É Portugal

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

Campanhas de sensibilização ambiental. Carradas delas. Locais e nacionais. Relativas à limpeza e higiene dos espaços públicos; à participação ativa no processo de reciclagem; à recolha de dejetos de animais de estimação; a um usufruto respeitoso das dádivas da Natureza; enfim, à urbanidade que se espera de cidadãos de um país da Comunidade Europeia – que é primeiro mundo. Estamos no século XXI, toda a gente vai à escola (jamais houve geração mais escolarizada). Mas precisamos de campanhas e campanhas, cada vez mais campanhas de sensibilização para nos comportarmos como é obrigação de cada um.

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Infantários, escolas e universidades, Administração Central e Local, organizações particulares, meios de comunicação social, há décadas que trabalham na sensibilização ambiental dos portugueses e na educação que lhe está associada. Mas as campanhas sucedem-se, os anos decorrem, e as atitudes e os comportamentos de desprezo pelo meio onde vivemos e pelo meio ambiente em geral não mudam, perduram, como uma das nossas imagens de marca negativas.

Somos um povo de reconhecidas qualidades, como todos. Mas temos, como os outros povos, os nossos defeitos. E uma das falhas que mais nos caracterizam está precisamente no grau de civismo, que tarda a subir na escala, e que anda lá por baixo nalguns aspetos, nomeadamente, quando se trata de colaborar no asseio dos espaços públicos. Atirar lixo para o chão, mesmo à vista do caixote, é vício bem nosso – «Os tipos do lixo que apanhem, que é pra isso que lhes pagam», é sentença de portuga. Ruas, passeios, praias, recintos de espetáculos, proximidade de bares… – onde quer que se junte gente, há lixeira. É pecha que vem de longe, dos tempos em que os esgotos corriam a céu aberto, à beira dos tugúrios, e os despejos se aventavam pelas portas e janelas, ao berro «Água vai!». O hábito, ferrete de atraso civilizacional e de miséria social, foi transmitido geração a geração, entranhou-se nas mioleiras e fez-se padrão nos costumes. De tal maneira, que persiste e é prática corrente, numa época em que não há cão nem gato que se não gabem de muita sapiência em qualquer domínio e da rendição às mais recentes modernidades e aos mais refinados requintes civilizacionais.

Aprender uns com os outros é obrigação dos homens e dos povos – fazê-lo, tirou-nos das cavernas, libertou-nos da bestialidade e da imundície, humanizou-nos e civilizou-nos. No assunto que estamos a tratar, temos muito que aprender com outros povos. Ora veja-se. Num blogue que frequento, li uma pequena história vivida por uma portuguesa, na Suécia. Passeava ela pelo centro de Estocolmo num grupo de meia dúzia de amigos de várias nacionalidades. Era quase meia-noite, seguiam por um passeio largo, por onde teriam veraneado milhares de pessoas durante todo o dia. Mas o passeio estava absolutamente limpo. Um dos amigos, admirado com aquela limpeza, perguntou ao sueco do grupo como era possível não se ver nem uma única ponta de cigarro no chão. O sueco: «Sabem, nós desde crianças que não temos qualquer prazer em sujar o chão; não sei bem porquê, mas creio que nos ensinam isso desde que nascemos». Passou-se isto quase há trinta anos, trinta! Trinta anos, três décadas!

Pois entre nós, ó deuses, precisamos de moer os neurónios a inventar leis para reprimir, com multas gordas, quem despacha beatas para o chão – ter-se-ão esquecido, os nossos doutos representantes, de legislar sobre as demais porcarias, mas isso não deve ter importância nenhuma, adiante. E, pasme-se, o diploma aprovado no Parlamento é de julho de 2019 – é de há um mês! –, sendo que, mais de metade dos deputados, abstiveram-se ou votaram contra. É Portugal.

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