“O concelho de Grândola nunca mais volta a ser o que era”

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Autarca comunista defende a ideia de que os dois últimos anos foram dos mais importantes na vida de Grândola. O investimento mudou o paradigma no concelho, que enfrenta agora desafios novos, como a qualificação da mão-de-obra e a construção de habitação que responda ao aumento da população

 

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O concelho de Grândola vive um momento especial de desenvolvimento de tal forma que os antigos problemas de desertificação e desenvolvimento deram lugar a novas, e melhores, preocupações relacionadas com o crescimento, como a necessidade de formação profissional e habitação. A estratégia, para segurar os jovens e atrair trabalhadores de fora passa por um investimento de três milhões de euros na promoção de construção e reabilitação de fogos, sobretudo em parceria com a cooperativa de habitação. Figueira Mendes, o “velho” leão comunista, que recuperou o município para a CDU, mostra-se completamente à vontade com resultados que falam por si tanto na economia como na política.

 

Como classifica estes primeiros dois anos deste mandato?

Foram provavelmente os anos mais importantes da vida do nosso concelho. Vivemos um momento muito especial em termos de desenvolvimento em todas as áreas, nomeadamente na economia, em que alterámos o paradigma. A menos que aconteça, uma catástrofe o concelho de Grândola nunca mais voltará a ser o que era passados estes dois anos. Temos grandes expectativas quanto ao futuro, próximo e a longo prazo, porque as perspectivas de investimento no concelho são muito grandes.

No novo paradigma que concelho passa Grândola a ser?  

Passámos a ter um concelho com um desemprego mínimo, quase residual, e isso leva-nos a outra questão, que é como vamos resolver o problema da mão-de-obra no futuro. Há um conjunto de empresas que se instalaram, nomeadamente indústria, de projetos que estavam parados há dezenas de anos e que agora foram todos relançados. Tínhamos uma zona industrial há cerca de 20 anos com apenas quatro ou cinco pequenas empresas e alguns armazéns e que agora passaram a ter fábricas. Uma fábrica [Lauak] dentro de pouco tempo terá cerca de 300 empregos, a maior parte qualificados. Passámos a ter um concelho que é também industrial.

A que se deve o crescimento do investimento em Grândola? É conjugação de factores, conjuntura económica, ser elegível para os fundos comunitários, mérito da autarquia?

É o conjunto dessas coisas todas. Mas, por exemplo, esta questão da zona industrial teve que ver, não tenho dúvidas, com as medidas que própria Câmara pôs em prática, promover a zona industrial, ir à procura de captar investimento, nomeadamente na aeronáutica que era uma área que que não estava prevista. Captámos uma empresa [Lauak] que procurava fazer o investimento noutros concelhos, e por via dessa empresa, outras a agora estão a instalar-se, nomeadamente uma empresa fornecedora de matéria-prima para desenvolver a indústria aeronáutica, que vai servir esta mas também o país e até o estrangeiro. Foi também a nova variante ao IC1, que não existia e é outro incentivo para que as empresas possam investir.

 

 

“Precisamos de mão-de-obra e de alojamento para as pessoas que venham para cá trabalhar”

 

 

 

O concelho tem condições, por exemplo, ao nível dos recursos humanos, da qualificação da população para a mão-de-obra que as empresas precisam, ou ao nível das acessibilidades, para responder a este crescimento acelerado?

Esse é o grande desafio que se coloca agora. Nós promovemos, vendemos a nossa imagem e os recursos potenciais do conselho mas agora falta-nos essas coisas. Não só não temos mão-de-obra como não temos alojamentos para as pessoas que venham para cá trabalhar, e isso é fundamental. Neste momento, em termos de qualificação e formação, acabámos de fazer um protocolo com o Instituto Politécnico de Setúbal para fazer aqui dois cursos superiores técnicos na área do Turismo e da Aeronáutica e nesta última não conseguimos arranjar este ano o número de alunos suficiente. O do Turismo arrancou há 15 dias, pelo que já temos um curso de formação técnica para responder a isso. Mas tivemos continuar a investir. Fizemos um protocolo, que é repartido com outras empresas, mas a Câmara assumiu a responsabilidade de arrendar as instalações para funcionar o curso, adquirir os equipamentos informático e outros, o subsídio de alojamento para estudantes e o transporte. Essa é a nossa linha da acção para poder cativar pessoas que venham do país ou mesmo do estrangeiro, para aqui estudarem, porque têm garantia de emprego daqui a dois ou três anos.

 

Mesmo com esse apoio da autarquia não foi possível arrancar com o curso de aeronáutica?

Não houve inscritos suficientes. Essa é a questão que se coloca à nossa região e ao próprio país. Em Portugal não vamos ter mão-de-obra suficiente, na construção, mas também um bocado nos hotéis e nas fábricas. Por isso, neste momento estamos a desenvolver outra linha de rumo que é a habitação. Estamos a criar condições para na oferta de habitação, as pessoas possam ter aqui resposta. Estamos a preparar, até ao fim deste mês, uma estratégia de habitação para ir ao encontro de soluções. Em regeneração urbana temos uma ARU e estamos a dar incentivos para que as pessoas recuperem as habitações desocupadas no centro histórico na vila, e possam coloca-las de arrendamento ou vendê-las.

Por outro lado, admitimos que a própria Câmara possa vir a ter alguma habitação social. Estamos numa parceria com a Cooperativa de Habitação de Grândola em que cedemos terreno para construir habitação a custos controlados e algumas das empresas que tem aqui grandes investimentos estão a comprar terreno para construir habitações para os seus trabalhadores.

Nessa estratégia quais são as metas em quantidade, tipos de habitação e prazos?

A questão é essa, porque nós também temos a vertente social. Do levantamento que já fizemos, temos um défice de mais de 160 habitações sociais e para pessoas com algumas dificuldades em arrendar. Nessa estratégia, não vamos só construir habitação social mas admitimos comprar algumas dessas casas velhas para ir depois buscar empréstimos e ter algumas bonificações para poder colocá-las no mercado de arrendamento e continuar a ceder terreno para que a cooperativa de habitação possa ir desenvolvendo essas habitações. No Carvalhal estamos a estudar também um loteamento para colocar com exclusividade para as pessoas que ali vivem, sobretudo os mais jovens, porque a precisamos de fixar os nossos jovens. Estamos a projetar um investimento de mais de 3 milhões de euros ligados esta questão da habitação, nas várias nas várias vertentes, para poder responder e cativar as pessoas que possam vir viver para o nosso concelho.

 

 

“Estamos a desenvolver a terceira fase da zona industrial porque temos uma lista de empresas à espera”

 

 

 

Tem dito que em candidaturas a fundos comunitários, Grândola tem obras no valor de 19 milhões de euros. Quais destaca?

Já não são 19 mas cerca de 22 milhões, porque continuamos a fazer candidaturas. Nós somos dos concelhos do Alentejo com melhor execução de fundos comunitários. Temos obras na área das acessibilidades e infraestruturas e outras noutra vertente a que também é preciso responder, que é na cultura e no desporto. Para atrair pessoas não podemos ter apenas habitação. Estamos a reconstruir a biblioteca, num investimento muito grande, acabámos a recuperação da igreja, onde vamos inaugurar dentro de dois ou três meses, o museu ligado à arqueologia, acabámos de adjudicar o edifício antigo onde funciona o Museu Etnográfico, que vai ser repartido porque queremos criar núcleos especializados, construímos a casa do produtos endógenos, com a recuperação de uma antiga adega, e que serve como promoção e apoio aos produtores de vinhos, mel e de outros produtos e actividades. Acabámos de relvar quase todos os campos de futebol no concelho, só falta um. Estamos a remodelar o jardim, que era o ex-libris e estava completamente degradado, Inaugurámos a escola EB1, um investimento de dois milhões que é um exemplo de boas práticas na resposta moderna às necessidades das crianças. Está a concurso a remodelação da Avenida Jorge Nunes que é o eixo principal da vila, incluindo esgotos, e só ai o investimento é de 4,1 milhões. Vamos iniciar neste momento a qualificação da Estrada das Sobreiras Altas, numa obra de 2 milhões, que é fundamental para o desenvolvimento turístico da faixa costeira. Estamos a construir o reforço de abastecimento de água a Melides e Valinho da Estrada, mais 1,5 milhões.

Com essa lista de obras como está a execução do programa eleitoral?

Estamos a cumprir e a ir para além daquilo que era o programa. Porque, se temos acesso ao fundos comunitários, e uma situação financeira estável que nos permite fazer as candidaturas, não podemos perder a oportunidade. Outra obra de grande monta é a expansão da zona industrial, eu são mais 3 milhões de euros e estamos na terceira porque já esgotámos as duas primeiras

E que execução orçamental que vai ter este ano?

Vamos ter acima dos 85%.

O orçamento este ano era de 26,4 milhões de euros, para o ano são 30,5 milhões. Como consegue mais 4 milhões de euros de receita?

Tem que ver com o saldo que transita e com todo este desenvolvimento, o IMT, as taxas. No ano passado duplicámos o número de processos em termos urbanísticos. E a máquina para responder a tudo isto é a mesma e essa é a grande dificuldade. Por vezes não conseguimos dar resposta em tempo útil às solicitações dos investidores que, quando metem um projecto, querem-no logo aprovado. A falta de pessoal nas áreas mais técnicas é um constrangimento.

 

Diz que Orçamento para 2020 é continuar a estratégia que iniciou em 2013, criar emprego e desenvolver a economia. Que medidas concretas tem o orçamento para fazer isso?

A estratégia está definida e não vamos abrir muitas frentes novas. Estamos a desenvolver a terceira fase da zona industrial exatamente porque já temos uma listagem de empresas a aguardar para investir. Temos que começar a selecionar os investimentos que queremos para o conselho, menos poluentes, com maior empregabilidade e melhor qualidade.

 

“O turismo em Grândola deixou de ser só Troia”

 

 

 

No turismo, área em que tem havido alguns dos grandes investimentos, e em que o concelho de Grândola sozinho tem cerca de 40% das dormidas no Litoral Alentejano, continua a ser só Troia ou já é relevante o que existe para além disso?

Já deixou de ser só Troia e congratulamo-nos por isso, porque é a nossa visão. O desenvolvimento tem que ser integrado e nós queremos que também o interior do concelho se desenvolva, de forma equilibrada e que beneficie de algum modo do desenvolvimento da faixa costeira. É claro que os maiores projectos estão desde Melides até Troia, mas temos investimentos em turismo rural, hotéis de grande qualidade com quatro e cinco estrelas, e com menos problemas de sazonalidade porque têm ocupação quase ao longo de todo o ano. Isso do ponto de vista económico e do emprego também é interessante.

O concelho de Grândola faz fronteira com o rio Sado em Troia, grande activo turístico. As dragagens estão a começar e o presidente não tem falado nisso. Não está preocupado?

Vamos procurar saber o que se passa. Se, em termos ambientais, aquilo pode ou não ter implicações com esta margem do rio Sado. Temos lutado tanto pela preservação do ambiente e da paisagem pelo que não queremos que possa afetar este lado.

Neste mandado a CDU tem maioria absoluta, que não tinha no anterior. Essa diferença tem sido relevante?

Não. Nós não sentimos isso. Temos uma boa relação mesmo com a oposição e discutidos tudo, fazemos questão das coisas que são mais complexas, falar com as pessoas. Temos mais de 90% das aprovações por unanimidade. Na reunião de hoje, em 20 pontos [da ordem de trabalhos] e só em dois pontos é que houve abstenções. Todos somos poucos para ver as coisas e não há ninguém que seja dono da verdade. Apesar de estarmos em maioria neste mandato, não temos feito questão que a maioria seja para esmagar que está na oposição. Tem sido um trabalho interessante até desse ponto de vista das relações humanas. Damo-nos todos muito bem independentemente das opções ideológicas de cada um. Por exemplo, tanto na Assembleia como na Câmara Municipal, o PS que é o maior partido da oposição, absteve-se neste orçamento e isso mostra que as coisas também não lhes são assim tão adversas. Também não estávamos à espera que votassem a favor. A abstenção dá um sinal de que o trabalho que estamos a fazer corresponde no fundo às necessidades do concelho.

 

Recandidatura? “O futuro a Deus pertence”

 

 

 

E nas freguesias que não são CDU, Melides e Azinheira dos Barros, reconhece que também está a ser feito o melhor para a população?

Sim, sim. Porque é gente que se esforça. É mais aí, sobretudo em Azinheira dos Barros, que às vezes as questões políticas se levantam, mas continuamos a investir. Estamos a investir milhões de euros na Freguesia de Melides e o mesmo estamos a fazer em Azinheira dos Barros ou no Lousal.

Fala em continuar a estratégia que iniciou em 2013. O protagonista dessa estratégia, o presidente, que tem alguma idade, sente ainda força para levar até fim os três mandados que a lei lhe permite?

Veremos. Estou mais preocupado com os dois mandatos. O resto…

Já só faltam dois anos para o final deste.

Pois. Está bem. Havemos de lá chegar. A estratégia não é apenas minha, é de uma equipa, que tem conduzido isto, mesmo até com a participação da oposição. É um projecto colectivo porque muitas destas discussões fazemo-las com a população. Naturalmente que nos somos os executores, mas isto é o resultado também de uma visão que todos temos, no conselho, para o nosso futuro. Eu não sou católico senão diria o futuro a Deus pertence.

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