Os pobres

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Mário Moura –
Médico

 

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Estão fazendo eco em todo o mundo as palavras frequentes do atual Papa Francisco (dizer eco soa a pouco pois são autênticas proclamações!) que a qualquer pretexto nos fala dos pobres, querendo uma Igreja pobre para os pobres, querendo centrar toda a atuação dos católicos na centralidade dos pobres.

Lendo as notícias das nossas várias Dioceses (nos documentos da Eclesia!) todos os dias surgem declarações dos nossos bispos a pedirem aos seus diocesanos que tenham como preocupação principal – os pobres.   De vez em quando paro as minhas leituras informativas e  medito nas nossas Igrejas locais voltadas para os pobres e penso,  como se concretiza tal apelo dos nossos hierarcas ?

Será que dar abrigo a alguns dos sem abrigo resolve o problema? Será que nos vários casos de desempregados arranjar uma ocupação para alguns dará para manter as suas famílias dignamente?  Será que em cada paróquia visitar alguns idosos que vivem na solidão vai trazer uma vida feliz para tantos milhares que por esse país fora vivem sós?  Será , por exemplo, que dedicar as coletas das missas  para um fundo para colmatar as dificuldades dos desempregados, dos que vivem com o salário mínimo e têm família, construirá uma sociedade mais feliz e alegre?

Será que os que se dizem cristãos tendo o seu pensamento concentrado nos pobres estão a transformar a nossa sociedade? E é legítimo sonhar que sentindo a ressonância da voz de Francisco se sente um ímpeto transformador das nossas Dioceses?  Será que os paroquianos das nossas paróquias conhecem os pobres, os sem abrigo, os que vivem na solidão ou na doença crónica e grave a ponto de se organizarem para dar seguimento aos apelos do nosso Papa no âmbito da sua circunscrição? Será que na nossa paróquia seria aceite uma iniciativa para se fazer esta espécie de censo para se organizar a devida ação de apoio?

Será que os nossos jovens um pouco arredios da liturgia estão pelo menos empenhados em ações deste género de apoio aos pobres, ou estão apenas motivados para a organização desse encontro da juventude em 2022? Com verdadeiro espírito de Cristo e não como uma grande concentração tumultuosa e de grande visibilidade mediática?

Na sociedade em geral, políticos, dirigentes vários, engenheiros promotores das novidades tecnológicas, construtores de robots ou contribuindo para o êxito da inteligência artificial, será que todos estes sábios a quem se vai entregar o nosso futuro, também se preocupam com os pobres? (Até admito que sim, alguns) Será que se preocupam sinceramente com os milhares que correm o risco de morrerem afogados na fuga da pobreza e chegam aos nossos países aos milhares? Ou estrão de acordo com a construção de muros em vez de lutarem por políticas e ações que possam tornar os países donde se foge e se morre dentro de camions frigoríficos ,locais mais aprazíveis?   Os pobres, os pobres, as preocupações, as conferências, as políticas, as reuniões, os movimentos e manifestações mais ou menos ruidosas e violentas podem levar à solução do problema dos pobres?

Eis que nestas meditações e interrogações leio em letras grossas e em negrito nos jornais uma frase pouco ou nada usada, mais ou menos assim “não devemos olhar e ajudar os pobres mas ACABAR COM A POBREZA”.  E o nosso Papa Francisco tem vindo a insinuar isto mesmo dizendo que a nossa organização social, económica e política gera diferenças, aumenta o fosso entre os ricos e os pobres, dizendo até que a nossa sociedade “MATA”!  Felicito pois o Prof. Eugénio da Fonseca, Presidente da Cáritas por proclamar que a nossa obrigação é acabar com a pobreza, o que é bem diferente nas suas consequências do que dizer acabar com os pobres.  Vamos pois  acabar com a pobreza e isto exige uma verdadeira revolução, uma radical mudança de políticas,  mudança nos estímulos ao consumo, com as preocupações nos homens e não nos números e nas estatísticas, com mudanças radicais na distribuição dos bens, com a valorização do trabalho que não pode ser absorvido pela força do capital. Dizer NÃO ao deus Mercado e sim às Pessoas! Passemos à AÇÃO, preocupemo-nos com a POBREZA e não apenas com os pobres.

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