Professor do Vale da Amoreira entre os 10 melhores do País

675
visualizações

Distingue-se na Educação Musical e, apesar do valor que lhe é reconhecido, lecciona desde 2002 como contratado, o que o obriga a saltar de escola em escola ano após ano

 

- Pub -

 

 

É o único docente a leccionar na região que está entre os 10 melhores professores do País. José Galvão, 46 anos, dá aulas de Educação Musical este ano no Agrupamento de Escolas do Vale da Amoreira, concelho da Moita, e é um dos 10 finalistas da segunda edição do ‘Global Teacher Prize Portugal’ – prémio que visa valorizar a importância dos professores no desenvolvimento local e nacional.

Apesar do valor que lhe é reconhecido, está desde há 17 anos a desempenhar funções como contratado. “Por isso, todos os anos mudo de escola e o leque de disciplinas que lecciono varia em função das necessidades da escola e das minhas habilitações”, diz o docente. “Já leccionei 1.º Ciclo (Expressão Musical do 1.º ao 4.º ano); 2.º Ciclo (Educação Musical 5.º e 6.º ano); 3.º Ciclo (Música do 7.º ao 9.º ano); Secundário (Expressões Artísticas do 10.º ao 12.º, turmas de Cursos Profissionais e/ou Oferta de Escola). Paralelamente à música, exerço cargos como o de director de turma, coordenador de projectos, delegado de grupo, entre outros”, adianta.

Para já sente-se privilegiado por ter sido um dos escolhidos a passar à final do ‘Global Teacher Prize Portugal’, cujo vencedor arrecadará um prémio de 30 mil euros, conquistando ainda o direito de figurar na eleição da próxima edição mundial do ‘Global Teacher Prize’ – concurso promovido pela Fundação Varkey que é tido como uma espécie de Nobel da Educação e que premeia o vencedor com um milhão de dólares.

O vencedor da edição portuguesa – que resultará da avaliação de um júri nacional composto, entre outros, por Álvaro Laborinho Lúcio e Afonso Mendonça Reis (que fará parte do júri do prémio internacional) – será anunciado no próximo dia 6, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, e José Galvão acredita que “a música pode triunfar”, apesar de a disciplina que o trouxe até aqui ser, por vezes, encarada por alguns como parente pobre no sector educativo. Alcançar o lote de finalistas, porém, “já foi uma vitória gigantesca”, admite, sem esconder satisfação.

 

Que comentário lhe merece o facto de estar no top 10? Como se sentiu quando soube que figurava na lista?

É uma honra, um privilégio. Foi uma surpresa muito agradável e uma felicidade que ainda perdura e certamente ficará por muito tempo.

Sair vencedor é uma possibilidade. Está confiante?

Quando parti para esta aventura disse logo aos meus colegas que deviam baixar as expectativas, não era por não acreditar no meu trabalho mas por ter consciência que, infelizmente, ainda existe um grande número de pessoas que considera a disciplina de Educação Musical algo menos importante, uma mera disciplina de entretenimento. Assim sendo, seria impossível vencer as matemáticas, as ciências ou as línguas. Ter chegado aqui já foi uma vitória gigantesca para mim e por isso agora estou mais confiante e acredito que sim, a música tem hipótese de vencer.

Olhando para trás, como se consegue chegar aos 10 melhores? Qual o “segredo” do sucesso?

Penso que ainda não sei essa resposta, mas ainda bem! Tento sempre dar o meu melhor e convencer-me de que é possível ultrapassar as dificuldades sejam elas quais forem. Amo a minha profissão. Julgo que isso é vital. Aliado à paixão pela música este triângulo amoroso faz-me andar motivado e lutar pelos alunos e pela educação.

O que considera ter sido mais decisivo para conseguir estar entre os finalistas?

Humildade. Não parar de inovar. O que hoje é novidade amanhã pode estar obsoleto. O espírito de partilha é igualmente importante. Aprendemos imenso uns com os outros, se não soubermos fazê-lo enquanto docentes será difícil ensinar tal competência (essencial a meu ver) aos nossos alunos.

Como se define como professor?

Criativo, muito prático e exigente. Pouco amigo das burocracias e dos papéis cuja finalidade não seja efectiva.

Que peso acha que os estabelecimentos de ensino e os alunos tiveram neste seu trajecto que para já culminou com este sucesso?

Este ano estou a dar aulas no Agrupamento de Escolas do Vale da Amoreira, mas ainda sou contratado. Já passei por 17 escolas diferentes e todas elas me marcaram. Os recursos materiais de cada estabelecimento são importantes, os recursos humanos (direcção, colegas, encarregados de educação, pessoal não docente) são ainda mais importantes, mas o que realmente faz a diferença são os alunos: com cerca de 200 alunos por ano, com turmas cada vez mais heterogéneas fui percebendo aos poucos que o professor depende muito dos seus alunos para ter menor ou maior sucesso. E quando digo sucesso não falo apenas do comportamento e aproveitamento dos alunos… falo de toda e qualquer evolução positiva que seja possível obter, ainda que, por vezes, seja algo menos visível, como por exemplo conseguir fazer com que um aluno queira vir para a escola quando antes não queria.

Além da importância que referiu, como define, de uma forma geral, os seus alunos?

“Grande parte” dos meus alunos, a maioria, passa comigo por três fases: Primeiro, a fase do ódio. Sou um professor que exige regras desde o primeiro momento e isso nem sempre é muito bem aceite. Especialmente numa disciplina onde os alunos esperam apenas diversão e entretenimento. Segundo, a fase da descoberta. Os alunos começam a ver resultados positivos e a perceber que compensa cumprir regras. Tornam-se mais interessados e participativos. Terceiro, a fase da paixão. Os alunos querem ficar nas aulas após o toque de saída e são eles que solicitam materiais e que fazem as suas próprias criações.

Cria canal de ensino visto por milhões e seguido por docentes de todo o mundo

No resumo de apresentação de José Galvão, entre os 10 finalistas, destaca-se o Canal de Educação Musical criado pelo docente, que disponibiliza on-line um livro/manual interactivo da disciplina e que já conta com oito milhões de visualizações e 27 mil seguidores, dos quais mais de dois mil são professores de Educação Musical de todo o mundo. “No âmbito do meu Mestrado [na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, onde se licenciou] em educação musical (Os alunos como músicos), consegui fundamentar teoricamente uma ideia que trago comigo desde criança. Ideia essa que, resumidamente, significa que considero que devemos ensinar/aprender música tal como fazemos na aprendizagem de uma língua materna: primeiro ouvir, depois experimentar (falar) e por fim escrever (criar)”, explica José Galvão. “Criei alguns recursos pedagógicos que partilhei on-line e que, com base nas centenas de comentários, representam uma mais-valia para o trabalho de milhares de alunos e professores”, conclui.

 

Comentários

- Pub -