Privilégios e ingratidões, ignorância e estupidez

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

Um céu lavado e um sol radioso e cálido, nesta época do ano, são raridades pelas europas. Que privilégio! Mas (eterna insatisfação com o que temos) corre uma aragem fresca, desagradável, nesta manhã dos inícios de fevereiro. Vários turistas (gente do norte europeu, se julgo bem) passaram por mim, lampeiros, em manguinhas de camisa e visivelmente bem-dispostos, no desfrute do banho de sol que não há nas suas latitudes, e atentos às belezas desta magnífica Setúbal ribeirinha, para a foto. Se eu me queixasse do meu desconforto, é bem provável que um deles retrucasse, a escarnecer: «Ai achas que está frio? Vai à minha terra, e verás como elas te mordem!».

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Caminho à beira-mar. Entre as juntas descarnadas do empedrado, ainda há restos da poluição da festança de fim de ano – festa é festa, que se lixe a ecologia, perdoam-se os males que faz, pelo bem que sabe a folia –, papelinhos plastificados e coloridos, sobra dos mil que foram parar à água, e daí ao papo e à barriga de bicheza aquática.

Gozo as dádivas deste dia com promessas de primavera. E sento-me no cais da lota, a apreciar o panorama, num relance alargado, do porto à Mitrena, da Troia ao Outão, até ao horizonte para além da barra, envolto numa cortina de vapores. Um regalo para os olhos. E um afago para a alma.

Um espelho onde cintilações de prata ensaiam danças, atravessa as águas mansas da baía. Não há movimento de embarcações. Uma gaivota repimpada na água, deixa-se levar no embalo da vazante. Perto, um mergulhão rema rápido e mergulha em imersões prolongadas, emergindo umas boas braçadas além.

Estou nestes enlevos, a aspirar a maresia com deleite, quando um arrastar de porta, no edifício da lota, me interrompe a contemplação. Um homem sai de lá, carregando dois baldes. Chega-se à muralha e despeja. «Restos de peixe», cogito, e gabo a iniciativa, porque o direito à alimentação também é direito de bichos.

Um bando de gaivotas, vindo não sei de onde, atira-se à água, num grasnado de fomes e de confrontos, roubando-se umas às outras. Esvoaçam e mergulham e bicam-se e grasnam. Só se calam quando engolem. Uma aterra perto de mim, com algo no bico. Duas ou três ladronas atacam-na, mas ela finta-as, aproximando-se mais do local onde me sento. Num grande esforço, tenta engolir. Não é capaz.

Noto que é uma tira de plástico branco e rígido, manchada de sangue, que lhe está meio entalada na goela. Mais um arranco esforçado. Engole. Condenou-se. Como se condenam todos os animais que nos oceanos, nos mares, nos rios, nos lagos ingerem os plásticos dos desleixos humanos, confundindo-os com alimentos. Como nós nos condenamos ao comermos peixe que medrou a ingerir microplásticos tóxicos. A quantidade de plástico nas águas é preocupante – num estudo recente, conclui-se que a quantidade de microplásticos (partículas com tamanho inferior a cinco milímetros) existentes na foz do Douro é 1,5 vezes superior ao número de larvas de peixe.

As gaivotas já se foram, tão súbito quanto vieram, até a desgraçada que engoliu a tira de plástico do tamanho dum carapau. Na água, resta o lixo despejado pelo homem da lota: sacos plásticos, garrafas de água e embalagens de iogurte; conto dez resíduos, que seriam onze, não foram a fome e a ilusão da pobre gaivota.

Olho, com tristeza, o lixo plástico a afastar-se na corrente, e pergunto-me: que quantidade de resíduos despejará o inconsciencioso cidadão na água, por semana, por mês, num ano? Custa a crer que quem trabalha na lota e atira lixo às ondas, que quem marisca na Troia e deixa lá carradas de embalagens do sal, que quem vive do mar, afinal, possam ser tão ingratos e ter tão pouco respeito pelo mar que os sustenta.

Os séculos sucedem-se; a instrução generalizou-se; vivemos na era da informação e do conhecimento; não há quem se não considere atualizado e experto, em quase tudo. Ainda assim, a ignorância e a estupidez parece que persistirão até ao fim dos tempos.

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