Viagem ao comércio tradicional da cidade

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Helena, João, António e Cláudia são alguns dos rostos que marcam o comércio na cidade. Têm ocupações muito diferentes, mas mantêm em comum a paixão pela profissão

 

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Por entre ruas e travessas, o comércio existente na cidade de Setúbal ainda vive, e sobrevive, nos dias de hoje muito marcado pelos estabelecimentos comerciais de antigamente. Os que permanecem “fincam pé” em não querer desaparecer. Pretendem, assim, deixar a sua marca na cidade. Para os comerciantes setubalenses, a necessidade de se trabalhar, por vezes, fala mais alto do que a vontade que se tem de “arrumar as botas” e descansar.

 

Assim pensa Helena Sousa, proprietária da Ervanária Natura. “O que me faz continuar é o facto de gostar muito do que faço”, afirma. A gerir um negócio de 1954, a vontade de o fazer surgiu da parte da mãe. “Inicialmente o espaço não era para ser uma ervanária, pois o meu pai comprou a loja para a minha mãe, que tinha tirado um curso de pintura e queria aqui colocar as coisas que pintava. Como na época os trespasses tinham de ser feitos para o mesmo ramo, acabou por ficar uma ervanária”, conta. “Em relação à pintura havia junto à porta um armário onde a minha mãe expunha as suas obras, mas acabou por se focar na ervanária em si”.

 

Inicialmente na Rua João Eloy do Amaral, a Ervanária Natura surgiu pelas mãos de “um dos três irmãos Guedes, figuras marcantes na cidade”. “Este irmão, que veio do Norte, abriu o espaço em 1950. Quatro anos depois veio para este local, no qual havia um armazém de batatas. O chão era de terra e não havia casa de banho. Por já ter investido muito tempo e dinheiro é que gosto de continuar por cá”, conta a proprietária.

 

Com produções de chá próprias, as composições foi o seu pai que lhas ensinou. Começou a aprender o ofício com apenas 18 anos, na “primeira ervanária existente na zona”, numa altura em que “ainda estudava”. Hoje, com 62 anos, não se imagina “a fazer outra coisa”.

 

“Nas vagas do liceu vinha para aqui aprender porque ele tinha as próprias receitas. Na altura não havia outra coisa a não ser ervas. Tudo o resto apenas apareceu depois. Hoje as receitas continuam a ser as mesmas, mas mando encher os chás num fornecedor. Sempre aqui fiz as misturas dos chás. Há mais de 40 anos o processo era extremamente primitivo”, afirma Helena Sousa. À medida que começaram a surgir novos processos e novas empresas, a proprietária da Ervanária Natura foi introduzindo no negócio “novos produtos à base de plantas, como os xaropes”.

 

Para ajudar no estabelecimento conta apenas com o contributo do filho, pois “mais pessoal acarreta condições que já não existem e não se justificam nos tempos que correm”. Em termos de futuro, este “depende de como as coisas evoluam. Faz-se o que se pode para continuar”.

 

De Casa de Estudos a Livraria Uni Verso

Por entre prateleiras preenchidas com milhares de livros encontra-se João Raposo, o alfarrabista mais antigo da cidade de Setúbal. É na Livraria Uni Verso, uma das mais antigas do município, que passa os seus dias desde 1989.

 

“A livraria surgiu porque sempre gostei de livros. Sou bibliófilo e gosto de escrever. Para além disto, quase todas as profissões que exerci estão ligadas às artes. Tinha as primeiras edições raras dos autores que mais gostava e o dinheiro que ganhava investia em livros”, começa por contar o alfarrabista. É com mais de 40 mil livros, dispostos entre os 25 metros quadrados de livraria, que João Raposo, de 63 anos, se diz sentir “em casa”. Esta sua paixão cresceu, também, por ter “tido a sorte de conviver com muitos escritores marcantes”. “Gosto muito do que faço, apesar de não ser fácil”, comenta.

 

Presente desde sempre na Rua do Concelho, a primeira loja, inaugurada há 30 anos, funcionou no número 4. No dia 13 de Fevereiro do mesmo ano, João Raposo reabriu a livraria no número 13, mantendo-se neste local até hoje. O espaço é, ainda, marcado pela presença de um painel de azulejo, elaborado por Luís Miguel Amaral, alusivo aos Descobrimentos, à Arrábida e à História de Portugal, intercalando entre o passado e o presente. Por sua vez, no logótipo encontra-se uma caravela portuguesa e um livro, simbolizando a abertura do País ao mundo.

 

Foi com uma parte da sua “biblioteca pessoal” que abriu a livraria, pois “com o investimento feito para arranjar o espaço e para fazer obras pouco sobrou para comprar livros”. O nome, Uni Verso, surgiu pela paixão por poesia, o Verso, e pela unidade do cosmos, o Uni.

 

No local funcionou, também, de 1990 a 1995, a Casa de Estudos Uni Verso, um projecto que João Raposo manteve com Agostinho da Silva. “Foi um espaço de tertúlia onde se realizaram lançamentos de livros e no qual aconteciam estudos gerais gratuitos, desde a filosofia até à arte de sapateiro. As pessoas reuniam-se aqui à noite para uma troca de ideias”, conta.

 

Apesar de ter nascido em Lisboa, é em Setúbal que se sente feliz há mais de três décadas. Para o futuro, prefere não fazer previsões. “É viver na corda bamba, no dia-a-dia. No fundo é preciso fazer uma vida de sacrifício e de prescindir de muita coisa. Não há o objectivo de enriquecer, mas sim o de sobreviver. Tudo o que ganho, gasto”, revela o livreiro.

 

“Os sapateiros estão hoje em vias de extinção”

 

A trabalhar na Casa das Solas, na Rua Augusto Cardoso, ainda permanece António Vitorino, de 82 anos. Num estabelecimento com quase 80 anos de “muita história”, o sapateiro, que considera ser “o mais antigo comerciante em actividade na cidade”, é “o único trabalhador e gerente de loja”.

 

“Foi Adelino Rito o fundador. Trabalhava na área e, um dia, resolveu abrir um estabelecimento próprio. Vim para cá trabalhar tinha 18 anos e continuo a gostar imenso de o fazer. Quando faleceu, há 17 anos, fiquei eu a tomar conta da casa”, diz.

 

A vender desde atacadores, solas, tintas para sapatos e cabedais, António Vitorino procura satisfazer, há 64 anos, os clientes habituais que ainda o procuram. Aqui continua a colaborar pois “é uma vida inteira passada neste local”.

 

Mas, em Outubro deste ano, vê-se “obrigado a fechar portas”. “Os tempos de antigamente eram outros, assim como a cidade e os hábitos de quem por cá andava. Por este motivo, os sapateiros estão hoje em vias de extinção. Este tipo de comércio vai acabar em Setúbal”, afirma o proprietário.

 

Para o sapateiro, “esta era uma das ruas principais da baixa. Era constituída por comércio e muitas moradias. Agora já fecharam praticamente todas e as pessoas mudaram-se para outros locais. Hoje, as grandes superfícies fazem com que a procura seja menor”.

 

A casa dos cafés em Setúbal

Desde Timor, Brasil, Costa Rica e Colômbia, vários são os aromas a café que por quem passa pela A Sopeirinha sente. A última casa de venda de café a retalho existente na cidade abriu portas na Rua Augusto Cardoso há 81 anos. É gerida por Gina Santos, antiga funcionária, desde 2014.

 

Actualmente é a filha, Cláudia Santos, quem assume o cargo, temporariamente, de forma a manter o sonho da mãe. “A minha mãe trabalhou aqui desde os 14 anos. Hoje tem 59 anos. Em 2014 pensaram em fechar, mas a minha mãe não deixou e assumiu a loja. Parecendo que não, passou aqui uma vida”.

 

A loja, fundada a 15 de Maio de 1937, cresceu pelas mãos “da família Rocha”. Inicialmente “funcionava no espaço uma mercearia com todo o tipo de alimentos. Mais tarde a família resolveu direccionar-se exclusivamente para a venda de café a granel”, conta Cláudia Santos.

 

Na A Sopeirinha o produto com mais destaque é, “sem dúvida, o café personalizado”. No estabelecimento há as misturas com cevada, chicória e café. Há, também, o café puro, “moído na hora”. Em termos de moagem, “existe a moagem expresso para cafeteira, cafeteira de pressão e, ainda, de filtro. Todos os tipos de café são vendidos ao quilo”, explica.

 

A gerir o negócio há cerca de um ano e meio, Cláudia Santos afirma que “manter o negócio é uma luta diária”. Apesar de estar situado na Baixa de Setúbal, “é preciso inovar ao máximo”. Para além de café, a loja disponibiliza, também, chás, rebuçados, bombons e gomas. “O que tem mais saída é o café (lote da casa), os rebuçados, as misturas, o café puro ou descafeinado e os doces”, acrescenta a funcionária.

 

Da mesma forma que os moinhos e as balanças, a maioria dos clientes são os mesmos de há meio século. Porém, “as novas gerações, entre os 20 e os 30, já se encontram a aderir, ainda que aos poucos, ao conceito do espaço”. “Mas não só de clientes portugueses se faz o negócio. As pessoas levam para Inglaterra, França e Angola para oferecerem aos familiares”, revela.

 

No que diz respeito a remodelações, “o espaço mantém muitos dos materiais que tinha originalmente. O moinho e a balança continuam a ser os mesmos de 1937”. Revestido a madeira tradicional há 25 anos, “tornou-se num espaço acolhedor”.

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