Escrevinhões

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

Apresento o Ti Zé Bernardo, a terceira classe arrancada às exigências do ensino de outros tempos e aos maus humores de uma mestra autoritária, vão oitenta primaveras. O Ti Zé orgulha-se da caligrafia «desenxovalhada» e dos seus ditados de zero erros e «os acentos a preceito», proezas extraordinárias para três anos de instrução. Escarninho, repete para quem o quer ouvir: «Esta mocidade faz-se velha na escola, mas não sabe escrever».

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O ancião está a par das insuficiências de escrita que topamos por aí. E tem razão quando diz que tempo de escola não faltou aos «escrevinhões». Faltou-lhes, porventura, a vontade de trabalhar – porque estudar dá trabalho, muito trabalho. Estar atento, ouvir as explicações, esforçar-se para aprender, era um martírio; a leitura e a escrita, viam-nas como duas secas. Resultou que não leem um jornal, muito menos um livro. O online é a sua praia, é cool, muita imagem, textos breves, escrita do vale tudo, pouco esforço, como calha a quem não perde tempo a queimar os olhos com leituras e a dar cabo dos miolos com reflexões.

Por isso – cá se fazem, cá se pagam –, o vocabulário que dominam é limitado e pobre, e amiúde rasca. Quando escrevem, tratam as palavras como se fossem calhaus e dão pontapés na gramática que dá dó, num estilo de invenção de regras estrambóticas que só eles conhecem. Acobertados sob anonimatos e nicknames, escrevinham nas redes sociais, nos blogues, nas plataformas informatizadas dos periódicos. Nesses palcos, os escrevinhões, ébrios de um saber de cábula que beberricaram sem conta nem medida, debitam textos como quem arrota más digestões, escrevinhando patacoadas que são verdadeiros atentados à língua materna e uma tortura para o entendimento de quem os lê.

Mas, o cúmulo, o imperdoável é a escrita desleixada de quem tem a obrigação de escrever bem. É atentar nos textos de rodapé que passam e repassam nas televisões, ou na orgia que vai pelos jornais.

O Acordo Ortográfico de 1990 instalou uma enorme confusão na escrita do português. Há quem o aceite e o cumpra, e há quem o odeie e ignore. E há os milhões que não têm alternativa (quem está ligado ao ensino e à administração pública em geral, e os estudantes, por mais que não entendam as alterações introduzidas ou as reneguem, são obrigados a respeitar o Acordo).

E vivemos nesta maldição, resultado de uma «luz» que alguns visionários das letras e uns quantos políticos voluntaristas enxergaram, com prejuízo da nossa língua, confundida e maltratada na guerra das normas.

O que mais custa é vermos textos em que se misturam a norma em vigor e a anterior (de 1945), numa salsada de escrita digna duma paródia. Desculpem lá, senhores que não sabem o que escrevem! Há que optar: ou uma norma ou a outra, sendo que, quem escreve para outrem ler, não pode eximir-se às suas responsabilidades pedagógicas.

Escrever corretamente não é fácil, e não há quem não cometa os seus pecados ou pecadilhos ortográficos, de pontuação ou sintáticos – nem os escritores mais consagrados se livram deles. Condenável é a recorrência no erro, o desleixo continuado, texto após texto, entre profissionais da escrita. Um dicionário na mesa de trabalho e um pouco de estudo poupá-los-ia à chacota e ao descrédito.

Está visto: o Ti Zé Bernardo, na sua terceira classe da escola antiga, suada e sofrida que sabe Deus, quando se refere aos escrevinhões (o neologismo é dele), sabe muito bem do que fala.

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