Os coletes amarelos

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Mário Moura –
Médico

A França e a sua capital – Paris – tem o condão de conseguir modificar  a organização social da Europa que depois se alastra ao resto do mundo . Em 1789 a burguesia francesa na peugada dos enciclopedista dá inicio a uma revolução que poe termo ao absolutismo de monarquias todo poderosas que centravam em si todo poder dando origem a uma classe (a nobreza) que vivia faustosamente enquanto o povo vivia miseravelmente. É evidente que nessa época uma classe média (a burguesia) tinha já poder económico e a cultura necessárias para não aceitarem a continuação desse poder absoluto da monarquia e em Paris dão inicio a um processo revolucionário que simbolicamente se concretiza com a tomada da Bastilha, prisão  que significava esse despotismo monárquico. Estendeu-se esse processo por várias fases, houve mortes, assassinatos, agitação que se concretiza com a morte na guilhotina do rei e da rainha. O processo de mudança dura vários anos e fica plasmado numa Constituição e na participação na governação das outras classes sociais.   Em Maio de 1968 os estudantes da universidade de Paris desencadeiam uma verdadeira contestação ao regime socio-político em que se vivia (e se vive ainda), animados por filósofos e por alguns professores. Levantam-se barricadas nas ruas, afronta-se a polícia, grita-se que #é proibido proibir” ou clama-se “a imaginação ao poder”, os operários não compreendem bem o que se passava e a classe média igualmente passava ao lado das razões da agitação dos estudantes que queriam, sem saber bem como, que a sociedade fosse mais livre, que o poder do dinheiro fosse controlado e as regras rígidas da sociedade modificadas. O General De Gaulle, então no poder acaba por fazer vingar a ordem que recebe o apoio maciço da classe média francesa. Foi até aos nossos dias a única contestação forte que se sentiu contra os malefícios do nosso sistema atual – e deu em nada!   Agora, ao findar o ano de 2018, de novo em Paris, o povo, aparentemente sem chefes nem qualquer fundamentação ideológica ou partidária, vem para as ruas contestar a organização social em que vivemos e que concentra o poder financeiro em meia dúzia de mãos enquanto a maioria da população chega ao fim do mês sem dinheiro, enquanto a pobreza  se não resolve e uma multidão de pessoas , como dizia um “colete amarelo”, não vivem , sobrevivem, esmagados pelos impostos e pelos preços das coisas essenciais à vida de cada um . Nos últimos anos houve também entre nós uma manifestação enorme durante um dia, houve noutros países concentrações que duraram vários dias em Espanha ou em Londres, que foram “morrendo” lentamente até desaparecerem e deixando alguns partidos políticos novos, contestatários que esboçam uma entrada na nossa organização política. Parece que deixou de haver esquerdas e direitas mas sim, os de cima e os de baixo, e os polos políticos aqui pela Europa começam a  ser disputados pelos populistas e pelos partidos da extrema direita – o que não augura um futuro risonho. Mas este mês, todos os sábados, o povo de Paris tem-se manifestado  duma maneira ruidosa. Afrontados pela polícia, essas concentrações de gente de colete amarelo talvez tragam alguma mudança palpável nesta sociedade que centrifuga para as periferias da sociedade os mais débeis e os mais pobres. Será que mais uma vez o povo de Paris vai conseguir alguma viragem nas nossas organizações políticas e conseguir alguma mudança socio-política que corrija tanta desigualdade nas massas populares?  Que a nossa sociedade está doente é fácil sentir, estando – entre nós – em greve, juízes, enfermeiros, operários dos transportes, professores, guardas prisionais e sei lá quantas mais classes profissionais não estão contentes com a sua situação. Esperemos que a contestação em Paris não seja aproveitada por elementos violentos que espreitam todas as oportunidades para espalhar a violência. Esperemos que este movimento dos “coletes amarelos” não seja desvirtuado e consiga mais uma vez marcar a posição do povo francês e consiga obter alguma modificação que torne a vida mais agradável.

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