Cão e dono

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

 

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Ter um animal de estimação é uma grande responsabilidade – por razões relativas ao bem-estar do animal, e por outras atinentes às obrigações cívicas e ao respeito que devemos aos nossos concidadãos. E há quem, simplesmente, não esteja à altura.

Temos um dono e um cão numa saída à rua.

O humano, racional e cidadão supostamente asseado nos hábitos, supostamente responsável, supostamente civilizado.

O animal irracional, imprevisível, inocente nos comportamentos porque instintivo, inimputável.

O cão agacha-se, para a obra que a gente sabe. Mas olha na minha direção e parece inibir-se – os cães sentirão vergonha? –, ergue-se, dá umas passadas rápidas até esticar a trela, torna a olhar-me.

O dono, aquele ar alarve de tanto se lhe dá, do palerma que encaixou na abóbora que os outros têm a obrigação de lhe aturar as telhas.

O animal, ainda a olhar-me, como a pedir-me desculpa, volta a agachar-se e alivia-se. E fita-me uma última vez, antes de prosseguir – querem ver que o bicho tem a vergonha que falta ao dono? –, a farejar, a alçar a perna, a agir como cão.

Fico confuso. Por instantes, deixo de saber quem, dos dois, cão ou dono, é o animal.

A poia de cão grande, enorme, nojenta, na relva crescida do jardim, à beira do passeio. No mesmo local e igualzinha a umas quantas com que os desgraçados dos jardineiros terão de lidar, daqui a dias. Ali, na cara do aviso da Junta de Freguesia de S. Sebastião, letras grandes, bem visíveis, que nos falam de civismo, de proibição e de coimas (e que tal mais avisos distribuídos pela freguesia, para trabalhar as consciências dos cidadãos e das cidadãs «distraídos» das suas responsabilidades cívicas?).

Esta tropa-fandanga de ar alarve de tanto se lhes dá, consideram o mundo quinta própria para usufruir à vara larga. Exibem um aspeto exterior de população do século XXI, mas as mentalidades são retrógradas. Há-os em todos os bairros. Vêm, de cão pela trela, do outro extremo do bairro, onde a vizinhança já os topa e não os poupa; ou então do condomínio fechado que tem jardim e espaço suficiente para os alívios dos cães, mas regulamentos higiénicos apertados para porcarias e porcalhões.

Esta é uma narrativa baseada numa realidade diariamente repetida no meu bairro e pelos bairros da cidade de Setúbal – uma cidade moderna, em continuado desenvolvimento urbano, com condições sanitárias apropriadas, e onde se espera, de cada um dos residentes, o contributo para o asseio geral e um certo nível de civilização.

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