Somos a terra onde nascemos

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Carlos A. Cupeto -Escola de Ciências e Tecnologia
Universidade de Évora

“O Homem é um produto da superfície da terra. Isto não significa apenas que ele é um filho da terra, pó do seu pó; mas que a terra o concebeu, o alimentou lhe impôs tarefas, dirigiu pensamentos, criou dificuldades, que lhe robusteceram o corpo e aguçaram o engenho, lhe suscitou problemas de navegação, rega e, ao mesmo tempo lhe murmurou sugestões para os resolver” (Elien C. Semple, 1911). O nosso enorme Orlando Ribeiro, quando compara o alentejano ao minhoto, escreve, “para estes dois  tipos de comportamentos contam sem dúvida as condições naturais e as formas de vida material que lhes estão mais diretamente ligadas”.  Há umas semanas tive o privilégio de conviver com os Jagozes na sua terra. A terra é a Ericeira e os Jagozes é o povo desta terra que goza de grande saber. Lá me disseram que os peixes de uma pequena enseada são muito diferentes dos da mesma espécie mas ali ao lado. No mar como na terra. Isto é o mesmo que Elien Semple escreveu no início do século passado e que muitos outros confirmaram nos seus estudos; nós somos a terra, ou mar, onde nascemos e vivemos. Suspeito que os pescadores do Sado também sabem isto. E os peixes será que o sabem? As aves do sapal de Alcochete sabem-no e, provavelmente, souberam aprender a conviver com a Ponte Vasco da Gama. A natureza é inteligente. Muitos de nós sabemo-lo. Todavia, “esquecemos muita coisa que os antigos sabiam” (Albert Einstein) e nos faz muita falta. Vivemos num tempo de ilusão onde tudo parece fácil e possível; muitas vezes acreditamos que basta um click, quiçá um disponibilizar de dotação por parte do Ministério das Finanças, para tudo se resolver: é só uma questão de haver, ou não, Euros. Tudo isto se cruza com os ridículos que invadem os nossos dias. “…o Homem tem feito tanto barulho acerca da forma como conquistou a Natureza, e a Natureza tem estado tão calada na sua persistente influência sobre o Homem… (E. Semple)” que o essencial é esquecido. É por estas e por outras que a 1/2 Jornada sobre a Arrábida e Sado da semana passada tem uma enorme importância. É bom que o vamos percebendo.

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