Frei Agostinho da Cruz homenageado pela Diocese de Setúbal

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Eucaristia e lançamento de antologia fazem parte das comemorações do IV centenário da morte e dos 480 anos do nascimento do frade arrábido. Celebrações arrancam em Setúbal no sábado e vão chegar a quase todo o país

 

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Frei Agostinho da Cruz, poeta e frade arrábido, vai ser homenageado pela Diocese de Setúbal com uma série de iniciativas que assinam o IV centenário da sua morte e os 480 anos do seu nascimento, a partir deste mês e até Maio de 2020. As comemorações têm início com uma missa presidida pelo Bispo de Setúbal D. José Ornelas Carvalho e o lançamento de uma antologia, pelo professor Ruy Ventura, no próximo sábado, 16.

A eucaristia de sufrágio e acção de graças por Frei Agostinho da Cruz terá lugar na igreja paroquial da Anunciada, às 18h30, e a antologia será lançada, por sua vez, no auditório da Cúria Diocesana, com uma sessão de leitura de poemas, às 21h00. O calendário das comemorações arranca antes, quinta-feira, numa organização da autarquia de Ponte da Barca, cidade natal do conhecido padre.

No mesmo dia, às 14h30, Ruy Ventura, professor e presidente da Comissão das comemorações, dará uma conferência na Escola Secundária EB 2,3 de Aranguez, em Setúbal – onde é docente – sobre a vida, obra e relação do padre com a Arrábida. O objectivo é transmitir conhecimento, pois “os alunos são o futuro da preservação da memória de Frei Agostinho”, diz.

De membro da Corte a frade isolado

“Embora não seja dos mais conhecidos, é dos mais importantes poetas de Língua Portuguesa”, elogia o também poeta e ensaísta estudioso da vida e obra de Frei Agostinho. Na verdade, o frade chamava-se Agostinho Pimenta e só adoptou o nome por que é conhecido ao ingressar no Convento dos Frades Arrábidos, com 20 anos, uma decisão que na altura “apanhou muitas pessoas desprevenidas”.

“Era uma pessoa muito simpática, gostava de conviver com os outros e tinha uma vida desafogada na corte”, onde havia entrado ao serviço, ainda criança, como criado de D. Duarte, um dos netos do rei D. Manuel I. Frei Agostinho da Cruz viveu 45 anos no “convento mais rigoroso da Ordem” até conseguir autorização para se fixar numa ermita do Convento da Arrábida, querendo ficar mais próximo de Deus e dedicar-se à poesia.

Os seus hábitos valeram-lhe, porém, actos de contestação por parte dos outros frades. Escolheu viver “praticamente isolado, numa cela muito pobre, onde rezava missa diariamente e podia receber visitas. Muitas vezes ia à zona da Lapa de Santa Margarida para pescar e apanhar marisco”, passatempos que lhe causaram “problemas enormes”. “Frei Agostinho da Cruz foi expulso pelo menos três vezes durante os 14 anos que lá esteve”, revela Ruy Ventura.

“O facto é que ele tinha uma aura de santidade diferente da dos outros frades”, sublinha o professor. Quando adoeceu, foi levado pelos frades para a enfermaria em Setúbal, onde morreu a 14 de Março de 1619, com 79 anos, uma idade tardia para a época. “Assim que se soube que tinha morrido a população acorreu em massa ao sítio onde estava a ser velado e tiveram de lhe fazer guarda de honra para que ele não fosse desfeito em relíquias”, acrescenta Ruy Ventura.

Um poeta à frente do seu tempo

O presidente da Comissão das comemorações promovidas pela Diocese de Setúbal afirma que, além da poesia de Frei Agostinho da Cruz, “o próprio exemplo de vida dele não deixa de ser menos importante. Acabou por ser um vulto até à frente do seu tempo em muitos aspectos”, a ponto de quatrocentos anos depois ainda conseguir ensinar muita coisa. “Quanto mais lemos mais aprendemos com ele”, reflecte.

Ruy Ventura, que foi aliás quem seleccionou e organizou os poemas da antologia a apresentar no sábado, realça que a poesia de Frei Agostinho se releva “muito mais variada do que muita gente julga”. “O que tem de mais interessante é que, se a lermos com alguma frequência, é uma espécie de diário íntimo, onde vai falando de Deus e de todos os problemas que foi tendo ao longo da vida”.

Com cerca de 300 páginas, a antologia reúne “mais ou menos metade dos poemas que escreveu”, explica o professor, notando que existem poemas de que não se tem a certeza de terem sido escritos por Frei Agostinho da Cruz. Vinte e um anos depois da última reedição dos seus poemas, diz Ruy Ventura que “é importante voltar a lê-lo, voltar a entendê-lo e voltar a aprender com o exemplo dele”. “É curioso como é que um homem como ele, no século XVI, dizia que não havia nada mais importante na vida do que a liberdade”, conclui.

As comemorações do IV Centenário da morte de Frei Agostinho da Cruz e dos 480 anos do seu nascimento prevêem, além dos eventos de sábado, uma visita guiada ao Convento da Arrábida com a leitura de poemas e a participação de várias outras entidades no sábado, 23, às 15h30. Sesimbra, Almada, Barreiro, Sintra, Santarém, Porto e Ponte da Barca são outras das cidades que vão acolher eventos neste âmbito, entre Março desde ano e Maio de 2020, mês em que se assinala os 480 anos do nascimento de Frei Agostinho da Cruz. O programa encontra-se em detalhe na página de Internet da Diocese de Setúbal.

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