Salgueiro Maia, «o capitão sem medo»

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Francisco Cantanhede – Professor

Fez no dia quatro de abril 27 anos que Salgueiro Maia faleceu. No próximo dia 25 de abril, a atual democracia portuguesa completará 45 anos. Hoje vivemos em liberdade, graças à ação dos capitães de Abril, com destaque para Salgueiro Maia, o «capitão sem medo».

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De acordo com testemunhos de camaradas militares, o homem que, na madrugada do dia 25 de abril de 1974, saiu de Santarém para que «mais ninguém tenha de sair do país, pelo que diz, escreve ou pensa», gostava de atingir os limites. Por exemplo, enquanto instrutor, «deitava-se no chão e as viaturas blindadas_ sem lhe tocarem_ passavam-lhe por cima». Um camarada descreve-o como um «falso alegre,» talvez devido ao acontecimento que presenciou com apenas quatro anos de idade, o atropelamento de sua mãe que lhe provocaria a morte, que o deixaria órfão. A profissão de seu pai, obrigou-o a mudar frequentemente de região, de escola, de amigos. A infância é a fase das nossas vidas que teima em nos acompanhar para sempre, é ela que explica muitos dos nossos comportamentos aparentemente inexplicáveis. Talvez «o capitão sem medo», o homem generoso, «o falso alegre» tenham nascido nesses tempos.

O homem que, enquanto militar, parecia nada temer, também não receava ser vítima das mentalidades mais retrógradas, já que, de acordo com o testemunho da sua esposa, «ajudava nas tarefas domésticas: apanhava a roupa, aspirava, levantava a mesa…»

«O capitão sem medo», o homem generoso, demonstrou toda a sua coragem, o seu altruísmo, no dia 25 de abril de 1974, quando enfrentou sozinho _a pé, armado com um lenço branco_ a coluna defensora da ditadura, comandada por Junqueira Reis. Salgueiro Maia, mais uma vez, atingiu os limites. De mãos levantadas, segurando o lenço branco, pretende usar a arma dos democratas, o diálogo; Junqueira Reis está pronto para aplicar os métodos dos ditadores perante os que não lhes obedecem, as armas que disparam balas, a violência, a morte. Por duas vezes manda disparar, por duas vezes é desobedecido; enraivecido puxa da pistola, até a arma teima em não lhe obedecer. Vários dos militares de Junqueira Reis passam-se para o lado de Salgueiro Maia, este morde o lábio inferior para controlar as emoções. «Foi ali, que me apercebi que o 25 de Abril estava ganho!» Afirmou mais tarde. A ditadura que chegou a 28 de maio de 1926, pela força das armas, a ditadura que usou a violência, a tortura, a morte, para se manter durante quarenta e oito anos, caiu perante a recusa de dois militares em usarem as armas, perante a recusa de uma arma em ser usada por um militar, perante um Homem treinado para a guerra, que enfrentou o inimigo armado de lenço branco como símbolo da paz, perante a vontade de um Homem que entendeu que era possível vencer sem combater!

Após os acontecimentos da Rua do Arsenal, Salgueiro Maia recebeu ordens do estratega da revolução, Otelo Saraiva de Carvalho, para ocupar o Largo do Carmo e prender Marcelo Caetano. Perante a resistência do último chefe do governo da ditadura em se entregar, o comandante das tropas que saíram de Santarém podia ter dado ordens para arrasar o quartel. Não o fez, preferiu dialogar até aos limites, até Marcelo Caetano entrar em segurança num carro blindado… Os raios solares já não brilhavam no Largo do Carmo, brilhavam os olhos do povo marejados de lágrimas, filhas da felicidade. Assim, o «capitão sem medo» fez do dia 25 de Abril de 1974 um dia de alegria, de liberdade, de festejos, sem qualquer mancha de sangue provocada pelos democratas; o único sangue do dia da liberdade jorrou de corpos de manifestantes atingidos pelas últimas balas disparadas por agentes da sanguinária P.I.D.E., na Rua António Maria Cardoso.

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