Nepotismos

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

 

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Há um traço comum à generalidade dos governos: a princípio, muita expectativa, aplaude-se o cumprimento de promessas eleitorais, apoiam-se umas medidas, torcem-se os narizes a outras, o país acredita ou condescende durante uns tempos. Por meados da legislatura, o benefício da dúvida começa a esgotar-se, porque a confiança e a paciência têm prazos. É quando se vão revelando as trapalhadas e a governação entra a descambar.

António Costa bem poderá gabar-se de alguns sucessos. Que me lembre: devolução de rendimentos aos cidadãos (sobretaxa do IRS e aumento dos escalões do mesmo, descidas de IVA); aumentos de pensões e do salário mínimo; equilíbrio orçamental; reposição da confiança às pessoas e aos agentes económicos; crescimento económico e criação de emprego; restituição dos feriados abolidos; liquidação da dívida ao FMI; melhoria significativa da imagem internacional do país; o novo passe social.

A oposição engoliu em seco, escabujou e apressou-se a contestar cada sucesso, menosprezando as medidas, surriando dos resultados positivos, óbvios para quem os quer ver.

Mas o governo de Costa, como todos, foi dando os seus tiros nos pés e enredando-se em trapalhadas das que desgastam e provocam baixas nos executivos, desgostam apoiantes e sectários, e deixam potenciais eleitores a cogitar na debandada.

Um dos imbróglios que mais deram brado é a quantidade de familiares de elementos do governo, nos ministérios, nas secretarias e alhures. Dúzias de agraciados com tachos públicos – uns enormes especialistas, todos eles, atenção! A ser verdade o badalado, o governo republicano, socialista e laico dará parecenças a uma irmandade de nepotes. Não obstante, e com um poucochinho de muito boa vontade, salva-se que este nepotismo é mais democrático do que aqueloutro do reinado das cavaquices: já não são, apenas, as eméritas esposas dos ministros que se sentam à mesa da festança orçamental; hoje, até os primos lá estão.

Bem vistos os considerandos, e raivinhas partidárias à parte, o nepotismo não é crime de lesa-pátria. Nem será pecado de condenação ao inferno – se fosse, olha o que não estariam os Papas finados a penar nos caldeirões do mafarrico. Mas haverá limites para a indecência. Ou não há?

A orfandade política do pai Aníbal e o próprio, deslembrados das suas maldades, e num estardalhaço de demagogia, atiraram pedras que caíram nos seus telhados – a telha que partiram, valha-lhes o santinho protetor dos lares dos portugueses de bem!

Os parceiros do PS ficaram embuchados, sem saber o que dizer, pudera não!

A ética republicana, venerável e austera senhora, sentindo-se traída, vexada, entristecida, anda por aí a lastimar-se: «E eu, senhores, onde fico no meio desta desvergonha?». Alguém, de entre os socialistas, a ouvirá sem se arrepelar?

O povão, que não dorme na forma nem é o lorpa que os barões e as baronesas do regime imaginam, enoja-se e desanca. E comem todos, os que têm assento no poder e aqueles que já lá estiveram instalados.

 

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