Guardião da arte de calafetar fala sobre profissão em vias de extinção

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Entrevista a João Santos, o único calafate setubalense ainda activo. Exposição “Actividades Marítimas” fica patente na Biblioteca de Azeitão até dia 29

 

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Depois de ter estado patente entre Setembro e Novembro do ano passado na Galeria Municipal do 11, a exposição “Calafates e outras profissões ligadas à actividade marítima” rumou agora até à Biblioteca de Azeitão, onde ficará até ao dia 29 deste mês.

Retratando a vida marítima setubalense e os diversos ofícios que lhe estão associados, importantes na construção da identidade da cidade, a exposição, organizada pela Câmara Municipal de Setúbal, desenvolve-se em torno da profissão de calafate sem esquecer todos aqueles “que entregaram as suas vidas às profissões relacionadas com a fascinante actividade marítima, ao longo dos séculos, na região de Setúbal”.

Uma sequência de fotografias captadas e reveladas por Francisco Borba, presidente da Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, apresenta João Santos, o único calafate setubalense ainda activo, a executar a praticamente extinta arte de calafetar.

“Antigamente, andava-se na escola até à quarta classe. Se os pais tivessem algumas economias, ia-se para a escola comercial ou industrial avançar mais o estudo. Quem era mais pobre, como é o meu caso, vinha para a construção naval”, começa por contar o calafate, João Santos, a O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO. “Não há ninguém a fazer esta profissão, ninguém a querer aprender. Em Sesimbra só há um calafate, e em Setúbal neste momento sou eu o único a trabalhar”, lamenta. “Há um calafate mais novo que eu que já não pode trabalhar e outro ainda mais novo que deixou isto e agora anda ao mar”, acrescenta.

“A vida do mar já não é como antigamente”

João Santos nasceu no Bairro de Troino em 1946. Começou a trabalhar como calafate com 12 anos, exercendo a profissão até ser recrutado para o serviço militar. Quando terminou, foi para trabalhar para a empresa Movauto: “montava muitas marcas de carros nas Praias do Sado”, recorda. Depois de se reformar, voltou à sua profissão de origem e hoje não resiste a dedicar-se a esta arte, a este trabalho que “enquanto puder” não pretende abandonar.

Em Setúbal, em Sesimbra, em Algés ou na Nazaré, onde desempenha actualmente trabalhos de calafate, onde quer que vá, João Santos tem gosto e dedicação no que faz, e lamenta que a profissão atravesse actualmente um momento difícil. “Os mais novos não estão a querer abraçar este sector. É preciso muita prática, parece fácil mas não é. Este não é um trabalho para toda a gente e a vida no mar também está complicada. Já não é como antigamente”, reconhece, alertando para o facto de que “um calafate não consegue sustentar uma casa só com essa actividade e não tem reforma, ou se tiver é baixa, porque desconta pouco ou nada. Nunca sabe o dia de amanhã”. Nas palavras de João Santos, a vida no mar mudou consideravelmente ao longo dos anos. Ser calafate é uma profissão em vias de extinção e “hoje em dia até os barcos em madeira deram lugar aos barcos em fibra”.

Questionado sobre o que é que o faz continuar, o que é que o move para nunca ter deixado esta arte, apesar das dificuldades, João Santos responde que é assim que se sente bem: “o convívio que temos aqui faz bem e este trabalho liberta a nossa cabeça. Estamos ocupados com os barcos e é assim que se passa o tempo. Parar é morrer”.

Trabalho de equipa, ferramentas que não se encontram à venda, uma arte por descobrir
A profissão de calafate pode ser desempenhada tanto em terra como na água mas actualmente, quando em Setúbal, é na Doca dos Pescadores, “no lugar onde os barcos sobem”, que João Santos arranja as embarcações na companhia de Manuel Fernandes. Enquanto João repara a parte de baixo da embarcação, o seu amigo desenha e pinta as letras que identificam o barco. Também ele em tempos foi obrigado a deixar a construção naval, dedicando-se à pilotagem mas nunca abandonando este amor pelos barcos e por tratar deles.

“Quando o barco chega, há que ver o que está ruim e é nisso que se mexe. O tempo de trabalho em cada embarcação demora conforme o que houver a fazer mas normalmente entre uma hora e duas fica pronto”, explica. Sobre as ferramentas que utiliza para desempenhar a calafetagem, João explica que “ferramenta que não há à venda é ferramenta de calafate. São feitas pelos calafates e pelos torneiros, ou foram mandadas fazer”.

De martelo ou “macete de calafate” em punho, João Santos partilha ainda que muitos dos artefactos ligados à profissão de calafetar que utiliza hoje, como é o caso dos ferros, são herança que guardou de pessoas “que já não estão neste mundo. Antigamente havia muitos calafates, muitos mesmo, e foi com eles que aprendi”. São saberes que guarda até hoje, temendo que terminem em si mas continuando a pô-los em prática enquanto o corpo deixar. “Pretendo continuar a ser calafate enquanto puder. Este osso do ombro já vai doendo, da força que se faz, dos anos de trabalho”, desabafa para depois exemplificar: “É como um automóvel. O carro é novo, o motor é novo. Ao fim de 20 anos, o motor já não é o mesmo. É como eu. Os meus ossos, com 73 anos, já não são os mesmos mas importa é que haja saúde”.

Até ao dia 29, na Biblioteca de Azeitão, é possível visitar a exposição fotográfica que mostra João Santos a desempenhar o seu trabalho de calafate, conhecer melhor esta arte e ver de perto ferramentas com que realmente se reparavam os barcos, graças a uma doação de António Machado, que recolheu o material de um familiar de profissão calafate para integrar a colecção do Museu do Trabalho Michel Giacometti. A mostra sobre as actividades marítimas em Setúbal pode ser visitada de segunda a sexta-feira entre as 09h00 e as 12h30 e das 14h00 às 17h30 e ao sábado das 14h00 às 18h00.

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