O céu… e o inferno

16
visualizações
Mário Moura –
Médico

 

- Pub -

Para muitos que me lêem haverá um certo espanto com o título que dou a esta crónica. Mas vou tentar justificar este título que me ocorreu por a Igreja comemorar a “subida de Cristo aos Céus”.

Pela boca dos últimos Papas ouvimos dizer que o Céu não é um lugar para onde vão os eleitos por uma vida plena de, e em, amor, sendo necessário que quem se diz cristão comece a sentir e a pensar tendo em vista os conceitos modernos da ciência e da teologia, deixando  a obediência cega a tradições e costumes cristalizados ao longo de séculos e até desenvolvidos e transformados em dogmas obrigatórios.

O Céu somos nós que o construímos no nosso dia a dia, vivendo unidos e preocupados com os outros que nos rodeiam e que ajudaram a construirmo-nos como humanos, pois é a cultura em que mergulhamos desde a nossa concepção, e após o nascimento, que nos molda, juntamente com o património genético dos pais.

Jesus disse que estaria connosco até ao fim dos tempos – e estará connosco desde que vivamos o Amor que é o próprio Deus . Pois Cristo que viveu esse  Amor até à dádiva da sua vida pelos homens, não foi para nenhum lugar, nem subiu como astronauta para os confins estelares, Jesus apenas terminou a sua vida terrena e passou a ser para quem viva uma relação de afecto constante , especialmente com os pobres e marginalizados da sociedade, uma presença real no nosso dia a dia, fazendo que vivamos no Céu !

Ora este problema do Céu entre nós é cada vez mais importante neste mundo em que vivemos vários tipos de revoluções – a económica , a cibernética e a ecológica. A económica com a globalização e com a competição entre o capital e o trabalho, a cibernética com o extraordinário avanço da tecnologia que nos poe perante a inteligência artificial e a nanotecnologia e a ecológica que pretende opor-se , talvez, ao esgotamento do nosso planeta. – todas estas revoluções estão desumanizando a nossa vida, estão aprofundando o fosso entre pobres e ricos, estão criando um verdadeiro “inferno” onde muitos de nós estamos “ardendo” em infelicidade, em depressões ou em doenças variadas.

Daí que seja urgente que os homens se compenetrem dos perigos em que se estão envolvendo, se consciencializem da possibilidade deste mundo estar realmente em perigo, sintam que é necessário fugir do “inferno” e passar para o “céu”, vivendo,  na família e na sociedade,  a solidariedade e o afecto, colaborando abertamente numa outra revolução, a da ternura, como nos pede repetidamente o actual Papa Francisco. E esta revolução pacífica é uma necessidade para crentes de qualquer orientação religiosa e para ateus e agnósticos, pois os perigos e riscos que estamos correndo, se continuarmos no mesmo sentido em que caminhamos, se fará sentir para todos os que vivemos nesta Mãe Terra, não havendo, como também já aqui posemos em destaque, nenhum “plano B” – Marte ou a lua são sonhos sem qualquer sentido do real.

É evidente que a maior responsabilidade compete aos que se dizem cristãos, dando o exemplo duma vida honesta, empenhada, preocupada com esta sociedade “que mata”, como diz o nosso Papa Francisco, e deixando à sua volta “esse bom odor de Cristo” como diz S. Paulo.

Comentários

- Pub -