Francisco Sousa: Um prestigiado artesão setubalense

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Giovanni Licciardello – Professor

 

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Hoje iremos falar de Francisco Sousa, um prestigiado artesão setubalense.

 

Francisco Sousa nasceu em Setúbal em 1938. Filho de Ernesto de Sousa, pescador, nascido também em Setúbal e de Maria da Conceição Sousa, natural de Olhão, tendo vindo viver para Setúbal ainda muito nova. A mãe era costureira e confeccionava a roupa dos pescadores que iam para a pesca do Bacalhau. Desta relação nasceram seis filhos: três raparigas e três rapazes.

 

Estudou na escola da Casa dos Pescadores no actual Largo José Afonso, tendo deixado os estudos, com apenas 9 anos de idade. Começou logo a trabalhar num armazém, numa dobadora que tratava do fio para a pesca, mantendo-se pouco tempo nessa ocupação.

 

Trabalhou posteriormente junto à doca, ajudando os pescadores a levar o peixe para a lota, com caixas que se pegavam dos dois lados.

 

Desde miúdo que teve sempre a percepção da sua habilidade manual. Sempre que podia, ia para a Comenda apanhar os cascos das palmeiras e com uma navalha fazia barcos.

 

Com 18 anos iniciou a sua actividade piscatória a bordo da traineira “Glória do Sado”. Iam pescar ao longo de toda a costa portuguesa.

 

Com cerca 22 anos, abandonou a pesca, ficando na mesma empresa a tratar da reparação das redes.

 

No defeso da pesca da sardinha, que ia de Abril a Junho, procedia-se à reparação das embarcações nos estaleiros localizados na Praia da Saúde.

 

Durante esses tempos, Francisco Sousa ia para o estaleiro pintar, assistindo à construção de traineiras, desde o início, até aos acabamentos finais, sempre prestando muita atenção a todos os detalhes de construção.

 

Casou com 27 anos e teve dois filhos, um dos quais também de nome Francisco, pai do meu aluno Rafael, que foi quem me falou em primeiro lugar do talento do seu avô. Em boa hora o fez.

 

Nos anos 70, o número de traineiras foi diminuindo, tal como as fábricas de conserva, tendo regressado para a pesca artesanal, confeccionando as redes para a pesca num armazém até 1999, altura em que foi para a reforma com 62 anos.

 

Após o falecimento da sua mulher, ocorrido em 2001, Francisco Sousa adquiriu um andar com garagem por baixo, dedicando-se em exclusivo a construir embarcações, cada uma delas com cerca um metro de comprimento.

 

Francisco Sousa carrega fortemente nos érres. A sua forma de expressar, com uma linguagem rica, característica e marcadamente setubalense, deixa-me absolutamente fascinado.

 

Gostava de saber falar assim. Sei imitar, mas não é a mesma coisa.

 

Vitoriano indefectível, é sócio de ouro, contando actualmente 54 anos de associado.

Francisco Sousa utiliza as ferramentas de carpinteiro. Na sua bancada encontramos polainas, formões, martelos, etc. que vão sendo sucessivamente manuseadas com arte e engenho. No final, os barcos são todos testados com a prova de água, colocando-os um dia inteiro dentro de uma banheira.

 

São, sobretudo, traineiras de inegável beleza, construídas de raiz pelas suas talentosas mãos.

 

Um aspecto fundamental e que chamo desde já a atenção no trabalho de Francisco Sousa; nunca vendeu nenhum barco que construiu e que constrói, guardando-os na sua garagem e expondo-os sempre que é solicitado para isso.

 

A sua destreza manual e o seu talento como artesão, deveriam merecer uma outra atenção por parte dos responsáveis camarários.

 

Fica, portanto, aqui a sugestão dirigida à Câmara Municipal de Setúbal, no sentido de se procurar encontrar um local, onde estas belíssimas embarcações, mantendo-se como propriedade de Francisco Sousa, pudessem ser vistas e admiradas por todos.

 

Caro senhor Francisco; é para mim um grande privilégio poder usufruir da sua distinta companhia, aprender com a sua experiência  e apreciar as suas magníficas obras.

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