O Serviço Nacional de Saúde

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Mário Moura –
Médico

É já um lugar comum dizer-se que o nosso SNS foi a maior conquista do 25 de Abril de 74 , e dizem-no hoje políticos da direita à esquerda do leque de tendências políticas – dizem-no os políticos e a generalidade dos cidadãos. É evidente que pôr de pé um serviço de saúde como deve ser é uma tarefa ciclópica quanto a organização e ao seu custo para o erário público, já que o SNS pressupõe a gratuitidade para os seus utentes.

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Os progressos da medicina, no que diz respeito a processos terapêuticos , às necessidades de pessoal bem formado e a processos tecnológicos de diagnóstico, bem como quanto às instalações para as consultas e para os internamentos, têm-se acelerado duma maneira impressionante nas últimas décadas, e não podem ser recusados a quem necessita dos seus cuidados. Isto significa que a gestão… e as despesas são cada vez maiores e mais exigentes. Não devemos esquecer que o SNS tem um primeiro contacto com os cidadãos doentes nas consultas dos centros de saúde, e é bom que se saiba que 80% das queixas das pessoas podem ser diagnosticadas e tratadas nessa primeira linha a que se chama “cuidados de saúde primários”, que constituem verdadeiramente a parte do SNS que tem de cobrir o país com uma rede acessível, competente e de resposta rápida. No entanto os jornais e os meios de informação audiovisual usam grande parte do seu tempo a falar dos chamados “cuidados de saúde secundários” que são os hospitais, a falar das suas carências, dos seus defeitos e pretensos “erros de diagnóstico” ou “desleixo médico”, dos seus atrasos nas intervenções cirúrgicas, nas suas consultas externas e, em especial, dos seus serviços de urgência. Os nossos técnicos – médicos, enfermeiros e outro pessoal – são altamente cotados (invejados até noutros países) pela sua formação e qualidade técnica em actuação nos vários níveis do SNS – então porque vemos e ouvimos tantas críticas e tantas queixas?

 

Se, na gestão de tantas unidades de saúde (sejam hospitais, centros de saúde ou unidades especializadas para tratamentos continuados), se sentem tantas dificuldades, carências e demoras, não devemos apontar o dedo aos dirigentes do Ministério da Saúde e das suas unidades dos vários cuidados, mas sim pensar que quem tem o poder financeiro nas mãos é que é o verdadeiro “dirigente” do SNS. Pois sem dinheiro para reparar em tempo complexos aparelhos de diagnóstico ou para admitir os técnicos que vão sendo necessários face ao aumento das exigências dos serviços ou ainda para manter os seus técnicos motivados com as remunerações condignas, com horários que garantam a saúde daqueles que têem de tratar os utentes doentes sem adoecerem por sua vez, torna-se difícil que o SNS seja à prova de críticas.

 

Em nosso ponto de vista os cuidados de saúde primários, aliás menos criticados que os hospitais, deveriam ter uma muito maior atenção sobre eles pois como dissemos serão o garante do tratamento dos tais 80% de queixas e teriam, se forem bem geridos e tendo em conta os item’s que acima apontámos, diminuiriam o tremendo afluxo de doentes às urgências dos hospitais, conseguir-se-ia fazer uma esplêndida acção de medicina preventiva e de educação para a saúde. Pensamos que as “unidades de saúde familiar” podiam muito bem e com óptimos resultados na eficiência, se fossem apetrechados com alguma tecnologia de diagnóstico evitando muita referência para outras especialidades sediadas nos hospitais, além de deverem ter equipas multidisciplinares com psicólogos, terapeutas de vários déficites que os doentes podem apresentar evitando assim o seu envio para serviços privados. Tudo isto redundava em mais eficiência e mais economia. Eu sei que até para o publico em geral se valoriza muito mais a medicina tecnológica do que a consulta de primeiro contacto em que a arma fundamental é a relação médico/paciente que se baseia numa relação de afecto, pois não esqueçamos que o corpo fala antes da pessoa para manifestar a grande maioria dos adoeceres quotidianos nesta sociedade exigente e agreste (que até mata como diz o actual Papa Francisco!)

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