Um certo cheiro a mofo

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Mário Moura –
Médico

 

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Muito se fala atualmente nos problemas ecológicos. Muito se escreve sobre o aquecimento global. Muito se preocupam (com sinceridade?) os partidos políticos com um futuro que parece ameaçador para a estabilidade da nossa Terra Mãe. E muito se agitam as juventudes nos quatro cantos do mundo , fazendo manifestações de milhares afirmando que não há plano B para a habitabilidade da nossa Terra se não houver um travão sério nas causas já apuradas para esta situação dramática.   É curioso que o atual Papa Francisco levanta bem cedo no seu pontificado a gravidade deste problema ao publicar a encíclica “Laudato Si”, e evidencia que  a lógica economicista que está na base da degradação da natureza è a mesma que está na base das injustiças sociais, do escândalo da pobreza e da exclusão de multidões de homens e de mulheres. “Quando é que se entenderá que o grito dos descartados e o grito da mãe Terra…são o  mesmo grito?” Escreve o P. Anselmo Borges em artigo recente. E estes problemas estão nas primeiras páginas dos meios de informação em virtude de assistir-se em Roma a um “Sínodo da Amazónia”, mas que transcende nos seus objetivos o candente problema do chamado “pulmão do mundo”. Nele se debatem outros problemas de grande interesse para a Igreja universal – estamos perante uma verdadeira atualização da “revolução” do Concilio Vaticano II. E esta atualização conciliar torna-se urgente perante uma Igreja ainda dominada por regras ancestrais desfasadas dum Mundo em permanente mudança – e mudanças profundas. E torna-se urgente porque se assiste a uma decadência do papel da Igreja na atual sociedade europeia, onde as estatísticas mostram que a juventude (o futuro da sociedade) declara abertamente  que não são crentes.   Torna-se urgente que nas nossas dioceses se passe duma “pastoral de manutenção” com cheiro a mofo, para uma pastoral viva, contagiante, de exemplo de vida e com o “verdadeiro odor de Cristo”.

É necessário que se não olhem os cristãos que se comprometem com a vida da sua sociedade como se fossem algo de anormal – e muitas vezes se nota que assim são tratados, com certo desprezo. Ainda recentemente faleceu uma cristã de exceção – a Prof. Manuela Silva, economista, com grande ação apostólica – e no seu funeral a hierarquia primou pela ausência, fazendo-se representar o Patriarca de Lisboa (era a sua Diocese) por um sacerdote.  Recordo a este propósito que uma outra cristã de eleição , a única mulher que foi Chefe dum Governo, Maria de Lourdes Pintasilgo, e candidata à Presidência da República, não teve apoio explícito da hierarquia de então, apesar de ser considerada internacionalmente.  Será que são maiores as mudanças atuais, no discurso, do que na realidade dos factos? Ainda se tem medo dos cristãos, ditos de esquerda? O nosso novo Cardeal, D. Tolentino de Mendonça, escreveu algures que a nossa Igreja para ser “de Cristo” tem de ser de esquerda.   Eu sei que todas as Dioceses, nos seus planos para o atual ano pastoral, agora iniciado, têm em mente a nossa juventude – mas será que o diferencial de idades e, especialmente, o diferencial de maneiras de ser permitirá um apostolado penetrante? As nossas paróquias estão a renovar-se de harmonia com os desígnios do nosso Papa Francisco, mostrando uma Igreja “em saída” e não sendo apenas secretarias? Assim o desejamos! A nossa Diocese vai construindo as suas estruturas ao fim de cerca de três anos, veremos agora uma aceleração, ou continuaremos a passo de caracol , como parece estar a acontecer por todo o lado?  Este mundo atual, sem alma, miseravelmente egoísta, que continua a centrifugar para a periferia os mais pobres, que parece adorar apenas o “deus mercado”, necessita urgentemente um sopro de vida autêntica, de fraternidade e de amorosidade, ou aqui pela Europa está em risco de morte lenta. A Igreja, que somos todos nós – o povo de Deus – necessita de corajosas mudanças….na Alma!

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