Compra de edifício da antiga Trabatijo gera trapalhada

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Presidente da Câmara reage mal a críticas de vereador do PSD e dá dito por não dito. Nuno Canta entrou numa espiral de contradições na última reunião do executivo, alterando a versão que havia apresentado na sessão de há duas semanas sobre o processo de aquisição do imóvel

 

Vereadores da oposição: João Afonso (PSD) e Carlos Jorge de Almeida e Ana Baliza (CDU)
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O presidente da Câmara Municipal do Montijo, Nuno Canta, deu o dito por não dito ao ripostar às críticas do vereador social-democrata João Afonso sobre o processo de aquisição do edifício da antiga Trabatijo. A polémica instalou-se na reunião do executivo camarário, realizada na última quarta-feira, 15, depois de o autarca do PSD ter revelado, na edição de sexta-feira passada, 10, de O SETUBALENSE-DIÁRIO DA REGIÃO, que o imóvel pelo qual a Câmara vai pagar 194 mil e 668 euros fora adquirido cerca de um ano e meio antes por apenas 100 mil euros.

João Afonso acusara então a maioria socialista de “má gestão do dinheiro público, negligência e incompetência”, por esta não ter acompanhado o processo, considerando que a autarquia podia ter comprado o imóvel por cerca de metade do preço, ao mesmo tempo que desafiou Nuno Canta a abrir “processos disciplinares” aos serviços camarários, um dos quais à Divisão Financeira chefiada por Cristina Canta.

Anteontem, a abrir o período antes da ordem do dia, o presidente da Câmara foi cáustico mas contraditório.

“Tudo o que vereador João Afonso disse é mentira. Estamos perante um caso lamentável da política local”, atirou o socialista, entrando numa espiral de contradições ao afirmar que o edifício é propriedade da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo (CCAM) e que “nunca esteve na massa falida da Pluricoop”, cooperativa que, explicou, adquirira o imóvel “por usucapião” em 1996.

Duas semanas antes, ao apresentar em reunião de câmara a proposta para a aquisição do prédio – que foi aprovada com os votos de PS e CDU e o voto contra do vereador eleito pela coligação PSD/CDS-PP –, Nuno Canta havia afirmado exactamente o contrário, apresentando uma versão secundada ainda pela informação municipal publicada no site da autarquia nesse mesmo dia (2 de Maio) onde se pode ler que o imóvel “… fez parte da massa insolvente da Pluricoop e que, depois, foi adquirido por particulares”.

Na última quarta-feira, o presidente da autarquia defendeu, porém, o oposto e acrescentou que o edifício “foi vendido pela Pluricoop à CCAM em 2014”, antes da falência da cooperativa.

“Desde 2014 que a CCAM, a quem nós vamos comprar, é a proprietária”, disse, mas sem nunca desmentir que o prédio tivesse sido negociado um ano e meio antes por cerca de metade do valor que a autarquia agora vai pagar, desafiando João Afonso a apresentar documentos que sustentassem o contrário.

CCAM negociou com firma do Pinhal Novo

O autarca social-democrata confrontou então o socialista com o contrato de locação financeira imobiliária (contrato para aquisição) no valor de 100 mil euros, assinado entre a CCAM (locador) e a Sociedade Comercial por Quotas denominada António Caçoete & Filho, Lda. (locatária), firma do Pinhal Novo, localidade onde o documento foi rubricado a 28 de Setembro de 2017.

De resto, a própria proposta apresentada e aprovada em reunião de câmara de 2 de Maio já mencionava a António Caçoete & Filho, Lda. como locatária do imóvel.

Contrato da CCAM com a António Caçoete & Filho
Contrato foi rubricado em 28 de Setembro de 2017
Certidão do Registo Predial

Nuno Canta insistiu, porém, que a Câmara irá “assinar as escrituras” com a CCAM, com João Afonso a reforçar a acusação de que a autarquia “andou a dormir na forma desde 2014 até Setembro de 2017” e que “deixou um privado comprar o edifício por tuta-e-meia”, considerando que a edilidade poderia ter “negociado com a CCAM a aquisição por 100 mil euros”, caso tivesse sido mais lesta.

Em declarações a O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO, o vereador eleito pela CDU, Carlos Jorge de Almeida, também não deixou passar em claro a inversão de discurso do socialista, citando as declarações do presidente da Câmara na reunião de 2 de Maio.

“Nuno Canta disse: ‘Soubemos que o edifício (…) fora vendido pela massa insolvente a um privado, a quem contactámos e comprámos o imóvel’. Quinze dias depois, hoje mesmo [quarta-feira passada], Nuno Canta resolve vir a terreno e baralhar, ao seu jeito, na reunião de câmara”, comentou o comunista, ironizando de seguida: “O prédio não foi comprado a nenhum particular, mas sim à Caixa de Crédito Agrícola, o contrato que o vereador do PSD tinha nas mãos, com o nome do particular, não existia, o prédio não tinha pertencido à massa falida.”

A concluir, Carlos Jorge de Almeida atirou: “Na próxima quinzena será outra estória, a que parecer mais a jeito, baralhar e dar de novo. Ocorre-nos uma frase de leitura recente: ‘a verdade é uma questão de perspectiva’”.

 

SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO criticado por dar voz a vereador

 

Nuno Canta apontou também baterias aos jornais e aos jornalistas. Cerca de três semanas após as comemorações do 45.º aniversário do 25 de Abril, o presidente da Câmara Municipal do Montijo não gostou de ver espelhadas na Comunicação Social as críticas do vereador João Afonso sobre o processo de aquisição do imóvel. O socialista referia-se a O SETUBALENSE – DIÁRIO DA REGIÃO, ao mesmo tempo que reduzia um eleito à expressão “qualquer um”. “Não havia razão para os jornais e os jornalistas trazerem questões de determinada dimensão sem documentos fundamentados. Publicam coisas sem ter documentos que comprovem o que estão a dizer. Isto não pode qualquer um dizer uma coisa e aparecer publicado no outro dia. Parece pouco credível”, rematou.

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