O advento

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Mário Moura –
Médico

Nos últimos dias acenderam-se luzes nas ruas das cidades, ornamentam-se as montras das lojas, a TV em todos os canais mostra como por todo o país e até por todo mundo se faz um apelo ao consumismo camuflado pelo clima de festa e de intensidade religiosa. Mostram-se brinquedos tentadores para as crianças que pedem ao Menino Jesus que lhos deem ou ao pai Natal  que foi introduzido nesta quadra para reforçar o tal apelo ao consumismo desta sociedade que se caracteriza precisamente pelo esquecimento das motivações religiosas desta quadra do ano.

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Precisamente entramos numa quadra do ano litúrgico em que nos preparamos para comemorar o nascimento de Jesus que é para os cristãos a incarnação de Deus. Não sabemos ao certo   a data  em que esse homem que se dizia Filho de Deus  veio proclamar que devemos amar o nosso próximo, principalmente os mais pobres e desprotegidos, que veio colocar o homem no centro das nossas preocupações, que veio com o seu exemplo contestar certas regras rígidas que eram colocadas à frente do apoio aos centrifugados pela sociedade para as margens, entrando em conflito com os sacerdotes da época.

Este período chama-se ADVENTO e será um tempo para se refletir sobre a vida que se leva na sociedade em que nos integramos e a reorientemos para  o bem, para a fraternidade, para a correção das desigualdades sociais e para o anuncio duma sociedade mais perfeita. Sabemos que o Natal se começou a festejar muitos anos depois do cristianismo estar já implantado com alguma segurança pelo mundo de então. E sabemos que, mais próximo de nós, a tal sociedade de consumo a aproveitou para estimular o despesismo, e não sendo suficiente este culto do nascimento de Jesus que logo após o seu  nascimento começou recebendo oferendas dos Reis Magos e dos pastores, criou o mito do Pai Natal vindo de longe com um saco cheio de presentes para as crianças, mobilizando assim para as festas todo mundo mesmo sem ser cristão – tornou-se assim uma verdadeira festa sem sentido verdadeiramente religioso para a maior parte das pessoas  – o mesmo se passa com a Páscoa. É evidente que a Igreja organizada também embarcou nestas festividades em que durante séculos se foi anquilosando em ritualismos esquecendo o seu verdadeiro objetivo da proclamação da Boa Nova aos mais pobres.

O Papa que em boa hora presentemente se senta na cadeira de Pedro, em Roma, está tentando reorientar a vida da Igreja precisamente para as periferias das nossas comunidades, condenando as orientações da atual sociedade (que mata, diz Ele!),  proclamando que a Igreja deve sair das sacristias e sair para as ruas dando testemunho da solidariedade, do amor ao próximo, e colocando até a hierarquia no seu devido lugar de pastores e não de chefes . Tomemos então consciência de que esta época do Advento se deve caracterizar por uma verdadeira mudança das nossas vidas  que se devem orientar para os mais pobres. E lembremos que aqui entre nós portugueses temos mais de um milhão de pessoas no limiar da pobreza e temos uma classe media que vive em equilíbrios  constantes pelo seus rendimentos serem muito escassos. Para muitos que se dizem cristãos esta época é dolorosa , esmagados pela força da propaganda que os empurra para a tal sociedade de consumo. Mas pensemos que o tal Menino Jesus nasceu numa gruta, envolto em panos, e  que depois de crescer proclamou o Amor aos outros e defendeu as suas ideias até à morte – é uma boa época para refletir e mudar, para exames de consciência e mudanças de rumo.

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