Os primeiros dias de Novembro

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Mário Moura –
Médico

 

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Segundo as normas da Igreja passou-se o dia primeiro de Novembro pensando “em todos os santos”, comemorando tantas pessoas que por esse mundo fora e através dos séculos levaram uma vida dedicada aos outros, fazendo o bem e espalhando afeto à sua volta, alguns sacrificando a sua própria vida. Mas que nunca tiveram a graça de ser oficialmente canonizados pela Igreja não tendo por isso lugar nos altares. Gente que não teve de saltar as regras da natureza, não teve de curar doenças esquisitas, gente que simplesmente imitou sempre a vida de Cristo, talvez  até sem nunca ter ouvido falar d,Ele. Tenho um especial apresso por este dia feriado.   E no dia 2 de Novembro  é o dia dos “ fieis defuntos” em que muitas famílias pensam e lembram entes queridos que deixaram esta vida terrestre que todos nós percorremos. Será talvez o dia em que se pensa e se fala na morte, coisa de que todos fugimos de pensar e de falar, pois o fim da vida é uma temática bem afastada do nosso quotidiano, mas que merece a nossa reflexão e até …a nossa preparação. Nenhum de nós pediu para nascer. E poucos pensam para que vivemos, se temos alguma tarefa para alem de lutarmos pela nossa sobrevivência, para alem de tirarmos o maior proveito da vida que nos é destinada , sabemos que a morte é inevitável mas pouco ou nada refletimos sobre isso – a morte é um tabú! E se a nossa vida é , por causas várias, um sofrimento permanente, ou se à nossa volta se perde alguém a que estamos ligados, mesmo assim o nosso pensamento afasta rapidamente tal tema  – esquece. Especialmente as gerações mais novas são afastadas da morte o que contribue ainda mais para o afastamento do tema quando chega o estado adulto.   Porque não se encara a morte como uma fase do ciclo da vida? Isso exige que tenhamos algum conhecimento sobre a nossa razão de viver e sobre os objetivos da vida. Nascer, estar por este mundo , vivendo um individualismo ferrenho, lutando pelo prazer e por uma posição cimeira,  aos olhos dos outros, na sociedade em que estamos integrados, e tudo acabar em cinzas e pó – parece pouco atrativo. Quando muito pensa-se em minorar o sofrimento dum fim de vida pedindo para alem dum serviço de saúde capaz, que haja cuidados paliativos para tal alivio. É absolutamente necessário que a minha morte não caia no nada. É necessário que a minha vida tenha um sentido e um objetivo, é necessário que eu sinta que os outros esperam de mim a construção dum mundo melhor, não apenas tecnologicamente (a técnica calcula, não pensa, não responde às nossas angústias) , não apenas com mais bem estar, mas melhor, mais feliz, com a fraternidade como regra de vida, sem corrupção nem exploração dos mais fracos, dos doentes ou dos deficientes – e assim a minha vida terá um sentido, um objetivo, e terá forçosamente de ter um final pleno de felicidade e amorosidade – Erico Veríssimo dizia “A felicidade é a certeza de que a nossa vida não está a passar inutilmente”. Eu sei que a Fé convive com a dúvida, mas tenho de sentir que a minha vida não cai no vazio, mas que com tudo  ( pouco ou muito) que tenha feito para os outros “meus irmãos”, esta “última curva do meu caminho” desemboca noutra forma de vida plena de perdão, de misericórdia e de amor. Lembremos, os que se dizem cristãos , que Jesus não veio dizer-nos que há Deus, mas veio dizer que Deus é Amor! – e isto é uma mensagem de esperança, de vida plena.   As pessoas não põem perguntas últimas, metafisico – religiosas, a si mesmas, mas deviam po-las para encontrarem o sentido da sua vida , o caminho da sua felicidade, não tendo portanto relutância em falar da morte. E é cada vez mais necessário nesta era em que as pessoas se não encontram, falam por telemóveis, veem-se neles e nos computadores, reúnem-se por videoconferências, estão próximas e afastadas simultaneamente, sem “olhos nos olhos” ou mesmo “pele com pele”, se encontrem. Estamos numa época em que o homem se mata por banalidades pois a vida que aqui vivemos perdeu valor – olhemos para lá da curva!

“Prometo viver a vida, em pleno e até ao fim” e isso compreende também o sentido da morte!

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