Arrábida salva da voragem dos Descobrimentos

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O porquê da floresta nacional estar em exaustão foi comentado pelo botânico Jorge Paiva numa conferência em Setúbal, onde foi realçada a importância dos bosques no desenvolvimento dos povos na Península Ibérica

 

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Actualmente só resta 20% do total da floresta que existia quando a espécie humana surgiu. É uma afirmação do botânico Jorge Paiva, e apresentada pelo próprio na conferência “A Relevância do Bosque Ibérico na História Peninsular”, que se realizou em Setúbal.

O investigador do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra traçou uma retrospetiva histórico-científica da ocupação florestal no mundo e, em particular, na Península Ibérica desde a última glaciação aos tempos contemporâneos, caracterizando os diferentes tipos de floresta que, ao longo de milénios, existiram no território ibérico.

“Nós vivíamos da floresta”, disse o botânico, e passou para a época em que, “D. Afonso Henriques tornou isto [Portugal] independente”. Era então o território “um autêntico carvalhal e grande parte do litoral tinha uma mancha enorme de pinheiros.” Mas muito desse denso verde já não existe, “tivemos o azar dos Descobrimentos”, ironizou.

Para a construção de cada nau “eram necessários entre dois a três mil carvalhos, a que se juntavam os pinheiros mansos utilizados em exclusivo nos mastros”. E, “só não foi pior porque antigamente não havia camiões para transportar a madeira”, pelo que algumas zonas ficaram intocadas, acrescentou.

Uma das zonas que escapou a este abate foi a Serra da Arrábida, “uma relíquia”, como classifica Jorge Paiva. A sua teoria é que a Arrábida sobreviveu porque “pertenceu à igreja e nesse património ninguém tocava”.

E quando a floresta quase desapareceu o povo dedicou-se à pastorícia, até que em 1565 D. Sebastião ordena a “Lei das Árvores” para a rearborização de baldios ou propriedades privadas de todos os municípios com pinheiro bravo, castanheiros, carvalhos e outras espécies adaptadas aos solos, contou Jorge Paiva.

Segundo o orador desta conferencia organizada pelo Exploratório – Centro Ciência Viva de Coimbra em parceria com a Fundação “la Caixa” e com apoio da Câmara Municipal de Setúbal, cometeram-se vários erros graves na gestão da floresta em Portugal, um deles foi “a plantação absurda de eucaliptos na década de 80”. Um outro foi “o fim dos serviços florestais”, uma decisão para travar despesa pública mas que resultou “num país transformado em deserto de pedras”.

Nesta evolução, o investigador resume a história a três momentos cruciais. “Primeiro vivíamos em exclusivo das florestas. De seguida, aprendemos a domesticar os animais e a compreender as plantas, ainda em harmonia com as florestas. Depois, foi o disparate completo”.

A conferência “A Relevância do Bosque Ibérico na História Peninsular” está integrada num ciclo de encontros que visa refletir sobre temas relacionados com a exposição “A Floresta – muito mais do que madeira”, patente ao público no Largo José Afonso, até 25 de Abril.

Este ciclo tem ainda agendadas mais duas sessões, sempre às 18h00, na Casa da Baía, a primeira a 10, com Elizabete Marchante, investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que apresenta “À conversa sobre plantas invasoras: o que são, onde estão e como as controlar”.

A encerrar o ciclo, no dia 15, Paulo Magalhães, comissário da exposição “A Floresta – muito mais do que madeira” e responsável pela Casa Comum da Humanidade em Portugal, dinamiza a conferência “Dos tangíveis aos intangíveis florestais: um novo quadro conceptual de suporte à sustentabilidade”.

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