O barulho da lua: grande reportagem sobre a pesca em Setúbal

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As fotografias foram tiradas, numa noite de faina, a bordo da embarcação “Mãe de Jesus”, a única traineira para a pesca da sardinha que Setúbal tem neste momento. Agora, em terra, fazemos um retrato sobre o estado da pesca na cidade, dando voz a quem dela vive, sabe os seus segredos e tem o maior respeito e o maior amor por andar no mar.

 

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Setúbal é terra de peixe. Com estreita ligação ao rio desde sempre, a cidade é por muitos conhecida como a cidade do rio azul, a cidade da sardinha, do salmonete e também do carapau. É o sítio onde turistas e curiosos vêm para comer peixe. Mas até que ponto Setúbal terá peixe seu para oferecer se a pesca enfrenta tempos difíceis e para a pesca da sardinha existe actualmente apenas uma traineira, que até já se divide com Sesimbra? Que futuro temos para o rio, para a economia do rio, para as gentes do mar e para a cidade de Setúbal?

 

Na semana em que se celebra o mar, a ligação entre a cidade e o rio e a promoção das actividades relacionadas com a nossa “economia azul”, sem esquecer a importância de sensibilizar a população para a importância da preservação dos recursos marítimos, O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO publica uma reportagem sobre o estado da pesca na cidade de Setúbal – que tem actualmente uma traineira e a lota que vende peixe mais tarde no nosso país.

 

Publicámos recentemente um artigo que dá conta de que o distrito é responsável pela venda de um terço do peixe do país e que, segundo a Docapesca, “as lotas e postos do distrito de Setúbal representaram, em 2018, 32 mil toneladas e 46,5 milhões de euros, ou seja, cerca de 32 por cento do volume e 23 por cento do valor total transaccionado nas lotas do continente português”. Temos menos embarcações em Setúbal mas a Docapesca diz que “a diminuição do número de embarcações é uma realidade a nível nacional” e que “o valor de vendas na cidade do Sado cresceu 26 por cento nos últimos cinco anos”.

 

A lota de Setúbal abre às 09h00 de segunda a sexta-feira. O horário de recepção e pesagem do pescado faz-se entre essa hora e as 04h00 e a venda entre as 21h00 e as 02h00. Fecha às 05h45. 

 

Por considerarem desajustado este horário, os barcos de Setúbal estão a migrar para o porto de Sesimbra, onde encontram melhores condições de funcionamento, para realizar as suas vendas. A lota de Sesimbra foi, segundo as contas e os dados divulgados pela Docapesca relativos a 2018, a primeira lota em termos de volume e a terceira em valor de vendas. 

 

Setúbal, terra de peixe, tem apenas uma traineira

A embarcação “Mãe de Jesus” é neste momento a única que Setúbal tem para a pesca da sardinha. Na Doca dos Pescadores, já existiram muitas mais, que rumaram entretanto a outros portos, principalmente ao de Sesimbra, pela proximidade, horários e funcionamento da lota. Foi o caso da embarcação de pesca de sardinha “Segredos do Mar”, que se encontra representada numa pintura na parede do Mercado do Rio Azul, em Setúbal, que no mês de Janeiro deixou Setúbal rumo a Sesimbra. É também com destino a Sesimbra que Rui Russo, mestre da embarcação “Mãe de Jesus”, e a sua tripulação, todos oriundos de Setúbal, seguem viagem em muitos dias de trabalho. 

“Em Sesimbra, há coisas a acontecer. Há movimento. Em Setúbal, não há nada. Morreu”, começa por dizer o mestre do “Mãe de Jesus”, para quem um dos motivos para este cenário em terras e mares setubalenses é o horário a que o leilão do pescado acontece na lota. “Num dia normal, Sesimbra é capaz de descarregar mais peixe do que Setúbal em dois meses. E, fazendo o paralelo entre estas duas realidades, estamos a comparar uma vila, encaixada na serra, com uma cidade com tradições como a das conserveiras e onde existe acesso para transportar peixe para toda a parte do país e do mundo”, refere.

A embarcação Mãe de Jesus foi construída em 2002, em Vila Real de Santo António, completamente nova, em fibra de vidro. Veio para Setúbal e desde aí tem sofrido alguns melhoramentos mas o plano original do barco mantém-se igual. O mesmo não acontece com o estado da pesca actualmente. Olhando para trás, desde 2002, a pesca não está igual. Na opinião de Rui Russo, está pior. “O preço do peixe não se mantém, está mais barato do que estava em 2002. Os combustíveis estão mais caros, o pessoal está mais envelhecido e existem cada vez menos estaleiros, oficinas e mão de obra em terra”, relata. “Cada vez mais temos de ser os homens dos sete ofícios quando nos aparecem problemas para resolver. De 2002 para cá, nada consigo apontar algo que esteja melhor”, continua.

 

A tripulação de Rui costuma ser constituída por 10 pessoas mas neste momento são apenas 9. Com a reforma de um dos seus homens, o mestre viu-se a braços com mais um problema: a falta de pessoal para trabalhar no mar. “As pessoas vão tendo mais idade, vão reformar-se e para o lugar dessas não estão a vir outras. Está a sentir-se como nunca a falta de pessoal para trabalhar”, declara.

 

O carapau, a sardinha e a cavala são neste momento as três espécies alvo do barco “Mãe de Jesus”, cujo futuro está neste momento, nas palavras do seu mestre, “tremido”. A mudança definitiva de Setúbal para Sesimbra é uma das opções em cima da mesa. “Não é dramático, não é uma situação ideal mas a ter em conta o rumo que as coisas estão a levar estou a ver que vai ter de ser, mais tarde ou mais cedo. A lota de Setúbal não nos oferece as devidas condições de trabalho”, diz, acrescentando que “se se der o caso de todo o cenário melhorar um bocadinho, passo a vir para Sesimbra o ano todo. Vou comprar uma carrinha para transportar o meu pessoal e vou fazer porto aqui”.

 

Para Rui, a solução para Setúbal passava por “uma lota da manhã e uma lota da tarde, sendo que a de manhã seria para o pescado de cerco, com o peixe do dia para ser consumido nesse mesmo dia”, uma vez que “Setúbal tem uma restauração enorme, está nas estatísticas, e o peixe do dia que se consome em Setúbal e que é da lota de Setúbal é zero”.

 

“O peixe da lota de Setúbal é vendido às oito da noite. Ninguém vai comprar peixe às oito da noite para ir à corrida para o restaurante vender às pessoas às nove. Esse peixe, no mínimo, é para vender no dia a seguir”, continua. Apesar de ver na mudança de horário uma possível solução, ainda assim, Rui considera que “agora já vai ser difícil. Já se criou rotina. Os compradores já se viraram para outros sítios, os barcos já desapareceram. É uma mágoa antiga mas se calhar neste momento já vai ser tarde. Não digo que não fosse possível ainda as coisas mudarem mas ia demorar alguns anos até as coisas melhorarem novamente”. 

 

Rui Russo tem 50 anos e anda no mar há 36 anos. Foi para o mar com 13, e a liberdade e o amor sem medida que tem à cidade de Setúbal e à sua profissão fá-lo continuar, sem baixar os braços, apesar de muitas vezes se sentir desmotivado com a conjuntura envolvente e a crise que se vive no sector. “O meu pai é armador, os meus avós eram do mar, e acho que vai terminar em mim”, desabafa. Tem filhos e netos mas não é na pesca que imagina os seus futuros. “É uma profissão lindíssima mas não lhes oferece condições para trabalhar. É tão digna como outra qualquer mas o pescador é muito mal tratado. É preciso gostar muito disto e eu gosto muito daquilo que faço. Isto é uma vida de liberdade, de paz de espírito, sem stresses, e nem me vejo a fazer outra coisa”, acrescenta.

 

Associações lutam pelo futuro da pesca artesanal

A pesca artesanal enfrenta assim dias difíceis mas o gosto por “andar no mar” é maior e comum a inúmeros setubalenses que não abandonam a faina apesar das dificuldades. Em proximidade com as gentes do mar, a Associação de Pesca Artesanal – Setúbal Pesca foi criada para resolver problemas da pesca, dar apoio aos pescadores e a todas as pessoas relacionadas com a actividade. “Uma associação como esta faz muita falta porque a pesca é um lugar com muitos problemas para resolver”, diz Daniel Ferreira, que dividindo o seu tempo entre o mar e os escritórios da associação, é um dos fundadores e o actual presidente da Setúbal Pesca, associação de pesca artesanal que representa os armadores da pesca local e costeira em Setúbal, na Gâmbia e na Carrasqueira.

 

Filho do mar, Daniel recebeu da sua família as tradições e o amor pela pesca e por andar no mar, onde entrou há mais de 40 anos e de onde não mais conseguiu sair. Nas suas palavras, “nestes 40 anos, o que melhorou foi muito pouco” mas afirma, baseando-se em estudos realizados pela associação e na experiência que tem, que apesar de tudo não falta peixe no rio Sado. Entre as lutas pelas quais se empenhou, a associação conseguiu legalizar a pesca do salmonete com malhagem apropriada. “Há cerca de três anos pedimos um estudo sobre o salmonete, que não podia ser apanhado aqui em Setúbal. Era proibido. A Setúbal Pesca pediu ao Instituto de Investigação das Pescas e do Mar para realizar esse trabalho connosco”, refere. 

“Vieram connosco ao mar e chegaram à conclusão de que havia peixe para apanhar e que aquela arte não prejudica mais nenhum tipo de peixe. Conseguimos, assim, ter essa licença para mais de vinte embarcações”, adianta, acreditando que “esta é mais uma prova de que através destes estudos se pode fazer muito” e considerando “que a pesca enfrenta dias difíceis e os governantes se esquecem muitas vezes do sector, no qual continua a faltar investimento”.

No mar, o barco de Daniel leva três homens a bordo. Pescam salmonetes, douradas, sargos… Daniel tem dois filhos mas também não quer que o futuro deles seja no mar. “É preciso gostar muito desta vida para se andar no mar. É uma vida dura, mas também não é nada de matar. Tem os seus bons e maus, como tudo. Há dias em que as condições são mais adversas para trabalhar mas com os equipamentos e a informação que temos disponíveis hoje em dia temos muito melhores condições e até se sabe o tempo que vai cair”, refere. Para o presidente da associação setubalense, a pesca “é uma profissão que tem futuro”, mas tem que se conseguir dar e assegurar esse futuro, dando algo mais aos jovens: “temos que cativar as pessoas mais jovens para vir para o sector, dando-lhes as devidas condições. Hoje, os pescadores e os armadores queixam-se com falta de pessoas para trabalhar. Não há pessoal novo a querer vir para a pesca e tudo isto nos preocupa”. 

 

O “pessoal a trabalhar no mar” são pessoas da sua faixa etária, na casa dos 50 anos, “para mais e não para menos” e quando questionado sobre o facto de permanecer na área apesar das dificuldades responde: “Temos que continuar, não podemos baixar os braços. E então nas minhas idades, já não dá para pensar muito. Para onde é que eu vou?”.

 

A Setúbal Pesca garante estar empenhada em ajudar no sentido de crescimento da pesca em Setúbal, sempre “pronta para colaborar”, mas deixa o aviso: “Seguimos o nosso caminho para fazer coisas positivas, para ver se a pesca em Setúbal cresce, para podermos puxar pessoas mais novas para a pesca. Se isto continuar assim vamos acabar por deixar de ser uma terra de peixe. Ou melhor, com muito peixe, mas sem gente para o apanhar”.

 

A disparidade entre o preço a que o peixe é vendido em lota e o preço a que chega ao consumidor final é, na opinião de Daniel Ferreira, uma das razões para que em Setúbal as traineiras e os barcos de maiores dimensões tenham diminuído e até em alguns casos desaparecido. Daniel recorda que quando começou a trabalhar no sector da pesca, em Setúbal, existiam entre 40 a 50 traineiras. Existiam mais traineiras do que outros barcos e hoje “já ninguém aposta nas traineiras. Com a venda livre, cada um mete o seu preço. Isto acontece há bastantes anos e aqui em Setúbal foi um dos factores que fez desaparecer estes barcos todos, por não conseguirem combater estes preços. É insustentável. Há peixe que foi a cêntimos da lota e chega às mãos do consumidor a cinco euros”, explica. 

 

“Quando começaram a fechar as fábricas conserveiras as traineiras começaram a desaparecer”

A indústria conserveira é um factor importante a ter em conta neste caso, uma vez que era para lá que ia grande parte do pescado. “Hoje, se houvesse indústria conserveira na nossa cidade, se calhar tínhamos mais traineiras, havia mais gente a apostar nelas. Tínhamos as melhores conservas, e eram exportadas para todo o mundo, mas quando começaram a fechar as fábricas as traineiras começaram logo a desaparecer”, refere Daniel Ferreira, da Setúbal Pesca. Também para Ricardo Santos, da Sesibal, este é um tema sobre o qual não podemos deixar de falar quando o assunto é a pesca em Setúbal nos seus três tempos.

 

“Como se sabe, Setúbal tem um legado e uma história muito profunda em relação à pesca e às fábricas de conserva. A última terminou em 1996. Com o seu fecho, que também era inevitável, com a prática que faziam de exploração desenfreada em relação aos homens e mulheres jovens que trabalhavam de sol a sol, enquanto houvesse peixe… e pagavam miseravelmente”, recorda. “Vivemos de saudosismos, mas era óbvio que com esta política social não havia possibilidades de continuar. A não ser que se fizesse, e é o que se pretende, uma fábrica de conservas com vários produtos associados mas cumprindo os direitos e obrigações dos trabalhadores”, adianta. 

 

A Sesibal é uma cooperativa de pescas de Setúbal, Sesimbra e Sines e à conversa com O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO, Ricardo Santos, o presidente, diz que “a Sesibal já teve cerca de 28 traineiras associadas” e traduz a sua evolução em números. Há 20 anos, tinham 20 embarcações de cerco associadas, cerca de 400 pescadores. Há 10, existiam 15 embarcações. “Contando o pessoal que anda ao mar e o que está em terra a coser as redes, nesta altura devia rondar os 300 profissionais”, explica. Há 5 anos, Ricardo Santos contava 8 embarcações e 160 trabalhadores.

 

“O presente não suporta o futuro”

Com a situação que se vive actualmente, com um conjunto tão forte de restrições à comunidade piscatória, a organização de produtores tem vindo a sofrer muito com a saída dos cooperantes de traineiras de Setúbal e Ricardo Santos aponta a actual política de pescas para a sardinha, que não permite uma rentabilidade diária para custos tão grandes inerentes aos postos de trabalho que representam cada embarcação, como um dos factores que impede que a pesca no nosso país melhore, sem esquecer “a muita sardinha que temos no mar e não podemos apanhar pelas quotas de cada embarcação. Temos vindo a trabalhar muito seriamente para a preservação do futuro mas o presente não suporta o futuro”. 

 

Presidente da Sesibal há mais de 30 anos, Ricardo nasceu em Setúbal e começou a ir para o mar com o pai quando tinha 10 anos. “Tenho um conhecimento muito prolongado sobre esta temática, devido à minha actividade do meu dia a dia desde que me lembro. Quando queremos fazer economia de rio, os rios são maternidades. Nós tínhamos 220 espécies de peixes no Rio Sado em 1981. Hoje, não temos mais que 50”, conta.

 

Voz activa na defesa da pesca artesanal, a Sesibal pesca petinga, sardinha, cavala e carapau e é a organização de produtores que detém maior abrangência de poder pescar, desde o Cabo Raso até ao Cabo de São Vicente. Mas, ainda assim, as dificuldades não passam ao lado. Pelo contrário. São, em muitos casos, ainda mais notórios. “Há pescadores do cerco que não ganham salário mínimo nacional, indo para o mar 18 horas por dia. Ou até mais. Nunca sabem quanto tempo será porque vão para o mar e só voltam quando encontrarem o peixe. Muitas vezes não encontram e têm de vir, é inevitável”, refere.

 

Entre a Praia da Saúde e o Parque Urbano de Albarquel, já não existe o estaleiro que em tempos era o local destinado à recuperação e feitura dos barcos, que agora são também feitas em Sesimbra. “Na Docapesca de Setúbal, não temos gelo. A pesca da sardinha é muito específica. Se não levarmos a quantidade de gelo necessário, se desenvasarmos a sardinha para dentro dos recipientes e não pusermos gelo em simultâneo, o peixe chega a terra, fica engravatado e tem menos valor comercial”, explica. “Temos de trabalhar mais e melhor para a qualidade do produto que se coloca à venda. Por isso, temos de ter capacidade de resposta às necessidades”, acrescenta. 

 

A juntar à ausência do estaleiro e à falta de gelo e de água salgada para vender o peixe, entre as principais críticas apontadas por Ricardo Santos à Docapesca, está o facto de não existir um espaço para as pessoas trabalharem protegidas do sol na descarga do peixe, o horário desajustado que é praticado há 12 anos e afasta compradores para outros sítios e a falta de condições de segurança. “Se os barcos que normalmente fazem a vida da noite chegam a terra às 08h00 da manhã, a lota só abre a partir das oito da noite, como é que essa sardinha é vendida às oito da noite?”, questiona. “Sesimbra tem melhores condições de segurança e funcionamento. A Docapesca de Setúbal deveria ter-se preparado no sentido de se equipar, preparar, até porque Setúbal tem mais acessibilidades que Sesimbra, para que houvesse compradores de outras partes a vir comprar o peixe a Setúbal”, considera. 

 

A agravar toda a situação apresentada, está ainda a forma como é realizada a segunda venda, “na qual grande parte do pescado não tem origem de Setúbal mas faz concorrência com o nosso horário. Quando podíamos vender o nosso pescado, mesmo à noite, é a concorrência de uma segunda venda, que também é a única no país a funcionar em horário de lota”. 

 

Em relação aos preços, não há regras e esta é uma questão que, a par de Daniel Ferreira, da Setúbal Pesca, também preocupa o presidente da Sesibal: “não há uma defesa ao produtor nem aos tripulantes das embarcações, ou aos pescadores, para que não haja grandes exageros em relação ao preço que resulta da venda em lota comparativamente depois àquilo que depois vem para o mercado em fresco. Há situações de 500 por cento de mais valia para quem está a vender”.

 

Mas nem sempre aconteceu assim. Noutros tempos, muitos barcos de Peniche vinham até Setúbal vender, a par de embarcações vindas de Sesimbra que chegavam de madrugada. “Setúbal teve sempre mais pescadores do que Sesimbra, que hoje está bem posicionada a nível nacional em termos de venda porque se adaptou a uma nova realidade de venda. Aqui, já tivemos uma lota às 05h00. Vendia-se muita sardinha, muito carapau. Muito peixe. Conseguia manter-se os barcos em actividade porque se vendia peixe”, recorda, referindo que “a lota presta um serviço público. Não é só ganhar dinheiro, tem de prestar esse serviço. Ou então admitir que hajam outros que intervenham na área de exploração de fazer uma lota, porque a lei obriga a pôr o peixe todo em lota mas tem de haver as devidas condições”.

 

“O futuro só com uma boa política para a pesca” 

Todos os factores acima mencionados afastam pescadores e armadores, sobretudo os mais jovens, e Ricardo só vê futuro no sector com uma boa política para a pesca. “Antes, ninguém tinha a obrigação de estudar. Os filhos dos pescadores iam para o mar com os pais. Hoje, e bem, não é assim. As crianças vão para a escola. Não vão para o mar, obviamente. Então vão-se molhar todos para ganharem uma mão cheia de nada?”, questiona. “Vendem o peixe a trinta cêntimos e passam pela praça e está a três euros. Ninguém quer ir para o mar assim e tem de haver uma profunda reflexão a nível nacional neste sentido”, adianta, considerando que “a maior grandeza de Portugal está no mar e ainda ninguém se debruçou sobre o facto de ao invés de virem outros pescar nas nossas zonas de pesca devíamos ser nós. Não há nenhum país que tenha tanta quantidade de peixe de boa qualidade e que venda tão pouco. Preocupa-me imenso o futuro de Portugal e de Setúbal em particular”.

 

O turismo de Setúbal vive muito do mar. Setúbal vive muito do mar e para provar o nosso peixe vêm pessoas de toda a parte do país e até do mundo. Mas Ricardo Santos deixa o alerta de que para que o peixe apresentado no prato e até antes, no mercado, seja o peixe setubalense é necessário que existam pescadores, empresários, barcos, cuidados e medidas de apoio e protecção. “Se não defendermos isto naturalmente que não conseguimos. É muito importante revitalizar a economia da pesca em Setúbal, e é também muito importante que deixem o rio cumprir o seu papel na natureza. É uma maternidade. Querem matar a maternidade porquê?”.

 

Docapesca disponível para alterar horário e responder às necessidades da comunidade

Questionada sobre a sua posição face a estas situações, a Docapesca responde que se encontra “totalmente disponível para introduzir as alterações necessárias e responder da melhor forma às necessidades da comunidade a quem presta o serviço público da primeira venda de pescado” e que, para tal, “apenas será necessário que se obtenha um entendimento que satisfaça os armadores e os comerciantes”.

 

No ano passado, a entidade responsável pela Doca dos Pescadores e pelo edifício do mercado de primeira venda promoveu um conjunto de reuniões “com vista à antecipação do horário do leilão mas não foi possível encontrar uma base de entendimento”. A Docapesca disse ainda a O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO que tem conhecimento de que “estão em curso conversações entre a Associação Setúbal Pesca e os compradores de pescado com vista à apresentação de uma proposta conjunta para alteração do horário do leilão”. 

 

Sobre a falta de segurança, e na sequência de vários acontecimentos que deixaram os pescadores em alerta, “foi instalado um sistema de videovigilância no porto de pesca de Setúbal, que permitiu um reforço na segurança do local”. A Docapesca, que tem vindo a realizar um conjunto de investimentos no porto de pesca num montante global de 344.300€ entre 2016 e 2019, não teve conhecimento de incidentes semelhantes desde então.

 

Neste momento, está a decorrer a reabilitação e pintura do interior do edifício da lota, com vista à melhoria das condições higiosanitárias do estabelecimento e, ainda no decorrer de 2019, será iniciado um projeto piloto do novo sistema de leilão eletrónico do pescado.

 

A Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, por sua vez, enquanto autoridade portuária, “tem vindo a melhorar as condições da pesca na Doca dos Pescadores ao longo das últimas décadas, desde a construção do edifício de aprestos e do molhe exterior de proteção da doca, aquisição e manutenção dos passadiços flutuantes, a limpeza e pavimentação da área envolvente e aquisição de caixas para guarda dos aprestos” e garante que “as condições para o desenvolvimento da pesca têm ido ao encontro das solicitações das associações do sector”. 

 

Sobre a ida das embarcações setubalenses para Sesimbra, a APSS diz que se tem “verificado uma atracção natural de actividades e embarcações para o porto de Sesimbra, historicamente com maior dimensão e economias de escala, actividade industrial de transformação de pescado e canais de distribuição nacional e internacional”. 

 

A entidade que administra os portos de Setúbal e de Sesimbra justifica ainda que, por se ter vindo a orientar mais para funções urbanas e para a relação entre a cidade e o Estuário do Sado, à semelhança do que aconteceu noutros portos, a área envolvente da Doca dos Pescadores de Setúbal não permite “o mesmo tipo de desenvolvimento industrial e operacional que por exemplo o porto de Sesimbra tem tido nesta actividade, tornando-se este último um pólo de atracção na região para este tipo de actividade”.

 

Entre 16 de Abril e 30 de Maio, do próximo ano, no seguimento da reportagem “O baruho da lua”, será realizada uma exposição, com o mesmo nome, na Casa Bocage, em Setúbal.

 

Agradecimento especial a Rui Canas, presidente da União das Freguesias de Setúbal, por ter sido o ponto de partida para este “barulho da lua” e por nos ter mostrado que para todas as nossas ideias “há sempre um dia para acontecer”. 

 

Inês Antunes Malta (texto) e Alex Gaspar (fotos) 🌙

 

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