbal e Lisboa em vez de três, apenas com os três comboios que já partem de vinte em vinte minutos.

O que falta fazer: concluir a pequena obra (cais e linhas) na estação do Pinhal Novo (nó intermodal que serve mais localidades do que o terminal de Coina e com maior potencial de utentes), passando esta estação a terminal dos comboios curtos da Fertagus (foi o Fogueteiro, passou para Coina e, em 2004, com a extensão a Setúbal ─ a linha foi duplicada e electrificada ─ estava previsto ser o Pinhal Novo).

Mas a obra não foi acabada devido a duas irresponsabilidades: a dos poderes locais (os institucionais e os informais, dos diversos caciques), que, imbuídos de um bairrismo míope, se opuseram a deslocação da torre de sinalização do tráfego para outro local da estação (mantendo-se este património histórico e a memória de outros tempos); a da Refer, que, além da habitual e complexa expropriação de terrenos, teve esta absurda oposição que a ajudou a demitir-se de concluir a obra.

No décimo quinto aniversário da extensão a Setúbal, a Fertagus congratulou-se com os dezanove milhões de utentes transportados. Quantos milhões mais teriam sido com comboios de vinte em vinte minutos entre Setúbal e o Pinhal Novo (como estação terminal em vez de Coina)? E que prejuízo diário não têm tido os utentes?

O que falta ajustar: a bilhética entre a Fertagus e a CP para os utentes que usassem os dois comboios entre Setúbal e Lisboa; o novo horário do comboio da CP (aos trinta e oito minutos) com o do barco da Soflusa; a extensão de dois comboios por hora de Coina ao Pinhal Novo (mais onze minutos de viagem).

Outra limitação desta ligação ferroviária, criada em 1999, é não terminar na estação do Oriente. Interligava o sistema de transportes da Grande Lisboa (Suburbanos, Autocarros, Metro) e do Norte e Sul do país (Alfas, Intercidades, Regionais): falta renovar um curto troço da linha em Chelas.

O esperado aumento de utentes a partir de Abril, com a redução do preço dos passes, tornará mais urgente a conclusão do cais e linhas no Pinhal Novo. Mas optou-se por reduzir o preço dos passes sem garantir mais comboios e nem se fala em terminar a obra. E haverá ainda os efeitos do aeroporto do Montijo.

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