Sousa Rama e a Monografia do Montijo

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Francisco Correia -Historiador

José de Sousa Rama nasceu na então designada Aldeia Galega do Ribatejo, hoje cidade do Montijo, a 11 de Outubro de 1848, onde, igualmente, faleceu, no dia 9 de Dezembro de 1921. Seu pai, Miguel Januário de Sousa Rama, foi notário nesta localidade.

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Segundo o registo de enterramento, existente no Arquivo Municipal do Montijo (Livro de Enterramentos, 1906-1934, f. 50 v-51 r), José de Sousa Rama foi enterrado, em “campa rasa”, no Cemitério do Montijo, a 10 de Dezembro de 1921, contando 73 anos de idade e como profissão pode-se ler que “vive de sua Agência”.

Dos poucos elementos biográficos que pudemos apurar, junto de familiares, sabemos que José de Sousa Rama foi residir para Lisboa, ainda muito jovem, onde trabalhou como empregado de escritório de várias empresas do ramo de joalharia, entre as quais a filial de Lisboa da empresa francesa Léon, Jacob & Cia.

Mas nunca se esqueceu da sua terra natal… José de Sousa Rama é um dos subscritores do requerimento enviado por diversas personalidades de Aldeia Galega do Ribatejo à presidência da Câmara Municipal, em 12 de Junho de 1881, no sentido da mudança do nome desta vila para Alda.

E, ao longo da sua vida, foi consultando documentos da Torre do Tombo e da Biblioteca Nacional sobre a terra da sua naturalidade, tendo publicado, em 1906, em edição de autor, a obra monográfica, intitulada, Coisas da Nossa Terra: Breves Notícias da Villa de Aldeia Gallega do Riba-Tejo.

Trata-se da primeira monografia escrita sobre o Montijo e a sua consulta, só possível em muito poucas bibliotecas, continua a ser obrigatória para o estudo da história deste concelho.

Em boa hora, a Câmara Municipal do Montijo, presidida pela Dr.ª Maria Amélia Antunes, decidiu fazer uma edição fac-similada desta obra, no ano de 2001. A cerimónia de lançamento, marcada para o dia 14 de Agosto – Dia da Cidade do Montijo –, contou com a presença da Presidente da Câmara Municipal, do Presidente da Assembleia Municipal, Dr. António Paracana, de familiares do autor, a jornalista e apresentadora da RTP, Manuela de Sousa Rama, e a Dr.ª Maria Teresa Barata, autora da introdução desta reedição. Coube-nos, na ocasião, a honrosa missão de falar da importância desta obra para a história do Montijo.

Das palavras então proferidas, salientaria as que se referem à metodologia empregue no trabalho, bastante moderna, para a época, utilizando a fonte documental como principal meio de perscrutar o passado.

Era a influência da escola historiográfica, dita romântica, que teve em Alexandre Herculano seu principal representante em Portugal. Para além da importância dada ao documento escrito para a história – daí a preocupação na publicação de textos, com destaque para os seus Portugaliae Monumenta Historica  –, Alexandre Herculano voltou-se para a história das sociedades em vez da história dos indivíduos eminentes, numa relação íntima entre história e cidadania.

Seguindo esta corrente historiográfica, Sousa Rama utilizou as fontes primárias (diplomas, cartas régias, etc.) como base primeira para a escrita da sua história e na   profusão das fontes documentais apresentadas, demonstrou uma admirável formação heurística. Também, no que hoje chamamos de hermenêutica das fontes documentais, se revelou capaz, na forma como tratou e interpretou os documentos.

Não faltam as conversões da era de César para a nossa era de Nosso Senhor Jesus Cristo (38 anos mais nova), o conhecimento das principais obras de referência, como o Elucidário, de Sousa Viterbo (ainda hoje, obra fundamental para a interpretação dos termos antigos) e as transcrições de documentação antiga do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, entre tantos atributos próprios de quem se dedica à investigação histórica.

Para além destes, a obra de Sousa Rama merece um outro destaque: o trabalho de cronista dos acontecimentos vividos pelo próprio, nomeadamente a descrição que faz da inauguração do então tribunal e cadeia de Aldeia Galega, hoje paços do concelho do Montijo, no ano de 1879. Deste acontecimento e de outros, por ele vividos, dos anos finais do século XIX e do início do século XX, ficam-nos a sua descrição para memória futura.

E para além da dádiva do seu saber a toda a comunidade local, antiga e presente, José de Sousa Rama acrescenta, na contracapa da edição original que “o produto da venda deste livro é destinado aos pobres de Aldeia Galega”. Mais um exemplo de um montijense que muito deu à sua terra, para nela ser enterrado “em campa rasa”.

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