Férias

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

 

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É tempo de férias, de tréguas nos multíplices enfados que um ano nos reserva.

É tempo de espairecer e descansar, de recobrar forças e vontades. Mas este é também um tempo em que nos metemos noutros trabalhos e canseiras, que levamos de boa cara e melhor disposição, porque se interromperam rotinas e sensaborias, porque há novidade e ela apraz-nos, porque se corre por gosto, afinal.

Um ano a pensar nelas. A desejá-las. A sonhar com elas. A falar delas. A idealizá-las. A planear as que são possíveis, ao pormenor, pois urge avaliar despesas e observar rendimentos e poupanças.

Já não há quem não fale de férias – do pequenote da pré-escola, ao avô de idade proveta. É um hábito e quase uma obrigação que se nos impuseram. E, não viajar às Mecas do turismo, não ir «para fora», ainda que seja «cá dentro», no período reservado às férias, não cai bem. E dá conversa. Não me digas que não conheces a Madeira! E Paris, já lá foste? Não vais ao Algarve? A Turquia, meu amigo! Tens de ir ao Brasil. Eh, pá, fiz um cruzeiro ao Mediterrâneo… E não ficam por aqui, dão a volta às maravilhas do mundo, este colosso feito aldeia que as facilidades nos transportes tornam cada vez mais pequenina e acessível.

Poupa-se mês a mês para o grande momento. Ou então leva-se o ano a pagar o financiamento a que se recorreu, prestação a prestação. Saldada a dívida, contrai-se outra, para as férias a seguir. E a felicidade acontece e é possível, nem que seja pela ditadura da mensalidade.

O hedonismo impera na nossa época, e o gozo das férias é uma das suas manifestações. As crenças nas divindades e nas vidas dos paraísos dos aléns dominaram a humanidade durante milénios. Mas perderam e vão perdendo força na consideração dos homens – e até dos recantos do mundo onde as religiões ainda manietam e escravizam a vida dos povos, nos chegam sinais de que estão a desvanecer-se. A procura da eternidade não é a grande preocupação do homem atual. O homem que a educação ajudou a entender que as religiões são mais uma invenção humana, o homem informado que assiste à vertigem das revelações científicas e das criações tecnológicas, está bem mais interessado na fruição da sua vida terrena.

Nunca o lema dos epicuristas, carpamus dulcia (gozemos a vida), fez tanto sentido e foi tão religiosamente seguido, como hoje. O viver o momento, o aproveitar cada dia, domina a vida das sociedades desenvolvidas, digam-se elas laicas ou o que se disserem. E as férias são uma altura privilegiada para se dar largas ao gozo da vida, desta vida que é a única que podemos ter a certeza de existir, e que há que aproveitar enquanto dura. Mesmo que os descansos e os espairecimentos a elas associados obriguem a viagens esgotantes e a descabeladas trabalheiras. Carpamus dulcia!

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