Pedro Dominguinhos: “Temos de ser motor do ecossistema de desenvolvimento regional”

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A comemorar 40 anos de fundação, o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) assinala um “marco importante para a instituição e para a região”, afirma Pedro Dominguinhos que coloca este instituto do ensino superior como um dos cernes do desenvolvimento regional. A sessão comemorativa realiza-se no Fórum Luísa Todi, a 7 de Outubro

 

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Com cinco unidades orgânicas, o IPS é das instituições de ensino superior que mais alunos tem captado nos últimos anos. Um crescimento que se verifica também a nível da internacionalização. Com uma crescente relação com empresas e outros organismos, foca-se em saberes e investigação capazes de alavancar a economia do território

 

O Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) está a comemorar 40 anos. Com quantos alunos começou?

O Politécnico de Setúbal foi formalmente criado em 1979, à semelhança de outros no País, e surge da alteração educativa que criou os institutos politécnicos, na sequência da reforma Veiga Simão. Foi uma missão para dotar o País de um ensino superior mais profissionalizado, garantindo técnicos superiores de qualidade que pudessem alimentar o tecido produtivo e tornar Portugal competitivo.

À data de criação dos politécnicos as suas diferenças para com as universidades eram muito maiores do que hoje, no ponto de vista da missão. As universidades apontavam para um ensino mais teórico, enquanto os politécnicos era um ensino mais prático, mais ligado às profissões e mais próximo das regiões, ou seja, visava o desenvolvimento regional.

O Politécnico de Setúbal está nessa primeira vaga, houve uma fase de instalação, e em termos de alunos só na década de 80 tivemos os primeiros, eram menos de uma centena na área da Educação, isto ainda num palácio no centro da cidade de Setúbal [junto ao portal histórico de Setúbal].

 

Como evoluiu o IPS até chegar às actuais cinco unidades orgânicas de ensino?

Formalmente começámos pela Escola Superior de Tecnologia de Setúbal, mas a primeira a receber alunos foi a Escola Superior de Educação, na altura ainda não de ensino superior. Mais tarde, em 1994 é criada a Escola Superior de Ciências Empresariais, em 1999 a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, e em 2000 a Escola Superior de Saúde que foi a primeira desta área a criar valências integrando a enfermagem e as tecnologias da saúde.

São cinco unidades orgânicas que vieram dar resposta às necessidades da região criando cursos pioneiros.

Para nós sempre foi muito claro criar cursos que respondam às necessidades das empresas, escolas, autarquias ou mesmo unidades de saúde da região. Temos orgulho em fazer parte do ensino politécnico virado para as profissões, virado para o desenvolvimento científico e tecnológico, criação de empresas e também uma intensa preocupação para com o desenvolvimento regional.

 

Para além das unidades orgânicas em Setúbal e no Barreiro, o IPS tem cursos noutros concelhos, onde?

Temos outros cursos em Ponte de Sor, Sines, Grândola e em Lisboa também. Nos próximos três anos não se perspectiva criarmos mais escolas. O que pode acontecer é algumas unidades orgânicas ganharem outras valências, fruto das áreas científicas que estão a crescer.

 

Defende o IPS como um cerne para alavancar a região?

Já disse, algumas vezes, que temos de ser motor do ecossistema de desenvolvimento regional. Hoje a forma como se pratica a inovação – de forma aberta – obriga a um conjunto de parcerias com os diferentes actores regionais; temos de ser absolutamente dinâmicos, desde o relacionamento com as instituições até à criação de projectos comuns.

Estamos envolvidos com várias empresas, IPSS, escolas, autarquias e instituições de saúde, assim como mantemos projectos empresariais na produção da indústria 4.0, ou mesmo casos como a Câmara de Setúbal em que, recentemente, apresentámos um projecto de percepção do modelo de governação do turismo na região.

Actuamos conjuntamente com o território, e não só na formação de recursos humanos. Estamos a falar de mais de 25 mil diplomados nos últimos anos, em que a maioria fica na região. Isto contribui para aumentar a produtividade das empresas a nível do território.

 

Maioritariamente, qual a origem geográfica dos alunos que frequentam o IPS?

Globalmente, nas cinco escolas, cerca de 80% provém da península de Setúbal, mas no caso da Escola Superior de Saúde há uma dispersão maior.

 

Que resposta dá a quem aponta os institutos profissionais como um ensino menor?

Quem o diz revela desconhecimento sobre a realidade do ensino politécnico ou do ensino superior mais profissionalizante. Estamos num país que em mais de 40 anos de ditadura entendia que a educação não era fundamental, mas a realidade é que quanto menos educadas são as pessoas maior dificuldade têm em perceberem os factos. Hoje, no século XXI, verifica-se que são também as pessoas com menos educação que aderem a movimentos fanáticos ou extremistas.

O ensino politécnico fez um caminho notável nos últimos 40 anos, eu diria que é umas das principais conquistas da democracia. Nós desempenhamos um papel fundamental no desenvolvimento regional.

Um estudo recente da Agência Nacional da Inovação que compara todos os politécnicos a nível europeu na participação dos Projectos Horizonte 2020 – os mais exigentes do ponto de vista competitivo – verifica que entre os países que têm sistema universitário e politécnico, os politécnicos portugueses, em termos absolutos, são aqueles onde o número destes projectos é mais elevado. Isto quer dizer que temos capacidade para competir com os melhores a nível da Europa. Veja-se que, em projectos aprovados no H2020, estamos à frente da Espanha, da Alemanha, da França e da Holanda. Os politécnicos portugueses são responsáveis por 17% de todos estes projectos. Ora isto num estudo que compara 16 países é revelador da nossa capacidade de investigação.

 

Pelas oportunidades que os politécnicos trazem tanto a alunos como às regiões, é de depreender que são das melhores respostas no sistema de ensino superior?

Não é a melhor solução, mas é complementar dentro do ensino superior. Há cursos que só existem nas universidades, mas quem pretende um ensino mais profissionalizante é de seguir pela licenciatura no politécnico. É essa nossa missão; o que fazemos é de qualidade, e muito ao nível da investigação.

As universidades não devem invadir o espaço mais profissionalizante do ensino superior politécnico, nem o politécnico ter deriva para imitar as universidades. Universidades e politécnicos têm missões diferenciadas que têm de ser assumidas com qualidade. Temos públicos-alvo distintos e com expectativas diferentes, o que necessário é lutar por um ensino cada vez com maior qualidade. Tem de subsistir a ideia de complementaridade.

 

Existe a ideia de que o ensino superior profissional está mais perto do mercado e das soluções para cada região. É este o objectivo?

E cada vez mais! A complexidade do mercado é mais complexa do que há 10 ou mesmo 20 anos atrás. Temos de formar pessoas com um maior grau de abrangência. O IPS tem cursos direccionados para determinadas necessidades de empresas, caso da Lauak [industria aeronáutica] que tem engenheiros formados no IPS.

Para os cursos técnicos superiores profissionais chamámos várias empresas e, em conjunto, construímos a formação para dar resposta a esse mercado. Inclusivamente, fazemos cursos à medida para algumas empresas, caso também da empresa Deloitte. As empresas percebem a necessidade desta relação com o IPS na formação e investigação, e nós temos de fazer parte do sistema regional de inovação para identificar e responder às necessidades das empresas e de cada região.

 

É nessa linha que um estudo do Conselho Coordenador dos Politécnicos, o qual preside, refere que cada euro de investimento público nos institutos superiores politécnicos é transformado por estas instituições em, pelo menos, dois euros na actividade económica?

Depende da actividade económica das regiões, mas é um investimento altamente reprodutivo. Do ponto de vista das contas públicas somos muito certinhos, conseguimos gerar receitas próprias e temos superávites anuais. Para além de termos contas certas temos um efeito reprodutivo significativo nas economias.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, na minha tomada de posse como presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, em 16 de Maio de 2018, disse que “os politécnicos com o dinheiro que recebem fazem milagres”. São milagres que se traduzem em mais investigação, mais formação, mais projectos com as empresas, projectos europeus e também em África.

Temos competência reconhecida e capacidade para captar fundos comunitários, mas para captar mais dinheiro precisamos de mais centros qualificados, por isso dizemos que somos claramente subfinanciados. E não precisamos de uma fortuna por ano, precisamos de 3% a 4% do Orçamento de Estado, [OE] por ano, para colmatar em muito as nossas necessidades. Falamos em 30 a 40 milhões por ano de acréscimo adicional para o ensino superior.

O dinheiro que os politécnicos recebem do OE cobre apenas 80% dos salários. Portanto, se não tivéssemos capacidade para conseguir receitas próprias, já tínhamos fechado portas, ou então o Estado tinha de nos dar mais dinheiro para os salários. Não há mal algum em termos de ir buscar receita próprias para manter actividade, mas nós somos ensino público e, como tal, temos uma missão que nos é outorgada pelo Estado, por isso pedimos condições mínimas para funcionar. O Estado não pode dizer que quer mais recursos humanos com formação superior e depois carregar financeiramente ainda mais as famílias.

 

No ano lectivo 2017/2018 estavam inscritos no IPS 5 938 estudantes, distribuídos pelas suas cinco unidades de ensino. Em termos globais, o actual ano lectivo regista um aumento do número de alunos?

Neste momento, segundo dados oficiais de 2018 e sem ter em conta a segunda fase de matrículas neste ano lectivo, são cerca de 7 mil alunos, isto significa que entre 2014 e 2018 tivemos um aumento de 2 mil estudantes, ou seja, 40% de crescimento.

Este ano, com o concurso nacional de acesso ao ensino superior vamos ultrapassar os mil estudantes colocados nesta fase, e em conjunto com os concursos locais, os Cursos de Engenharia e Tecnologia e com os mestrados devemos ter cerca de mais 2 400 novos estudantes este ano, nunca tivemos tantos novos estudantes a entrar pela primeira vez, isto demonstra a actividade do IPS.

É um crescimento muito relevante e acima da média nacional, o que implica que estamos quase na capacidade máxima instalada nos quatro edifícios para cinco escolas.

 

Está em perspectiva a construção de outro edifício escola?

A Escola Superior de Saúde partilha o mesmo edifício da Escola Superior de Ciências Empresariais, foi uma situação provisória que hoje obriga a encontrar meios para construir um novo edifício.

Recentemente, a Assembleia da República aprovou uma recomendação ao Governo para colocar dinheiro para a construção desse edifício. Uma das minhas missões nos próximos meses é encontrar soluções para essa escola junto do Governo, para além de outros programas que eventualmente existam.

 

O seu mandato como presidente do IPS termina dentro de três anos. Vê o novo edifício para a Escola Superior de Saúde como o seu grande objectivo?

É um dos objectivos e uma questão fundamental, mas há mais dois essenciais. Um é o reforço do sucesso académico associado à inovação pedagógica e novas metodologias que coloque muito mais os estudantes no centro do processo educativo, e ainda que envolva muito mais as empresas e demais organizações. O outro objectivo é continuar a dar passos muito consistentes através de projectos de inovação pedagógica e de mais formação para os docentes.

O terceiro objectivo é o reforço da investigação. Temos mais docentes doutorados, 60%, temos massa crítica instalada e centros de investigação homologados, o que implica um reforço do número de projectos e publicações e das relações com empresa e outras organizações em termos de permeabilidade com o meio.

Podemos falar ainda num quarto objectivo, transversal, que é o de maior sustentabilidade ambiental onde já temos vários projectos a decorrer. Todas as escolas vão receber este mês a bandeira ecoescolas; exemplo: eliminámos as garrafas de plástico nas reuniões, só servimos água através de dispensadores nas escolas, vamos fazer separação de lixos e estamos a promover a eficiência energética dos edifícios. Estamos ainda a tentar adquirir carros eléctricos e colocar mais pontos de carregamento para essas viaturas. Por outro lado, estamos a promover a melhoria do bem-estar dos trabalhadores, docentes e não docentes, em várias vertentes.

 

Quantos funcionários, não docentes, tem o IPS, e quantos docentes?

Não docentes são cerca de 170, e cerca de 430 docentes a tempo integral, no total de docentes ultrapassa os 600.

 

“Mantemos uma preocupação muito forte na participação de projectos internacionais”

 

A internacionalização é um objecto em que o IPS quer apostar cada vez mais forte. Com vários projectos e mais procurado por alunos Erasmus+, tem uma capacidade reconhecida. A 9 de Outubro vai dar mais um passo alargado com a assinatura do protocolo da Oficina Lu Ban

 

Em termos de internacionalização do saber e do saber fazer como posiciona o IPS?

O ensino superior em Portugal está num profundo crescimento do seu processo de internacionalização. O número de estudantes internacionais mais do que duplicou nos últimos cinco anos, e o IPS não escapou a esse crescimento. Temos como mercados prioritários o Brasil, depois Angola e Cabo Verde e também, nos próximos anos, alunos da China, Macau e alguns países da América Latina. Isto para além dos que nos chegam pelo programa Erasmos+, onde temos anualmente cerca de 250 estudantes.

Mantemos uma preocupação muito forte na participação de projectos internacionais. Este foi o melhor ano com projectos Erasmos+ aprovados, isso significa uma consolidação da capacidade científica e da participação nas redes internacionais que temos conseguido junto dos nossos parceiros.

Simultaneamente, temos a inauguração da Oficina Lu Ban, em parceria com a Escola Vocacional de Mecânica e Electricidade de Tianjin e com governo desta província chinesa, à qual a Câmara de Setúbal se associou, que vem reforçar a nossa capacidade de actuar na indústria 4.0. A 9 de Outubro temos uma conferência e assinatura do protocolo aliança Lu Ban entre as duas escolas e empresas chineses e portuguesas com o objectivo de realizar com o tecido empresarial projectos de colaboração para reforçar competências.

 

Alumni e empresas colocam IPS entre os melhores

Num recente inquérito publicado pelo Times Higher Education referente ao ranking de ensino, o IPS entre 225 instituições europeias está posicionado nas primeiras 25 posição no reconhecimento pelos alumni [ex-alunos] e pelas entidades empregadoras.

Para Pedro Dominguinhos é importante o IPS “prolongar a relação com os alumni e ser uma instituição com reforço de empregabilidade”. A isto acrescenta que o IPS “tem a segunda maior taxa de empregabilidade nacional”, e quanto à taxa de desemprego entre os formados “é de 3%, o que é insignificante”.

 

Por: Humberto Lameiras

Foto: Mário Romão

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