O Convento de S. Francisco (Parte III): Considerações Finais.

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Giovanni Licciardello – Professor

Concluem-se hoje três crónicas sobre o Convento de S Francisco. Tínhamos ficado na altura em que a Casa Pia se desinteressou pelo imóvel, em 2004.

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Tal como salientei na primeira crónica, tenho pelo Convento uma especial predilecção, por ter sido o local onde nasceu minha Mãe. Nessa altura, o referido imóvel pertencia ao Ministério da Defesa e sendo o meu avô Carlos, militar, residia no convento com a minha avó Júlia e filhos.

 

Uma das associações que se tem interessado pelo Convento de S. Francisco, tem sido a Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA), reivindicando há muito uma utilização condigna, face ao seu interesse histórico para a cidade de Setúbal.

Em 2006, a LASA promoveu um debate público e posteriormente fez pressão para que o Convento de S. Francisco fosse classificado de interesse municipal, o que viria a acontecer em 2007, graças a uma deliberação da Assembleia Municipal de Setúbal. Nesse debate, concluiu-se que era fundamental preservar o edifício e o espaço envolvente, uma vez que a sua história se associa ao próprio crescimento de Setúbal.

Por outro lado, a descoberta recente de vestígios arqueológicos junto do convento, veio acrescentar argumentos aos que recusam a possibilidade de demolição do edifício. Foi descoberta uma nova estrutura, em S. Francisco, que se presume ser um edifício primitivo conventual do século XVI.

O restauro do Convento de São Francisco fazia parte do projecto global para o colégio e foi por diversas vezes reclamado pela LASA. Com o abandono da valência de equipamento para crianças, ficou também pelo caminho o projecto de recuperação do convento que, apesar de inventariado pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), não tem qualquer classificação.

A Direcção Geral do Património apresentou uma proposta para a ocupação do terreno, o que implicava o desaparecimento do convento. Em sua substituição propunha a construção de vários blocos de habitação e comércio, diversos equipamentos multiusos e estacionamentos. Uma solução que não agradou à LASA, que de imediato promoveu um debate público sobre a importância histórica do monumento e o seu valor simbólico para a cidade.

Depois de todos estes imbróglios, importa tecer algumas considerações:

  1. a) A crise internacional, tem, infelizmente, muito de nacional. No Largo José Afonso, com a construção do “mastodôntico” auditório, gastaram-se 4,5 milhões de euros, na sequência das infelizes intervenções do Polis. Para a edificação daqueles edifícios adjacentes ao Convento, gastaram-se 7,5 milhões de euros.

Total: 12 milhões de Euros. Edificações perfeitamente inúteis.

Estes são apenas dois exemplos locais que procuram demonstrar o quanto se esbanja dinheiro em Portugal.

  1. b) No caso concreto do Convento de S. Francisco, concluímos que houve, para além de dinheiros públicos mal gastos e aplicados, mais um atentado à Serra da Arrábida, em virtude do enquadramento paisagístico do projecto ser completamente absurdo, em minha opinião.

A pergunta nuclear que se deve fazer nesta altura é a seguinte: Qual poderá ser a solução que tire em definitivo o Convento de S. Francisco do actual, lamentável, inadmissível e vergonhoso estado de degradação a que tem sido votado, ao longo de sucessivas décadas?

 

Esperemos que seja, de facto, vendido e que se consiga recuperá-lo definitivamente, obedecendo naturalmente a determinados pré-requisitos.

Óscar Paxeco há já muitos anos atrás, fez uma síntese magnífica, mas infelizmente actual, sobre o Convento: “S. Francisco, o convento que andou de mão em mão”.

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