Atravessar o Sado

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Pedro Veiga – Professor Universitário

Desde que a Atlantic Ferries explora as ligações, os preços dos bilhetes têm tido aumentos brutais

 

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Há muitas razões para atravessar o belo estuário do Sado. Há quem o atravesse por lazer, há quem o atravesse para trabalhar, há quem o atravesse para jogar no casino, há quem o atravesse para ficar alojado nos vários hotéis e apartamentos turísticos.

Há ainda quem atravesse o Sado porque mora nos concelhos de Grândola ou Alcácer do Sal e tem de ir trabalhar na área metropolitana de Lisboa ou tem de ir usar serviços de saúde em Setúbal. E há também quem o atravesse para ir trabalhar na península de Tróia, tal como os muitos trabalhadores dos empreendimentos turísticos, no casino, mas também nos serviços e empresas que existem nos concelhos referidos.

Como seria de esperar a atividade turística tem uma marcada sazonalidade, tendo uma grande atividade entre junho e setembro, mas é muito limitada no resto do ano. E a atividade do casino tem uma atividade diária que se prolonga pela noite dentro.

A Atlantic Ferries explora a ligação de passageiros, feita através de catamarnas entre Setúbal e Tróia. Explora ainda a travessia de veículos automóveis e passageiros, com ferries, entre Setúbal e 5km ao Sul de Tróia, perto da Soltroia. Isto é feito no âmbito de uma concessão de um serviço público. É nossas opinião que o uso do termo serviço público é enganador. Na realidade os catamarans funcionam das 6:20 (primeira partida de Setúbal) até às 4:30 (última saída de Tróia) e este horário alargado serve, em larga medida, os interesse do casino e do empreendimento turístico, transportando trabalhadores do empreendimento, turistas e jogadores. Isto não é serviço público.

Desde que a Atlantic Ferries explora estas ligações os preços dos bilhetes têm tido aumentos brutais. Por exemplo, em 2010 um passe custava 40€ e agora em 2019 custa 79€. Idênticos aumentos verificaram-se para os vários bilhetes. Também a instabilidade tarifária tem sido notável. Inicialmente nos catamarans comprava-se um bilhete para a ida e outro para a volta. Depois mudaram e só se passou a pagar (o dobro, claro) no trajeto Setúbal-Troia. Este ano de 2019 acabaram com tarifas especiais para a terceira idade. Além de aumentos enormes de preços verifica-se uma instabilidade tarifária muito estranha.

E quem supervisiona estas alterações tarifárias? Parece que ninguém. Já fizemos uma exposição ao Ministério que tutela os transportes, à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes e falamos com a APSS. Mas a Atlantic Ferries impõe os seus preços com o argumento da necessidade do equilíbrio económico da exploração. Até somos favoráveis a uma filosofia de não recorrer aos nossos impostos quando não se justifica, mas não podemos é aceitar que custos que não são de serviço público, como os que estão só relacionados o uso do transporte fluvial em benefício do empreendimento turístico e do casino, venham oneram quem usa a travessia para fins profissionais ou de acesso a serviços públicos que só há na capital do distrito, Setúbal, e mora nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal. E que estes preços elevados que desincentivam quem mora em Setúbal a ir para as praias da península no verão sejam aplicados em prejuízo de quem reside ou trabalha todo o ano com o Sado de permeio.

Apesar de estarem junto ao Atlântico estes dois concelhos estão muito distantes dos grandes centros populacionais e é fundamental que seja feita justiça e esta interioridade não penalize estes portugueses.

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