A força da festa

14
visualizações
Valdemar Santos – Militante do PCP

 

- Pub -

O Avante! de 11 de Setembro (importa agora a do ano que vem, verão, lerão) naturalmente dá conta da Festa que tem o seu nome. No canto inferior direito da página 15, sob o título “Conhecer para exercer”, relata o lançamento da Agenda Mulher 2004, uma iniciativa tomada pela Comissão junto do Comité Central para os Problemas e Movimentos das Mulheres, algo que “constituiu um sucesso, podendo ver-se, ao longo da Festa, homens e mulheres, a maioria jovens, a vendê-la e… a comprá-la, uns para si próprios, outros para oferecer”. E não esconde que “se algumas informações constantes da Agenda eram comentadas por um ou por outro com ar ainda jocoso (que as mentalidades não se alteram de um dia para o outro), a maioria era lida com vivo interesse e curiosidade”.

A pequena brochura (mas grossa de um dedo) começa por afirmar que “a evolução que se verificou ao longo dos anos no reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos obteve contributos inestimáveis da investigação científica mas nunca dispensou a luta das mulheres e das organizações revolucionárias e progressistas contra a exploração da mulher, os preconceitos e obscurantismo que atravessam a história da humanidade”. E porque “os direitos já conquistados não são irreversíveis e podem ser destruídos”, esta edição explica-se como uma mais acção que “visa desenvolver uma ampla informação e o despertar de uma maior consciência de que esses direitos são direitos sociais do nosso tempo que importa preservar, defender e aprofundar”.

Saltitando de página para página, abundam reproduções de desenhos, gravuras ou pinturas, desde Maria Keil a Álvaro Cunhal, de Susana Matos ao postal do 8 de Março de um qualquer ano da CGTP, de uma capa da Revista Mulheres a Portocarrero (1978), de Cipriano Dourado à Revista Farmácia Saúde (Maio 2002).

Quanto aos textos, profícuos mas muito compreensívelmente sucintos, fala, entre outros, da Distinção de Honra do MDM entregue a Cesina Bermudes (está no 18 de Abril, situada em 1992); na morte de Lizete Moreira, aos 36 anos, mãe de três filhos menores, vítima de aborto clandestino no Bairro do Aldoar (Porto), a 14 de Março de 1997; da Tése final defendida por Álvaro Cunhal enquanto cumpria pena de prisão a 4 de Julho de 1944 (“O aborto, causas e soluções”); do Congresso Internacional Feminista, em Roma, “Contra a ignorância, contra o falso pudor”, exigindo que “a questão sexual faça parte dos programas de pedagogia das Escolas Normais” (11 de Abril de 1923).

Acusa Bush do “corte do financiamento de 34 milhões de dólares ao Fundo das Nações Unidas da Apoio à População, dificultando a ajuda aos países em desenvolvimento nos cuidados materno-infantis, controle de nascimento e prevenção da SIDA” (31 de Julho de 2002).

Fala de muitas iniciativas do PCP (recorda a Conferência Nacional do PCP “A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril”, a 15 de Novembro de 1986, no Pavilhão dos Desportos) e de intervenções de Carlos Carvalhas, tem, óbviamente, muitos poemas.

A 25 de Outubro (é uma segunda-feira, em 2004), como que em manuscrito, aparece delineado o conjunto de letras m.pb, complementado pela anotação “Aniversário do m.PB”.

Não há mistério, porque na economia que rege a distribuição do texto da Agenda, o mês de Outubro é assim “prefaciado”: “1954: No Hospital São José foi presa a enfermeira Hortência Silva, natural de Portimão… A 3 de Fevereiro de 1955 foi julgada e absolvida, depois de ter passado algum tempo isolada e de janela entaipada. Tinha cerca de 20 anos. Contra ela fora instituído o processo 14811/54 por ter assinado um documento protestando contra a proibição do casamento das enfermeiras. Foi agravada a acusação por, entre outros “crimes”, ter escrito na sua agenda pessoal, no dia 25 de Outubro: “Aniversário do m.PB”, que significava Aniversário do meu Primeiro Beijo, mas que a PIDE interpretou como Aniversário do meu Partido Bolchevique”, o do 7 de Novembro, data da Revolução leninista em 1917, no calendário ocidental.

Foi assinalado numa Festa do Avante! um jovem que munido de spray transformou precisamente um ponto de exclamação do Avante!, escrito num grande painel, num b bem nutrido, de modo que o orgão central do PCP transformou-se em: Avanteb. À namorada gritou (em final de Festa): “toma lá um beijo”, sem saber que se Freud pôde ler e escrever estranhíssimamente sobre Marx (nas “Novas Conferências sobre a Psicanálise”), Marx não podia ler Freud. Pôde foi dar força – e que força! – à Festa! A de 2020, vêem?, é a 4,5 e 6 do mês pelo qual começámos.

Comentários

- Pub -