O Dia de Todos os Santos e o Pão por Deus

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

 

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A igreja católica romana celebra o Dia de Todos os Santos, homenagem a todos os santos e mártires cristãos, a 1 de novembro – tradicionalmente dia feriado em Portugal (deixou de o ser em 2013, por decisão do governo de então, mas seria retomado em 2016). A celebração tem origem no ritual pagão do culto dos mortos. Nesta data celebra-se também (e por antecipação) o Dia dos Fiéis Defuntos ou de Finados (2 de novembro), em que muitos portugueses se deslocam aos cemitérios, numa romagem às sepulturas dos seus defuntos.

O dia 1 de novembro é, ainda, o dia do «Pão por Deus». A tradição terá tido início em Lisboa, um ano após o terramoto de 1755, quando os populares, aproveitando o dia santo e o aniversário da tragédia, andaram pela cidade a pedir esmola ou «um pão, por Deus». Porém, a referência ao «dia de pão por Deos» já aparecia em documentos do século XV: «Pagaredes o dito foro em cada hum anno em dia de pão por Deos» (1). Como quer que seja, pedir o «Pão por Deus» é costume antigo que se alargou a todo o país, com variações regionais na designação e na forma.

Em Aires, Palmela, era dia de festa para os meninos pobres. Em grupo, pedinchávamos o «Pão, por Deus!» – a metáfora para os frutos da época, doces, e, eventualmente, alguns tostões que nos dessem –, à porta das casas das famílias mais abastadas ou aos portões das quintas onde sabíamos ter sucesso. Evitávamos os garganeiros, que os havia capazes de negarem uma peça de fruta a uma criança e até de correrem connosco. Na Quinta da Glória, que confinava com a aldeia, tínhamos uma receção de avozinhos, na afetividade do senhor João e da dona Virgínia (avós paternos do saudoso ator setubalense Carlos Rodrigues, o popular Manel Bola), que estavam à nossa espera, os cestos de vime acogulados. Era a primeira que visitávamos. Depois seguíamos para a Quinta do Pataquinhas, irmão do senhor João da Glória, e daí até às quintas da Baixa de Palmela. Por volta da hora do almoço, tínhamos os sacos de pano, que as mães engenhavam a partir de retalhos, cheios de nozes, figos secos, amêndoas de casca, romãs, peros, bolinhos, rebuçados. Uma fartura que faltava no resto do ano, e que fazia do Dia do Pão por Deus uma data querida e desejada.

Lamentavelmente, a tradição do Pão por Deus é mais uma das nossas tradições que se vão perdendo. Hoje, são raras as localidades onde se pratica. O Halloween ou Dia das Bruxas (31 de outubro), festividade estranha importada do mundo anglófono, que dita usos ao resto do mundo, impôs-se (a partir das escolas e através da disciplina de Inglês) ao gosto e aos hábitos da pequenada.

 

 

  • Citado por Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, in Elucidário das Palavras, Termos e Frases Antiquadas da Língua Portuguesa, 2ª edição, Tomo primeiro, 265, Livraria de António José Fernandes Lopes, Lisboa, 1865.

 

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