Trinta e um anos de Uni Verso. “Vou manter a livraria aberta enquanto tiver força para carregar livros”

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A Livraria Uni Verso comemora os seus 31 anos amanhã, dia 13 de Fevereiro. João Carlos Raposo Nunes é o responsável pela livraria e o alfarrabista mais antigo da cidade

 

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A quem ainda no exterior, mesmo junto ao edifício da Câmara Municipal de Setúbal, vê a placa com a indicação para a Livraria Uni Verso não pode imaginar que lá dentro irá encontrar mesmo um universo. De livros. De versos. De amor. Fruto da junção de “unidade” com “verso”, por ser uma frase de um poema, o nome Uni Verso foi dado por João Raposo, amante dos livros no geral e de poesia em particular, há mais de 30 anos. Amanhã, dia 13, a livraria, que se situa também no número 13 da Rua do Concelho, faz 31 anos. É tempo de comemorar no presente, recordar o passado e imaginar o futuro.

Em 1989 nasceu um sonho “A livraria é o resultado de um sonho que tinha há muitos anos. Sou bibliógrafo e interessado em livros desde sempre e costumava visitar alfarrabistas em Lisboa”, começa por dizer João Carlos Raposo Nunes, responsável pela Livraria Uni Verso, a O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO. Do número 4 da Rua do Concelho, onde abriu portas em Fevereiro de 1989, para o número 13 da mesma rua, para onde se mudou entre Outubro e Novembro do mesmo ano, foi sempre em Setúbal a morada da livraria que reúne “as maiores raridades bibliográficas e as últimas novidades de editoras independentes”.

A difícil arte da independência das livrarias

Sobre a data comemorativa e os anos de vida da livraria, João Raposo partilha que “a data de nascimento da livraria é oficialmente dia 13 de Fevereiro, dia do nascimento de Agostinho da Silva, e curiosamente o número da porta da livraria também é o 13, daí sentir-me um homem de sonhos realizados”. Reconhecendo as dificuldades sentidas no sector, mas fazendo subir o seu amor pelos livros e a sua humildade no viver, faz um balanço positivo da vida longa da livraria: “sobretudo porque ainda mantenho as portas abertas. Manter este tipo de casas, nos dias que correm, é difícil”.

Na porta da livraria, entre os vários recortes e fotografias que evidenciam “a vida ali vivida”, pode ler-se um recorte de jornal sobre “a difícil arte da independência” das livrarias: “O comércio livreiro tem sofrido profundas transformações, as livrarias tradicionais são cada vez menos, mortas pelas grandes superfícies, (…) e agora ainda pela crise, que também afecta o sector e a edição em geral. Mas continua a haver livrarias diferentes, chamadas ‘independentes’, que mantêm uma identidade própria e para quem os livros não são uma mercadoria como outra qualquer”.

Inicialmente dinamizada também enquanto galeria de exposições e centro de estudos, os livros foram ganhando na ocupação do espaço e hoje mantém-se apenas uma parede onde se encontram expostas obras de arte de João Mendão, pintor local e amigo do livreiro.

“A casa de estudos, cujo nome ainda está presente neste painel central de azulejos alusivo aos Descobrimentos portugueses, nasceu com a minha amizade com o Agostinho da Silva e com outros professores que na altura se juntavam aqui. Ensinavam-se neste espaço os ‘estudos gerais’, que iam desde o ensino da arte de sapateiro até à filosofia”, recorda, sem esquecer as “muitas conferências, palestras, lançamentos de livros e sessões de poesia” realizadas no espaço. Houve ainda um período de vida da Uni Verso em que João se dedicou exclusivamente aos livros novos mas com a abertura de grandes superfícies comerciais na cidade e o cada vez mais fácil acesso à Internet o negócio ressentiu-se. Em 2008, com as grandes cheias que afectaram a cidade de Setúbal, perdeu “muitos milhares de euros” e voltou então a dedicar-se à sua “veia” alfarrabista.

Raridades bibliográficas. Verdadeiros tesouros. Obras de editoras nacionais e internacionais. Na Livraria Uni Verso há de tudo um pouco e até um cantinho dedicado às obras sobre Setúbal. “Os livros que trago para a livraria são aqueles de que gosto, aqueles que são raros de se arranjar, aqueles que penso que vão ao encontro do interesse das pessoas nas mais diversas áreas”, refere, confessando as suas preferências sobre livros de poesia, história e filosofia e autores como Teixeira de Pascoaes, Herberto Helder e Fernando Pessoa.

Os livros mais baratos presentes nas estantes da livraria custam 1€. Mas João conta ao nosso jornal que teve em tempos na sua livraria uma obra a valer mil. No total, são mais de 40 mil livros a coexistir neste UniVerso – onde, apesar do espaço reduzido, João Raposo encontra sempre lugar para encaixar mais um ou outro exemplar.

O público da livraria Situada no coração da cidade de Setúbal, a Uni Verso, “gerida com engenho e arte” por João Raposo, é um espaço cultural por onde passaram nomes da literatura portuguesa como António Barahona, Luiz Pacheco, Agostinho da Silva, António Telmo, António Cândido Franco, e outros variadíssimos escritores e actores. No sector da representação, destaque para Eunice Muñoz, com quem o livreiro estabelece “uma amizade muito especial. É como se fosse minha mãe”.

Livreiro por amor, João transparece no contacto com o público a relação que tem com os livros e os valores em que acredita. Tem muitos amigos a passar pela livraria para trocar consigo dois dedos de conversa: os de sempre e aqueles que mesmo com as voltas da vida nunca se afastaram. Ainda que por vezes o contacto se estabeleça apenas através da página de Facebook que faz questão de alimentar regularmente com diversificados conteúdos sobre a livraria, tão perto que até parece possível conhecer o espaço sem nunca lá ter estado.

A livraria tem recebido ainda a visita de turistas, “que ao longo dos últimos anos estão a aparecer cada vez mais. Estão muitas pessoas estrangeiras já a viver em Setúbal que se começam a interessar por ler em português”.

Um espaço que se quer assim, intimista

Ainda assim, nas palavras de João Raposo, ser livreiro é uma tarefa “muito trabalhosa”. “Para adquirir livros usados é preciso ir a Lisboa, é preciso escolher, comprar, carregar… e sou eu que faço tudo”, afirma.

A localização no centro histórico sadino é uma vantagem para a livraria mas o facto de se situar numa rua de pouca passagem acaba por ser, na opinião de João, uma desvantagem. Porém não troca a vertente intimista que este espaço lhe oferece. “Noutro sítio, a livraria podia até ser mais frequentada mas perdia muito a minha liberdade”, desabafa. “Gosto muito de estar sozinho, de ler o meu livrinho, de receber os meus amigos. Este é um espaço mais intimista, e cheio de recordações minhas. Acabo por passar mais tempo aqui do que em casa, onde só vou dormir”, continua.

Regresso ao passado

O alfarrabista mais antigo da cidade de Setúbal foi também o responsável pela página literária “Arca do Verbo” do jornal O Setubalense. Corria o ano de 1988 quando João Raposo deu início à página cultural que, ao longo de mais de 400 números, à quarta-feira fazia parte da edição do jornal da cidade – em tempos que, nas suas palavras, deixam saudades. “Foi considerada a página cultural mais antiga de um jornal regional. Durante esses quase 11 anos nunca falhou um número, nunca houve um intervalo”, lembra.

Planos para o futuro

Quando questionado sobre “planos para o futuro”, João responde, em tom de brincadeira, que dependem “da reforma que lhe vão dar daqui a um ano e meio ou dois”, para logo a seguir informar: “vou manter a livraria aberta enquanto tiver força para carregar livros, vou continuar”. Na Livraria Uni Verso, é possível adquirir um livro por um valor mais baixo ou até descobrir livros que não há no mercado. “É essa a função dos alfarrabistas e o livro que não há no mercado, que não é fácil de encontrar, é o livro que se vende melhor”, declara.

Para além de livreiro, João também é… poeta

Na Livraria Uni Verso existem várias cadeiras e recantos onde quem visita o espaço se pode sentar para apreciar os livros, nos quais, segundo aviso colado nas estantes, “podem mexer à vontade”. João Raposo está neste momento a ler dois livros: “Histórias do fim da rua”, de Mário Zambujal e “Lusofonografias: Ensaios pedagógico-literários”, do autor Luciano Pereira, e é exactamente numa dessas cadeiras que se costuma recostar para viajar entre as páginas dos mesmos.

Mas tanto amor pelas palavras, pelos versos, pelos livros não podia ficar apenas pela leitura. João Raposo também é poeta, ainda que tímido no que a esta sua faceta diz respeito.

“Em 1976, saiu o meu primeiro livro de poesia. E só voltei a publicar há cerca de dois anos, quando editei ‘Brancura’, uma antologia de poesia”, declara, somando a novidade de que “este ano, entre Maio e Junho, será publicada a antologia de toda a obra que publiquei até agora, entre poemas e textos publicados em jornais e revistas” e concluindo que “a livraria está também ligada a essa parte de mim. Uma coisa puxou a outra. Esta é realmente uma profissão para malucos… ou para poetas e sonhadores… Não é para ganhar dinheiro. É preciso ter mesmo muito amor a isto que se faz”.

 

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