A Quaresma

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Mário Moura –
Médico

Depois da quarta feira de cinzas segue-se a Quaresma como preparação para a Páscoa, o centro do Cristianismo. Isto para os que se dizem cristãos, embora estes pontos fortes da vida da nossa Igreja tenham sido englobados na vida da sociedade, seja cristã ou não. É evidente que para a maioria dos cidadãos atuais estas épocas são apenas marcantes pelos feriados e realização de certos rituais que perderam o seu verdadeiro conteúdo religioso. Para os cristãos a época carateriza-se por entreajuda, oração e jejum – estas três coordenadas na vida são por alguns levadas à letra não vivendo o verdadeiro conteúdo que elas encerram. O jejum não será propriamente um sacrifício passando fome, mas fazer o esforço de não esbanjar sabendo que existe muita gente com fome e outras carências necessárias à vida quotidiana. A oração tem profundamente o sentido de nos aproximarmos de Deus, de dar mais espiritualidade à nossa vida tentando resistir à ansia de poder, à ansia de ter, ao individualismo que mata a solidariedade que deve ser o emblema da vida cristã, não se deixando, ou oferecendo resistência ao excesso de tecnologia, fazendo esforço de ver, e viver, o lado espiritual da vida. E a caridade levando no nosso dia a dia a pensar nos outros, nos mais pobres e vivendo na periferia da nossa sociedade. Não é necessário rezar muitos “pai nossos”, deixar de comer carne e fazendo sentir mesmo alguns sinais de fome, e andar procurando algum necessitado para lhe diminuir as suas carências. Não é que isso seja em si mesmo mau mas o que se pretende é fazer pensar que todos temos de pensar nos outros e proteger a nossa “mãe terra” Entrámos portanto numa época em que, no bulício da vida trepidante em que vivemos, todos podemos contribuir para a melhoria do nosso mundo que parece estar a ser verdadeiramente delapidado pela tal ânsia de ter, pelo desejo de ter cada vez mais “coisas”, e em que a conflitualidade existe por todos os lados sob a forma de guerras, de atentados, do repúdio dos necessitados, da construção de muros e não de pontes, da exagerada reivindicação de melhorias nos salários, nas horas de trabalho, nas condições ambientais, etc… Aproximam-se períodos de eleições seja para a União Europeia, seja para as instituições políticas nacionais e locais. Estamos entrando numa época em que teremos de pensar o que queremos da Europa, em que temos de escolher as formas de organização da sociedade e os caminhos que deve seguir a evolução imparável das nossas sociedades. Temos de pensar na vida que vivemos, no que fazemos, no que estragamos, na fragilidade dos apoios dos mais necessitados – eis o que cada cidadão , seja cristão ou não, deve pôr como preocupação, e assim a quaresma chama todos a uma reflexão, potencia os esforços de fazer um mundo melhor. Nesta quaresma qualquer cidadão pode e deve fazer JEJUM de compras desnecessárias e deve conter-se nas suas reivindicações, deve REZAR, isto é olhar para dentro de si e para o que está por detrás das nossas maleitas sociais e pensar e participar na política cumprindo as suas obrigações cívicas de votante, e deve deixar-se invadir por um arrobo de CARIDADE e lembrar-se do seu vizinho que tem dificuldades, deve ser um “mãos rotas” na entreajuda dos necessitados.
A Quaresma é pois um período importante para todos nós independentemente de ser mesmo cristão ou não – Jesus cuja Paixão vamos reviver veio ensinar-nos como devíamos viver mesmo contra as regras vigentes. Jesus que foi condenado à morte e crucificado vem, na Pascoa que se aproxima, garantir-nos que a morte não é o fim da vida, veio dizer-nos que o caminho da vida terrena tem do outro lado desse caminho uma vida de beleza e felicidade – se assim não fosse para que servia a nossa vida terrena? Se não pedi para nascer, se tive uma vida difícil de trabalhos e dificuldades, tudo acaba em cinzas e vapor de água numa cremação? Pensemos que algo de bom nos espera no fim do caminho, pensemos na Páscoa e na ressureição!!

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