O missionário

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PJ VULTER – Escritor do Montijo. Publicou «Marta»,pela Coolbooks, em 2017. E publica regularmente no seu blog https://pjvulter.wixsite.com/pjvulter/blog.

Escrever é uma missão. E deve ser encarado com o espírito de sacrifício de um missionário. E não só o deve, como é essencial que o faça, quem se aventura nesta desventura…

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Um escritor escreve. Ser escritor não pode ser confundido com uma intenção, uma vontade ou um sonho; na verdade, um escritor vai-se construindo a cada palavra, a cada parágrafo, a cada obra concluída… Um escritor é uma obra em construção permanente e a cada obra terminada – quando não em unidades mais pequenas – renasce para o mundo. Para se conhecer – verdadeiramente – um escritor, tem de se ler tudo o que ele escreve; e, ainda assim, talvez muito fique por saber…

 

Um escritor expõe-se. Um escritor pode tentar proteger-se; há muitas estratégias para isso: evitar falar das coisas que lhe aconteceram; não usar a primeira pessoa do singular; usar personagens com nomes diferentes das pessoas que conhece. E isto só para mencionar algumas. Mas nada daquilo resulta e, mesmo que ache que o conseguiu, vai perceber – quando um dia for ler o que escreveu – que está lá, lá no que escreveu, a sua alma nua. E é por se expor assim que – regra geral – reage mal à crítica…

 

Um escritor quer ser lido. Não me venham com as tretas de que escrevem para eles próprios, de que são «só gajos que escrevem umas coisas», com discursos cheios de falsas modéstias e desvalorização da crítica. Quem escreve para si próprio não publica, não revê, não se aplica horas e horas num texto… Ninguém no seu bom senso se isola do mundo para escrever um texto – perfeito – que é só para si. Não. Não me lixem! Um escritor quer ser lido, admirado e apreciado pelos leitores e pela crítica. O que entretanto fazem para lidar com as coisas mais negativas é lá com eles, mas não criem esse alter-ego distante e superior; isso é ser infantil, incapaz de assumir o compromisso subentendido que aceitou quando descobriu que queria ser um escritor: contar histórias…

 

Um escritor é como um polícia; está sempre de serviço. Na sua missão de contar histórias, de reproduzir num papel – pela evocação das palavras – a ilusão da nossa realidade tridimensional num suporte bidimensional, o escritor tem de estar a atento a tudo o que acontece à sua volta; nunca se sabe quando tem de sacar da sua pena para capturar uma cena importante para a sua obra. Um escritor está sempre a conjecturar “cenas”, “ses”, “porquês”, “talvezes”, “e agoras” e “ou então”… Um escritor vive para contar histórias e as histórias podem acontecer a qualquer momento.

 

Por isso, desenganem-se aqueles que querem ser escritores, mas que nunca escreveram duas linhas, ou que não se querem expor, ou que acham que para ser escritor tem de se ser arrogante e assumir uma imagem falsa de superioridade; e, ainda, também, aqueles que acham que podem desligar o “escritor” que há em si. Parem de viajar na maionese!

 

Um escritor é somente uma alma com a missão de contar histórias; é um missionário.

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