D. Manuel Martins partiu há dois anos

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Eugénio Fonseca – Presidente da Cáritas Portuguesa

Hoje, dia 24, faz dois anos que D. Manuel Martins partiu deste mundo. Para todos os que o admiramos, ele não nos deixou, apenas se transformou a dimensão em que esteve, neste mundo, durante 90 anos, 23 dos quais na nossa Região de Setúbal. A partir do dia 26 de outubro de 1975 disse que passaria a ser de Setúbal. Nunca mais deixou de o ser, mesmo quando a 23 de abril de 1998 deixou a missão que o trouxe do Porto para a nossa terra. Quando vinha de visita, algumas vezes o ouvi dizer: Sempre que aqui venho, invade-me a sensação de que nunca me fui embora.

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Sou testemunha do quanto ele amava a nossa região e as suas gentes. Como não pôde deslocar-se, aquando da investidura dos “Embaixadores do Concelho de Setúbal”, a Presidente da Câmara Municipal encarregou-me de lhe entregar o diploma e a “mala” com os utensílios para o desempenho da sua nova função. Fi-lo 12 dias antes da sua morte. Ele já estava muito fragilizado. Quis aproveitar o momento para aumentar o seu ânimo, inventando uma encenação. Pedi-lhe que se levantasse para lhe entregar o diploma e repetisse o juramento com as palavras que eu fosse pronunciando. Olhou-me surpreendido. Comecei a pronunciar a fórmula de compromisso imaginada, por mim, na ocasião: “Juro que, onde e com quem estiver sempre defenderei Setúbal”. Retorquiu de imediato: “Ainda mais” ?

Que se apresente alguém que, alguma vez, o tivesse ouvido dizer mal da nossa região e sua Diocese. Num dos muitos textos que escreveu, a um deles deu o título “Amo muito a Diocese de Setúbal …Uma coisa quero que fique muito clara: Amo muito a Diocese de Setúbal. Quero muito ao bom povo de Setúba”;; foi assim que terminou o escrito.

Durante este tempo pré-eleitoral, quantas vezes tenho pensado no que ele diria aos candidatos. Tenho a certeza que voltava a gritar-lhes o mesmo que fez a antecessores deles: “Há gritantes desigualdades por aqui; há desrespeitos enormes pelos mais elementares direitos do Homem; há milhares de pessoas postas à margem da «mesa comum» da felicidade minimamente desejável; há centenas e centenas de famílias (quantas delas jovens) que sempre terão a barraca como condenação; cresce o número de trabalhadores sem garantias; de idosos sem razões para sorrirem; de jovens sem futuro; de urbanizações sem equipamentos que as humanizem; de pessoas para quem nunca chega a vez de serem atendidas com um sorriso, nas bichas das procuras necessárias… Diria também: Com todos estes anos que tenho, vou-me convencendo que hei-de morrer sem entender por que razão, em política, a verdade não encontra lugar.”

Que teria acontecido a Setúbal nos anos oitenta do século passado, se não tivesse tido um Bispo que não se cansou de clamar por justiça e solidariedade. Talvez o Plano de Emergência e a Operação Integrada de Desenvolvimento da Península de Setúbal nunca chegasse a vir em socorro de milhares de concidadãos nossos, martirizados pelo desemprego que os atirou para a pobreza e a região aguardaria mais tempo pelo seu crescimento económico e social. Setúbal tem, por isso, uma dívida de gratidão para com o seu primeiro bispo.

  1. Manuel Martins não permitiria que eu mencionasse a palavra “dívida”, pois ele estava convencido que a sua postura era parte integrante da sua missão. Mas eu sei que os setubalenses o sentem como tal e, por isso, não deixarão que a sua pessoa e pensamento fiquem esquecidos.

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