A greve dos enfermeiros

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Mário Moura –
Médico

Vários lideres políticos têm afirmado, ao serem confrontados com a greve dos enfermeiros que trabalham nas salas de operações, que o direito à greve é um direito adquirido com o 25 de Abril e com o termos passado a viver em democracia.  Durante muitos anos em que exerci o meu trabalho como médico no Serviço Nacional de Saúde ( outra conquista importantíssima do 25 de Abril) que tinha a opinião de que nós médicos não tirávamos toda a complementaridade que era possível ter da atividade dos enfermeiros, classe que , entre nós, têm uma formação técnica que é admirada nos países para onde muitos deles emigram para obterem mais dinheiro e consideração.

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Postas as coisas neste pé e reconhecendo que os enfermeiros que exercem a sua atividade nas salas de operações têm direito a ser considerados especialistas, no meu entender estão a perder a sua legitimidade ao serem subsidiados por dinheiros que não são oriundos da própria classe. Explico a minha opinião esperando que não seja considerado adepto das chamadas “teorias da conspiração”, mas este facto de o esforço da greve ser aliviado porque “alguém” subsidia a greve, abre  a possibilidade dos enfermeiros poderem ser manipulados para outros fins que não a justa reivindicação  que proclamam. Não custa muito imaginar que esta greve possa ser manipulada para a deterioração do Serviço Nacional de Saúde e em favor da medicina privada. E se pensarmos que é feita em nome de sindicatos pequenos e de formação recente, esta suspeita tem “asas para voar”. É indiscutível que a medicina privada vai de vento em popa assistindo nós até à ampliação de grandes hospitais privados.

Nós sabemos que o nosso SNS tem ultimamente sofrido com as limitações orçamentais, que há novas tecnologias que se não podem adquirir, aparelhos que necessitam de ser renovados, que há falta de algumas especialidades médicas, que precisamente há falta de enfermeiros e pessoal técnico, mas a população do nosso país tem direito a ter assistência médica de qualidade gratuita (ou tendencionalmente gratuita). Nós sabemos que os nossos Cuidados de Saúde Primários – onde cerca de 80% dos doentes podem encontrar a solução dos seus padecimentos – necessitam de mais Unidades de Saúde , e que elas sejam apetrechadas com mais alguma tecnologia e de outros técnicos , como por exemplo psicólogos. E que muito se pode fazer para melhorar o trabalho de grupo, especialmente com a enfermagem.

Chegados aqui convém também chamar a atenção que , embora as greves sejam para fazer sentir  que o grupo profissional que se ausenta do trabalho faz falta e prejudica sempre alguém, o que diz respeito à saúde necessita ser muito ponderado nas suas consequências, pois os chamados serviços mínimos não impedem os efeitos nefastos da greve em muitos utentes, e quando se trata de cirurgias então o problema torna-se muito mais agudo.

E como estou a falar do SNS desde há muitos anos que penso que os médicos deviam estar em exclusividade, desde que pagos como deve ser. O Estado gastou muito dinheiro com a formação dos médicos e esta exclusividade, pelo menos por  XX anos, que anda de novo no ar seria uma boa medida – é necessário que o privado não parasite o sistema público.

E volto a dizer que greves subsidiadas não se sabe por quem são um verdadeiro prejuízo para os sindicatos – se isto “pega” a atividade sindical ficará muito prejudicada e os enfermeiros agora em greve devem pensar nesta chamada de atenção para que não possam aparecer “teorias da conspiração” como agora deliberadamente fiz neste escrito.

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