A luta dos estivadores do porto de Setúbal

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Juvenal José Cordeiro Danado – Professor

Uma vergonha, a dimensão da precariedade do trabalho no porto de Setúbal (situação semelhante nos demais portos nacionais, afirmação de um senhor gestor, em modos de quem sacode águas da casaca). Contratos ao dia, há dez e há vinte anos, nalguns casos. A lógica da exploração desenfreada, selvagem, ilegal e imoral do trabalho. A imensidão de defensores que ela conta entre nós – uns espertalhões que esperam extraordinárias produtividades dos trabalhadores que maltratam! Não lhes chega a flexibilidade (tiveram-na, a pedido) das leis que regulam o trabalho. Violam-nas a cada passo, querem mais, sempre mais. Não há limites para a ambição dos garganeiros. Nos portos, demasiaram-se na garganice. Imaginem-se vossorias na pele dos que exploram, e falem-me de justiça e de humanidade; e também de consciência.

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Há que Deus que as reivindicações dos estivadores eram irrealistas e que o arcaboiço financeiro das empresas as não comportaria. A conversa fiada do costume, para influenciar a opinião pública contra os trabalhadores, a ver se pega. Não pegou, porque o abuso é gritante. E quando se viram apertados, pela ministra, pela opinião pública e pela paralisação, foram dando toques e retoques no discurso.

Foi preciso recorrer à greve (a luta, a luta sem a qual os servos e os oprimidos jamais teriam logrado emancipar-se dos senhores e dos tiranos), o porto inativo há semanas, a intervenção da ministra. Havia necessidade? Quanto é que custará a arrogância dos exploradores da estiva no porto de Setúbal? Aos próprios e aos estivadores, às empresas impedidas de exportar, ao porto e à cidade, ao país?

O IMT e a APSS distraíram-se (o estuário é lindo, as gaivotas melodiavam, os navios carregavam e descarregavam…), não dando importância à exploração abjeta, quando lhes compete regular as relações de trabalho no porto. Veio a ministra e ralhou. E fez muito bem. Pena que só o tenha feito quando as atividades portuárias paralisaram. Era uma questão de tempo até acontecer – muito estranhamente descuidados com os seus direitos têm sido os estivadores, e mais quem os representa.

A ganância, apurada no caldo dos séculos, anda sempre à cata de novas e inauditas formas de exploração do trabalho. Encontrando no seu caminho trabalhadores fragilizados (de costas viradas às organizações representativas, ou deficientemente representados por elas), entra no abuso. O braço de ferro entre trabalhadores e patronato, tão velho quanto o dealbar da exploração do homem pelo homem, é eterno: os trabalhadores pelos seus direitos e pela conquista de condições menos penosas de trabalho e de vida, os patrões/acionistas pela lambança dos seus ganhos.

A polémica sindical que veio a público, não aproveita à luta dos estivadores. As organizações sindicais passam por tempos conturbados, e não é fácil descortinarmos dias radiosos no horizonte. Guerras entre sindicalistas, além de coisa feia de se ver e ouvir, são achas para alimentar a fogueira acesa pelos detratores dos sindicatos.

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