O atentado a Salazar

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Francisco Cantanhede – Professor

 

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Foi numa manhã de domingo, dia 4 de julho de 1937, que uma pacata rua de Lisboa estremeceu com o som da violenta explosão provocada por uma bomba que visava atingir o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar.

Todos os domingos, Salazar dirigia-se ao nº 96 da Avenida Barbosa do Bocage, em Lisboa, para assistir à missa numa capela particular, pertença do seu amigo Josué Trocado. Cerca das dez horas e trinta minutos, o carro que transportava Salazar e o seu chefe de gabinete parou junto à porta da casa de Josué Trocado. Quando Salazar, ao sair da viatura, pôs o pé no chão, a bomba rebentou. A explosão fez ir pelos ares parte da terra da placa central da avenida provocando enorme buraco; os vidros das janelas dos prédios vizinhos estilhaçaram-se. Rebentaram todas as sarjetas das redondezas, atingindo mesmo as da avenida Monteiro Torres, localizada a distância considerável.  O vespertino «Diário de Lisboa» descreveu no próprio dia o processo usado pelos autores do atentado: «Sabendo que o chefe do Governo vai todos os domingos à missa na referida capela, um dos quatro indivíduos do automóvel misterioso que ali estacionou de madrugada, levantou a placa das águas, colocou ali uma bomba de contacto elétrico e, seguindo por debaixo do chão, até à avenida 5 de outubro, estendeu o fio ligado à bomba, pelo coletor fora, ficando com a ponta na mão. Logo que viu o Dr. Oliveira Salazar sair do automóvel, estabeleceu o indispensável contacto que provocou a explosão, fugindo logo a seguir, perante a natural confusão estabelecida». Após o rebentamento, o motorista tentou empurrar Salazar para dentro do carro, mas este decidiu permanecer no local e ir assistir à missa celebrada pelo padre Abel Varzim. Terminado o ato litúrgico, as senhoras da casa insistiram com Salazar para que descansasse um pouco, tendo o homem de Santa Comba Dão respondido a sorrir: «Como fiquei vivo, terei de continuar a trabalhar.» O dever acima de tudo, pois a sua missão divina exigiria mais algumas décadas de trabalho árduo, tudo «a bem da nação!» Ao despedir-se do dono da capela, acrescentou: «Eu tenho sempre muita sorte nestas coisas.» A sorte dos homens providenciais, ou seja, de todos os ditadores. Não afirmou Salazar «parece haver coisas que só eu posso fazer»? Ou será que o ditador português se terá lembrado das palavras da vidente que consultava, a qual, debaixo dos lençóis onde ambos se amavam, o terá alertado para a tentativa de assassinato de que foi vítima, garantindo-lhe, obviamente, a sobrevivência?

O «Diário de Notícias» do dia seguinte destaca o «crime que visava a nação», aparecendo essa mesma nação numa fotografia a manifestar-se em apoio do seu sagrado chefe, Dr. Oliveira Salazar. Contudo, a outra parte da nação estaria a ser torturada no Aljube, a trabalhar 12, 14, 16 horas nos campos e nas fábricas para não morrer de fome. Por sua vez, o «Diário da Manhã» abre a primeira página com palavras de Salazar dirigidas aos milhares de apoiantes: «Não há dúvida de que somos indestrutíveis. A Providência assim o destina e vós, na terra, assim o quereis.» A nação-os populares-; a Providência- Deus-; unidos no apoio, na defesa, do homem, obviamente, imortal, que se salvou graças à «providência» e não à deficiente colocação do engenho; imortal, até ao momento em que a propaganda do regime, que nunca se assumiu como tal, ter aceitado a evidência de que os deuses também caem, até de uma simples cadeira.

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