Politécnico de Setúbal no centro do debate sobre racismo

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Roteiro para uma Educação Antirracista visa desmitificar “narrativa racial” com vários seminários até Junho

 

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Uma equipa de docentes da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal criou o Roteiro para uma Educação Antirracista para, através de vários seminários – um por mês até Junho -, desmistificar a “narrativa racial” ainda presente na sociedade portuguesa, explicou à Lusa Cristina Roldão, uma docente e investigadora responsável por esta iniciativa.

 

No primeiro debate, na sexta-feira, no auditório da Escola Superior de Educação de Setúbal, Fernando Rosa, professor da Universidade Nova de Lisboa, reflectiu “como descolonizar a narrativa nacional”, e defendeu que a “memória” da história portuguesa, sejam os descobrimentos, a colonização ou a guerra em África, persistem actualmente como uma “ideologia”.

 

O assessor parlamentar do BE, Mamadou Ba, também esteve presente e defendeu a necessidade de romper com o luso-tropicalismo: “é preciso desconstruir, falar sobre a questão do privilégio branco e olhar para o processo histórico que resulta na descriminação de pessoas”.

 

A mudança de perspetiva nos manuais escolares de história foi um dos contextos mais abordados, e Cristina Roldão, revelou que após uma análise, foi possível perceber vários “discursos racistas” nestes livros, como “a ausência total de uma história sobre África, como tendo organizações políticas, culturais, económicas próprias e sofisticadas antes da presença dos portugueses”.

 

Um debate que ganhou atualidade tendo em conta os desenvolvimentos da última semana, após a intervenção da PSP no Bairro da Jamaica, no Seixal.

 

“Não sonhamos que este momento ia acontecer numa altura tão polémica, mas ao mesmo tempo tão reveladora. É como se estivesse sempre escondido debaixo de terra e nestes dias ele rebentou, saiu cá para fora. É um momento muito oportuno e principalmente para a Margem Sul”, frisou Cristina Roldão.

 

Até junho, realiza-se uma vez por mês uma conferência com esta temática, em vários espaços do concelho, como a biblioteca municipal, a Escola de Hotelaria e Turismo ou o cinema Charlot, e que apesar de ter como público-alvo os professores, educadores e alunos, está disponível para a comunidade em geral.

 

 

Jornalistas contra racismo nos média

 

Três jornalistas participaram no encontro e defenderam que desconstruir o racismo nos média, passa por ir aos locais, questionar e terminar com a precariedade.

Depois de Diana Andringa, da RTP, falou Joana Gorjão Henriques, do Público, que, sobre os incidentes no Bairro da Jamaica, disse que o jornalismo “regrediu”, quando saiu a notícia de que um homem foi detido por agredir um polícia.

José Rosendo, da Antena 1, considerou que “os média estão doentes” e a culpa é de todos os jornalistas, acionistas e até do público, a quem a comunicação social se dirige, por “não exigirem meios de qualidade, por não comprarem jornais e pensarem que estão informados na internet”.

“Uma forma simples de desconstruir é apenas olhar para as pessoas como pessoas. Não olhar como eleitores, consumidores, contribuintes, pela cor da pele. Nós temos alma, sentimentos, família, um passado. Se nós jornalistas pensarmos nisto, estamos logo a desconstruir uma narrativa”, explicou o jornalista do Pinhal Novo.

 

Manifestação no Seixal junta uma centena

 

O protesto em defesa pelo Bairro da Jamaica, que ocorreu em frente à Câmara do Seixal, na sexta-feira, decorreu de forma pacífica, mas com poucos moradores entre as cerca de 100 pessoas presentes.

 

“Não importa quantos somos, o que importa é ficar registado e passar a ideia de que a população da Jamaica está farta de ser agredida pelos abusos policiais”, disse Vicente, um dos moradores de Vale de Chícharos que se encontrava no movimento. Foi também Vicente que revelou que, neste protesto, estava presente “uma minoria” de moradores do bairro, o que justificou pelo “horário de trabalho”.

 

José Pereira, membro do Coletivo Consciência Negra, que organizou o protesto, disse que um Estado de Direito não pode permitir que os agentes da autoridade “abusem da lei e da ordem para cometer crimes de violência racista”.

Várias associações e civis mostraram solidariedade para com a população do bairro. Já a Associação para o Desenvolvimento de Vale de Chícharos demarcou-se da iniciativa.

Fotos: Alex Gaspar

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